O mercado é do povo: obras para a Copa de 2014 geram protestos em Belo Horizonte

Um projeto que prevê a transformação de uma área pública – hoje ocupada por um Mercado Distrital – em shopping center, centro de convenções, estacionamento e dois hotéis, com inauguração prevista para até 2014, gerou protestos em Belo Horizonte. Diante disso, a Prefeitura recuou, suspendendo o projeto. A decisão, anunciada pelo secretário Municipal de Desenvolvimento da capital, Marcello Faulhaber, aconteceu na véspera da manifestação chamada de Feliz Invasão do Mercado.

 

Mesmo com a decisão da prefeitura, a convocação para a manifestação foi mantida pelos seus organizadores e realizada neste sábado, dia 7 de abril, no próprio Mercado. Afinal, o que os manifestantes querem é outra forma de intervenção, que privilegie os espaços públicos e o tipo de sociabilidade que o Mercado abriga.
O projeto apresentado pela empresa de engenharia Santec é fruto de um PMI – Procedimento de Manifestação de Interesse – lançado pela Prefeitura de Belo Horizonte, em junho de 2010, com o objetivo de atrair investidores privados. Com esse projeto a Prefeitura intenciona resolver problemas relacionados à falta de estacionamentos no local – gerados pela presença de uma Universidade nas suas proximidades –, a baixa frequência ao Mercado, além da oferta de mais leitos para a Copa de 2014. Contudo, para a Associação dos Moradores do Bairro Cruizeiro, o Instituto dos Arquitetos (IAB) e os frequentadores do mercado presentes na manifestação, a obra usurparia da população um espaço público de grande valor, privilegiaria os interesses privados e acentuaria o já congestionado tráfego na região. Além disso, questiona-se a ideia de transformar tudo em shopping, inviabilizando outras formas de comercialização e de interação social.
O Mercado, segundo os seus frequentadores, é um espaço acolhedor e amigável, de encontro dos moradores da região e aberto a presença de pessoas de diferentes classes sociais e idades. É comum ver ali pessoas mais velhas que o utilizam como lugar de compras, mas também de lazer, assim como jovens que buscam produtos artesanais e raros. A presença de uma pequena favela nas suas imediações faz com que seus frequentadores também sejam diversos socialmente. O fato de ser um mercado distrital municipal, estabelecido neste local há mais de três décadas, dá um tom de familiaridade às interações entre comerciantes e frequentadores, distinta da impessoalidade, homogeneidade e formalidade que marcam os shopping centers.
Os cartazes abaixo, expostos durante a manifestação, expressam uma demanda pela permanência desse tipo de sociabilidade típica de alguns espaços da cidade. Sociabilidade essa que, muito embora os interesses econômicos a negligenciem, parte significativa da população pretende e se mobiliza para preservar.
Os que ali se reuniram protestaram também contra uma forma pouco democrática de decisão: ancorada, agora, na urgência de se realizar a Copa do Mundo de 2014.

 

Escrito por Observatório|Última atualização em Qua, 11 de Maio de 2011 17:40

 

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