Trajetórias juvenis na periferia de Belo Horizonte

Trajetórias juvenis na periferia de Belo Horizonte

O geógrafo e cientista social, Marco Antônio Couto Marinho, analisa na tese “Vida Social na Marginal” os aspectos estruturantes da vida social na região metropolitana de Belo Horizonte a partir da construção de trajetórias de vida. Por meio da imersão etnográfica no bairro Estrela D’alva, na metrópole mineira, o autor investiga as esferas de sociabilidade juvenis, como o hip-hop e a religião. Desse mergulho ele constrói as trajetórias de Miro, Faro, Maicon e Suzano com o objetivo de contribuir para o debate sobre as novas configurações da desigualdade da sociedade brasileira, caracterizada pelo intensificação dos processos de urbanização e crescimento das taxas de homicídios juvenis.

A tese “Vida Social na Marginal: trajetórias juvenis na periferia metropolitana de Belo Horizonte”, de autoria de Marco Antônio Couto Marinho, vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da PUC Minas, é mais um resultado da Rede Nacional INCT Observatório das Metrópoles. O trabalho contou com orientação da Profa. Drª Luciana Teixeira de Andrade e co-orientada em Portugual pelo Profº. Dr. Luís Miguel da Silva de Almeida Chaves.

A defesa aconteceu em fevereiro de 2016 em Belo Horizonte e contou na banca examinadora com as presenças da Profª Drª Maria José Nogueira (Fundação João Pinheiro); Profº Dr. Luiz Flávio Sapori (PUC Minas) e Profª Drª Alessandra Sampaio Chacham (PUC Minas).

O trabalho busca contribuir para o amplo e recente debate sobre novas configurações da desigualdade na sociedade brasileira, produzido nas ciências sociais, em relação ao paradoxo, notado nos últimos 30 anos, da expansão do Estado Liberal de Direito e da urbanização concomitantes ao crescimento das taxas de homicídios juvenis e da persistência da desigualdade social optou-se pela construção de trajetórias de vida de jovens daperiferia.

A tese tem como objetivo apresentar aspectos estruturantes da vida social na região metropolitana de Belo Horizonte a partir da construção de trajetórias de vida.  Tal proposta fundamenta-se na conjugação entre diversas abordagens de pesquisa adotadas nas Ciências Sociais, principalmente a etnográfica e a biográfica. De acordo com Marco Antônio Couto Marinho, através das trajetórias é possível avaliar contextos e locais onde os sujeitos agem e têm suas experiências de vida; já a etnografia por sua vez oferece um importante recurso para a aproximação entre o pesquisador social e o universo social do qual busca construir conhecimento. “Recorrendo à junção dessas abordagens, no desenvolvimento da tese foi levantada a perspectiva dos indivíduos, sujeitos que agem socialmente, evidenciando tensões e complexidades do cotidiano de suas vidas durante a transição para a vida adulta”, explica.

O campo de pesquisa foi o bairro Estrela D’alva, situado no município de Contagem, Minas Gerais. O município está localizado na região metropolitana de Belo Horizonte, e o bairro em si é caracterizado como uma área com concentração de famílias em situação de pobreza e que desde a década de 2000 passa por problemas públicos relacionados à violência e a expansão de atividades criminosas locais.

“Ao longo de mais de dois anos de etnografia no Estrela D’alva busquei inserir-me nas esferas de sociabilidade juvenis que se desenvolviam no bairro, tais como o hip-hop e a religião. Por meio da imersão etnográfica nessas esferas e de observações do cotidiano do bairro em espaços públicos como praças e ruas, comércio e serviços locais busquei estabelecer o contato com os jovens com quem realizei as entrevistas biográficas. Na tese são apresentadas as trajetórias de Miro, Faro, Maicon e Suzano”, aponta o pesquisador.

VIDA SOCIAL NA MARGINAL DE BELO HORIZONTE

As trajetórias juvenis apresentam inúmeros aspectos que podem servir como mote para explicar e compreender realidades sociais, sem nunca esgotá-las. Marco Antônio Couto Marinho explica que, no percurso do trabalho, buscou apresentar uma convergência entre a conformação da região metropolitana de Belo Horizonte e aspectos recentes que marcam os modos de vida e sobrevivência na periferia dessa mesma região a partir da trajetória de vida de quatro interlocutores que, em seu conjunto, apontam para a multiplicidade de percursos, comprometimentos, constrangimentos e projetos de vida.

“Para esta tese escolhi dois aspectos estruturantes dos percursos de vida dos jovens biografados que denomino aqui como trajetória-sacrifício e como trajetória-orientada-para-dentro. Tratam-se de duas dimensões distintas que se retroalimentam e, se traduzem como uma condição estrutural por meio da qual Miro, Faro, Maicon e Suzano transitaram para vida adulta a partir das relações sociais que estabeleceram no ambiente metropolitano de Belo Horizonte”, aponta.

De acordo com o trabalho, a trajetória-sacrifício representa o peso da condição de subalternidade que os jovens da periferia (em especial aqueles marcados como “preto” e “favelado”) experimentam no contexto da estratificação social na região metropolitana, eles ocupam as posições e/ou papeis sociais que exigem “sacrifício”, abdicação, recusas e reorganização dos projetos de vida, voluntárias ou involuntárias.

“Em um ‘mercado restringido’ e estruturado por um modelo de desenvolvimento econômico excludente, os jovens da periferia têm a maior parte das oportunidades relacionadas à inserção em ocupações formais e informais que exigem menos qualificação profissional ou escolarização mínima, como atendentes, garçons, auxiliares de cozinha, lavadores de carro, gari, coleta de material reciclável nas ruas, carga e descarga de caminhões, em serralherias operando máquinas de solda, como pintores, enfim, uma montante de ocupações que oferecem salários baixos em relação custo de vida metropolitano e ao volume de trabalho e desgaste físico envolvido, e assim, assume um tom de sacrifício”, avalia Marco Antônio.

Na trajetória de Maicon, por exemplo, ele se sacrificou para dar conforto à sua família, ele se dispôs a bancar sua vida familiar a partir de um padrão que de consumo fundamentado pela tríade casa própria, automóvel, uma grande TV e geladeira. Tudo isso supostamente sustentado pelo emprego “estável”com carteira assinada. A casa mobiliada e equipada com eletrodomésticos, as roupas réplicas de grifes mundialmente famosas, tudo isso sustentado por uma narrativa de sacrifício legitimada pela retórica e pela prática religiosa da qual Maicon manteve-se adepto. “Ele adotou um tipo de comportamento ascético no sentido da ética identificada no protestantismo por Weber, que representa uma forma de compreensão do mundo e da vida na qual o empenho e sucesso no mundo do trabalho refletiriam diretamente o respeito para com Deus e a possibilidade de salvação”.

Marco Antônio Couto Marinho explica que a definição para o termo sacrifício tem sua origem no latim sacrificium, palavra composta por sacer e ficium cujo significado literal seria “ato de fazer/manifestar o sagrado”, ou, “ato de passar da esfera do profano para a esfera do sagrado” que na língua portuguesa tem o sentido de “privação, voluntária ou forçada, de um bem ou de um direito”.

Segundo o pesquisador de muitas formas a experiência social juvenil na periferia metropolitana apresentou-se como um estar no mundo por meio do sacrifício, de naturalização ou de crítica à privação voluntária ou forçada de um bem (material ou simbólico) ou de um direito instituído formalmente ou pelos costumes. “Esse foi o ponto de inflexão de Faro, por exemplo, ao notar entre os jovens de outras classes sociais, alunos do colégio particular católico, o direito de curtir a vida do qual eles dispunham e que, em certo sentido, era interditado a Faro. Na sua percepção, era como se esse direito a curtir a vida fosse socialmente proibido ao jovem da periferia que, pela necessidade, inicia cedo sua inserção no mercado econômico metropolitano, geralmente como mão de obra para abastecer postos de trabalho infantil ou trabalho ‘protegido’, como é caso do Cruz Vermelha. Além disso, no campo da cidadania Faro tinha seus direitos violados pelo próprio Estado de Direito como ilustrou sua narrativa no trecho que cita a ocasião na qual foi abordado violentamente pela polícia na porta do CRAS quando saía para o almoço”, descreve Marinho e completa:

É nesse sentido que eu interpreto as tais trajetórias como trajetóriassacrifício, per serem percursos de vida de indivíduos que ocupam, corroborando com Feltran, o mesmo estatuto de um imigrante clandestino na própria sociedade. Os jovens da periferia ocupam na sociedade brasileira a mesma posição na estrutura produtiva que os imigrantes clandestinos nas sociedades europeia ou estadunidense. Essa posição de fronteira que envolve vínculos clandestinos, informais, também é notável no campo dos direitos formais. Os jovens da periferia ocupam também o estatuto de suspeito, são eles o alvo da sujeição criminal (MISSE, 2010), do estigma de potencial bandido na sociedade brasileira contemporânea”.

A tese aponta, segundo Misse (2010), que a sujeição criminal trata de uma construção social, reflexo da estratificação econômica e moral, um processo de subjetivação no qual o crime enquanto categoria genérica passa ser socialmente representado por determinados tipos de personalidade presentes em sujeitos portadores “naturais” do comportamento criminoso, como parte da sua essência de pessoa. Não se trataria de desvio, nem de comportamento desviante, mas daquilo que está institucionalmente reconhecido como crime, e assim, Misse (2010) destaca que na sujeição criminal a expectativa é de que o bandido seja socialmente reconhecido como um sujeito irrecuperável, cujo mal é inerente e constituído em seu processo de subjetivação.

Já para Miro, o trabalho mortra que a relação entre sacrifício e sujeição criminal se desdobrava na consciência dos papeis oferecidos pela sociedade aos jovens da periferia: “cidadão de bem” (uma pessoa conformada a suportar sacrifícios sem reclamar) ou ser bandido, o “caminho do mal”, o crime. A construção de um caminho alternativo também representava outro sacrifício, em busca de uma fuga aos lugares onde a sociedade tende a colocar tais indivíduos: no trabalho pesado, subserviente, morto violentamente ou na prisão. Ou, como foi o que lhe ocorreu, teve que fugir do bairro, sair de lá para não ser morto, de outra forma Miro trilhava caminhos pouco alternativos, novamente ele se deparava com limites sociais que não conseguia transpor efetivamente sozinho ou em família.

Os percursos alternativos por sua vez, como os traçados por Suzano, não estavam isentos dos sacrifícios, da trajetória-sacrifício. Suzano “não teve infância”, conforme sua mãe relatou sobre a percepção dos vizinhos em relação à vida que ele levava: não aprendeu a andar de bicicleta, não soltou papagaio, não jogou bola na rua, nem teve problemas na igreja por causa de namoro na adolescência, enfim, Suzano foi bom aluno, bom filho, frequentou a igreja não desviou em nada do caminho tracejado por sua mãe.

Não foi fácil para ele suportar as tensões entre a casa e a rua, entre a ordem interna e a ordem externa. No “olho do furacão”, na Vila Francisco Mariano, uma das áreas onde a violência antecedia os episódios ocorridos no bairro após 2005, Suzano optou em aderir ao projeto de sua mãe, e assim, sacrificou-se por ele. “Possivelmente, não se tratou de uma escolha no sentido de gestão autônoma e individual, mas de uma relação de segurança e confiança no projeto desenvolvido por sua mãe. Por outro lado, por meio da vida religiosa, ao ter contato com a vida pública do Estrela D’alva, ele teve contato com os problemas vividos por outras famílias do bairro, inclusive a violência, e assim, passou a adotar, por meio da religião, o trabalho voluntário como uma forma de doar-se às pessoas do local”, defende o pesquisador.

Enfim, na marginal os jovens elaboraram percursos de vida que envolveram o trabalho precoce e precário intercalado ao tempo de estudo. Dentre os quatro jovens biografados somente Suzano, o que começou a trabalhar mais tarde, com 15 anos, manteve seu vinculo estudantil e conseguiu cursar e concluir o ensino superior. São raras as trajetórias como as de Suzano que, apesar das dificuldades impostas pelos poucos recursos em um núcleo familiar reduzido, conseguem alguma projeção profissional para outros campos de ocupação, especialmente aquelas onde se exige maior e melhor qualificação e níveis avançados de estudo. Apesar disso, com graus de comprometimento e atribuições variados, todos os quatro foram durante algum tempo trabalhadores e estudantes simultaneamente, condição penosa, e que geralmente interferia no desempenho e carreira escolar dos indivíduos.

Acesse, no link a seguir, a tese completa “Vida Social na Marginal: trajetórias juvenis na periferia metropolitana de Belo Horizonte”.

 

Publicado em Produção acadêmica | Última modificação em 28-06-2016 20:20:09

 

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