Entre a proximidade e a distância: Simmel e a vivência do urbano

Entre a proximidade e a distância: Simmel e a vivência do urbano

As transformações que ocorrem nas metrópoles afetam diversas dimensões do social, entre elas, as relações de sociabilidade e a dimensão da impessoalidade, marcada pelas atitudes de reserva que os indivíduos desenvolvem uns com os outros. Essas dimensões são discutidas por Clara Natália Steigleder Walter a partir da análise de Georg Simmel sobre as grandes cidades e de autores contemporâneos que tratam do indivíduo e das mudanças nas esferas públicas e privadas, com a finalidade de compreender o “espírito da metrópole” contemporânea. O artigo é um dos destaques da edição nº 12 da Revista eletrônica e-metropolis.

O artigo “Entre a proximidade e a distância: a sociabilidade e a impessoalidade na vivência do urbano” é um dos destaques da edição nº 12 da Revista eletrônica e-metropolis – publicação trimestral que tem como objetivo principal suscitar o debate e incentivar a divulgação de trabalhos relacionados à dinâmica da vida urbana contemporânea e áreas afins. A Revista e-metropolis é editada por alunos de pós-graduação de programas vinculados ao INCT Observatório das Metrópoles e conta com a colaboração de pesquisadores, estudiosos e interessados de diversas áreas que contribuam com a discussão sobre o espaço urbano de forma cada vez mais vasta e inclusiva.

 

Entre a proximidade e a distância

Por Clara Natália Steigleder Walter

Cloé, uma das cidades invisíveis imaginadas por Ítalo Calvino, é um lugar onde “as pessoas que passam pelas ruas não se reconhecem. Quando se vêem, imaginam mil coisas a respeito umas das outras, os encontros que poderiam ocorrer entre elas, as conversas, as surpresas, as carícias, as mordidas” (CALVINO, 1998, p. 51). Ao descrever Cloé, o autor resgata um tema recorrente na literatura sobre cidades, que é o da experiência urbana. A vivência nas grandes cidades faz com o indivíduo experimente ao mesmo tempo um sentimento de liberdade, uma vez que o anonimato, na mistura com a multidão, liberta, e um sentimento de solidão. Essa ambiguidade, existente somente nas grandes cidades, possibilita que as diferentes interações que ocorrem entre seus habitantes e desses com o espaço sejam aguçadas pela imaginação.

Os habitantes de Cloé não reconhecem uns aos outros, se relacionam entre si num plano não concreto, suas relações ocorrem a partir da imaginação, que lhes indica, entre outras coisas, quem é quem, o que está fazendo, o que pensa, que tipo de relação poderia existir se houvesse um encontro. Pensar sobre as cidades e suas intrincadas teias de relações requer um processo de abstração semelhante ao que os habitantes de Cloé realizam, indo além dos que os aspectos formais da cidade estão informando, do que os dados estão demonstrando, do que se apresenta fácil ao olhar do observador. A investigação sobre o urbano requer, assim, observar como a cidade praticada se insinua no texto ou no conceito da cidade planejada e visível (CERTEAU, 1994).

As transformações que passam a ocorrer nas cidades, principalmente a partir do séc. XIX, além de afetar de diversas formas as relações entre os indivíduos e desses com o espaço, suscitaram a construção de diferentes representações sobre o que é a cidade, sobre seus espaços concretos e sociais. São novos problemas, novos conflitos sociais e espaciais, novas configurações sociais que passam a fazer parte do cotidiano dos habitantes dessas cidades.

Este artigo discute duas dimensões do social que se revelaram importantes na compreensão da vivência urbana desde o final do séc. XIX: as relações de sociabilidade e o desenvolvimento da impessoalidade  marcada pelas atitudes de reserva que os indivíduos passam a ter uns com os outros. Essas dimensões são

discutidas principalmente a partir das contribuições de Georg Simmel em sua análise sobre as grandes cidades, depois é apresentada a perspectiva de autores contemporâneos, especialmente Richard Sennet que trata do indivíduo e das mudanças nas esferas públicas e privadas.

As cidades e a maneira como as pessoas vivenciam seus espaços continuam se transformando, algumas muito rapidamente. Entende-se que apesar da transformação secular pela qual a metrópole passou, uma leitura atualizada desses conceitos, aliada a novas formulações sobre o indivíduo e transformações das  relações sociais que se estabelecem no meio urbano, podem contribuir muito com o desenvolvimento do pensamento urbanístico e para a compreensão do que seria “o espírito da metrópole” nos dias atuais.

A CIDADE COMO OBJETO SOCIOLÓGICO

A cidade e as relações sociais que nela ocorrem passam a ser objeto de estudo a partir do século XIX, quando se impõem novas questões e novos problemas decorrentes da Revolução Industrial. É na cidade, no espaço urbano que começa a ser constituído, que os problemas sociais se tornam mais prementes.

As novas formas de produção transformaram o trabalho e implicaram novos padrões de relações sociais, transformando tudo a seu redor, inclusive o espaço construído das cidades. A exploração do trabalho e as péssimas condições de vida da classe trabalhadora, juntamente com a enorme migração de homens e mulheres à cidade em busca de trabalho, passam a constituir novos problemas e a requererem novas soluções. É uma nova configuração social e espacial que transforma, inclusive, a forma como as pessoas vivenciam o espaço urbano.

Diversos autores se debruçaram sobre o estudo das cidades e seus problemas. Entre os teóricos da Sociologia clássica, destacam-se Marx, Engels, Weber, Simmel e outros, que com seus estudos contribuíram para a origem do que mais adiante se denominou Sociologia Urbana. Weber (1976), por exemplo, criou uma tipologia das cidades da mesma forma que fez com as relações de dominação. Para ele, as modernas metrópoles passam a ser ao mesmo tempo sede de governo, cidade produtora e consumidora, cidade portuária e também sede do dinheiro, do capital financeiro, ou seja, são como a moldura de um quadro no qual os diversos elementos do sistema capitalista estão dispostos: o dinheiro, o capital, o modo capitalista de produção, a mercadoria.

No início do século passado, Georg Simmel (1976) debruçou-se sobre a cidade grande e moderna como o lugar onde passa a imperar a racionalidade capitalista ou, para usar um termo cunhado por Habermas (1989) anos mais tarde, onde a racionalidade do mundo sistêmico se contrapõe à racionalidade do mundo da vida, em muitos casos, colonizando o es- paço público. Segundo Habermas, na sociedade capitalista, duas formas de racionalidade da ordem social imperam nesse espaço: uma estratégica relacionada às funções econômicas e políticas e necessária à manutenção da vida e sua reprodução e, outra, comunicativa, na qual o entendimento intersubjetivo se daria pela mediação linguística acerca dos fatos, normas sociais e vivências subjetivas.

Para ver o artigo completo, acesse a Revista eletrônica e-metropolis edição nº 12 aqui.

 

Última modificação em 29-05-2013

 

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