Perfis de consumo e cenários urbanos no Rio de Janeiro

Perfis de consumo e cenários urbanos no Rio de Janeiro

Qual a influência das estruturas relacionadas às artes, entretenimento e consumo de uma cidade para o seu desenvolvimento social, econômico e cultural? Tomando como caminho metodológico o Projeto Scenes – desenvolvido pelo sociólogo Terry Clark na Universidade de Chicago – Luiz Coelho volta sua análise para as “cenas urbanas” e as chamadas “amenities” existentes no Rio de Janeiro. O trabalho busca traçar padrões culturais de vizinhanças e bairros cariocas a partir da concentração espacial de diversos tipos de postos de consumo e entretenimento.

O artigo “Uma Proposta de Análise de Cenários Urbanos do Rio de Janeiro, a partir de perfis de consumo” é um dos destaques da edição nº 14 da Revista eletrônica e-metropolis – publicação trimestral que tem como objetivo principal suscitar o debate e incentivar a divulgação de trabalhos relacionados à dinâmica da vida urbana contemporânea e áreas afins. A Revista e-metropolis é editada por alunos de pós-graduação de programas vinculados ao INCT Observatório das Metrópoles e conta com a colaboração de pesquisadores, estudiosos e interessados de diversas áreas que contribuam com a discussão sobre o espaço urbano de forma cada vez mais vasta e inclusiva.

Acesse no link a seguir a edição nº 14 da Revista e-metropolis.

http://www.emetropolis.net/

Introdução

Por Luiz Coelho

Uma tendência corrente nas discussões de estudos urbanos refere-se ao questionamento de como culturas locais definem padrões de desenvolvimento urbano. Essa discussão torna-se bastante relevante na tomada de decisões em termos de políticas públicas, pois permite conhecer quais iniciativas serão mais bem recebidas pelo público local.

A temática tem sido enfatizada por alguns teóricos da área de desenvolvimento urbano, que questionam o quanto a presença de indivíduos de alto “capital intelectual” leva à atração de capital humano, logo levando ao “crescimento”. A análise de Florida (2002) leva à ideia de que uma comunidade “criativa”, composta por uma diversidade contendo grupos específicos de pessoas (artistas, pessoas de alto nível educacional, gays e lésbicas, etc.) conduz ao crescimento urbano e, de modo genérico, a uma maior “qualidade de vida local”. Assim, essa classe criativa seria um plus desejável para qualquer administrador público que vise a catapultar sua cidade num mundo global.

Esse tipo de entendimento leva a diversos questionamentos, principalmente no tocante à definição do que vem a ser “cultura”. Seria “cultura” algo atrelado apenas a determinados tipos de experiências, como belas artes, teatro ou literatura? Ou seria possível incluir nessa definição experiências contemporâneas como churrascos, festas na praia, rodas de samba e outras tradições populares? Assim, no tipo de análise que se quer apresentar, faz-se necessário distanciar-se um pouco das definições que limitem expressões culturais apenas a certos tipos desejáveis. Não cabem conceitos como “alta” ou “baixa” cultura. É a variedade de experiências culturais que importa, e que reflete o tecido social da população que está relacionada a elas.

Essa variedade se expressa tanto por estudos teóricos, quanto por análises estatísticas e, possivelmente, pelo senso comum. Os mesmos apontam em certos bairros, vizinhanças ou localidades um perfil mais “conservador”, “festivo”, “artístico” ou “boêmio”, entre outras características. Há, de certa forma, um conteúdo embutido nessas diferentes expressões culturais, o qual se manifesta de forma sinestésica, mediante decoração, música, cheiros, sabores e outras formas de percepção sensorial. Ou seja: na percepção coletiva de um ambiente boêmio do samba e bares de rua, pode-se destacar um estilo arquitetônico característico (“botecos” de portas abertas, na loja de prédios, os cheiros de petiscos e fumaça de cigarros no ar, as pessoas andando com copos na mão pela rua, as melodias altas do samba, etc.).

Isso se opõe, por exemplo, ao ambiente conservador dos restaurantes de luxo, com seus recintos fechados, música em tom mais baixo, roupas elegantes e atitudes contidas. Não somente essas diferenças podem ser observadas como também elas já fazem parte de um “vernáculo” que é absorvido por boa parte da população urbana. Não saber “comportar-se” nas diferentes expressões culturais implica exclusão ou ostracismo das mesmas. Há uma componente estética que necessita ser vivida, se houver interesse em tomar parte de experiências culturais específicas. E diversas “subculturas” têm sido estabelecidas, naturalmente direcionando-se a certos tipos de comportamento, entretenimento, estilo de vida e até mesmo preferência de local para morar.

Além disso, a expressão cultural de uma localidade está também submetida a uma série de outras condicionantes, como a densidade de determinados tipos de estabelecimentos, variações tipológicas ou descritivas de atividades ou negócios (por exemplo, uma galeria de arte avant-garde em oposição a uma galeria academicista), e demais relacionamentos com variáveis como etnias majoritárias e minoritárias, classes sociais, gêneros, vizinhanças, patrocínio governamental ou privado, etc. Talvez por isso alguns investimentos pontuais em empreendimentos ou atividades culturais não logrem êxito, ou não atinjam os resultados esperados, pois precisariam ter sido planejados de forma relacional. Uma análise que leve em conta apenas a distribuição de antiquários ou lanchonetes, sem buscar diferenciar suas subdivisões e conhecer a vizinhança de uma forma holística, acaba por desprezar o panorama geral e ignorar o impacto diferenciado que o mesmo tipo de negócio tem em circunstâncias distintas.

O trabalho de Silver, Clark e Rothfield (2007) busca explicar essa variação de experiências culturais através do conceito de scenes (que, para efeito deste trabalho, será traduzido como cenários). Um cenário urbano é dado por uma composição de amenities, grosso modo definidas como toda sorte de possibilidades de experiência cultural. Teatros, cinemas, parques, igrejas, bares, restaurantes, clínicas, clubes, shows, feiras ao ar livre, eventos regulares e outras atividades podem ser encaixados no conceito de amenity, que ainda carece de sinônimo em português a esta altura da pesquisa.

Através da pontuação de amenities de acordo com uma série de dimensões (como legitimidade, teatralidade e autenticidade), bem como suas respectivas subdimensões, constrói-se uma base que visa a compreender a influência das estruturas relacionadas às artes, entretenimento e consumo de uma cidade em seu desenvolvimento social, econômico e cultural. A localização geográfica das diferentes amenities também é importante a fim de executar procedimentos geoestatísticos que permitam determinar a densidade e organização geográficas das mesmas. Foge ao escopo deste texto detalhar os procedimentos quantitativos empregados no cálculo dos cenários, mas cabe dizer que, em suma, os padrões de consumo são detectados como reflexo de diferentes perfis de vizinhanças urbanas.

A proposta da teoria dos cenários urbanos é combinar diferentes conceitos e dados anteriormente utilizados isoladamente de uma forma mais robusta, ao agrupá-los em um cenário. Dessa forma, os cenários permitem apreender formas diferenciadas de padrões de amenities culturais, possibilitando estudar de forma melhor os inter-relacionamentos entre vida cultural e desenvolvimento urbano. Os cenários permitem capturar as formas distintas segundo as quais os padrões de amenities culturais se agrupam e atraem pessoas de sensibilidades compartilhadas, permitindo, dessa forma, um entendimento mais concreto de como grupos sociais distintos interagem com seu espaço geográfico, em atividades e interesses comuns.

 

Última modificação em 17-04-2014 18:22:59

 

Tags: , , ,