Segregação urbana e mercado de trabalho em Salvador

Segregação urbana e mercado de trabalho em Salvador

Neste artigo Ângela Maria de Carvalho Borges e Inaiá Moreira de Carvalho apresentam resultados preliminares de um estudo do INCT Observatório das Metrópoles sobre a relação entre segregação sócio espacial e o mercado de trabalho, com base na experiência de Salvador. O trabalho aponta que ao final de 2010 persistiam ainda na capital baiana alta taxa de desemprego (13%) e largos contingentes de pessoas na informalidade (17,6% empregados sem carteira; 18,7% conta própria e 1,1% não remunerados) – indicadores que confirmam um mercado de trabalho marcado pela pobreza da maior parte das ocupações que gera.

O artigo “Segregação urbana e emprego: observações preliminares sobre Salvador”, de Ângela Maria de Carvalho Borges e Inaiá Moreira de Carvalho, foi apresentado no XVIII Encontro Nacional de Estudos Populacionais (ABEP), realizado em Águas de Lindóia/SP em novembro de 2012.

Veja a seguir a Introdução do trabalho.

 

Segregação urbana e emprego: observações preliminares sobre Salvador

Este artigo se propõe a apresentar resultados preliminares de um estudo sobre a relação entre segregação sócio espacial e o mercado de trabalho, com base na experiência de Salvador.

Constituindo uma importante característica das grandes cidades, essa segregação tem despertado a atenção de vários estudiosos como uma expressão da estratificação social sobre o território urbano, refletindo-se sobre as oportunidades, as desigualdades e as condições sociais. Como diversos autores têm assinalado1, a diferenciação do território e o local de residência têm efeitos significativos, interferindo sobre o acesso a serviços básicos, sobre as condições de escolaridade, os padrões de sociabilidade, a constituição de redes e o acúmulo de capital social e cultural. Nos espaços degradados onde se concentram os grupos mais vulneráveis isto contribui para reproduzir ou acentuar as desigualdades e as dificuldades de subsistência dos referidos grupos, entre outros aspectos porque a desvalorização simbólica e a estigmatização desses espaços se estende aos seus moradores.

No que tange ao acesso aos serviços educacionais, por exemplo, estudos como os de Burgos (2008), Torres (2005), Ribeiro e Katzman (2008) ou Ribeiro e Koslinsk (2010) têm ressaltado a tendência das escolas públicas a se diferenciar conforme a composição social da área onde estão localizadas, com sérias desvantagens para aquelas que servem aos moradores de favelas, periferias e outras áreas pobres da cidade.

Atendendo a uma clientela homogênea e oriunda de famílias de baixa renda e escolaridade, essas escolas têm um conteúdo pouco favorável ao seu mundo e experiência e são comumente precárias e superlotadas. As regras de contratação e alocação no serviço público direcionam para as mesmas aqueles professores que obtiveram uma menor pontuação nos concursos ou os recém ingressos no magistério, enquanto os mais experientes ou com maior pontuação normalmente escolhem escolas mais centrais, que consideram “menos problemáticas” em termos de localização, transporte e perfil do alunato. Além disso, oriundos normalmente das classes médias e pouco preparados para lidar com uma clientela que foge aos modelos idealizados, os professores dessas escolas tendem a desenvolver uma visão preconceituosa e estigmatizadora das características e comportamentos dos alunos e de suas condições de aprendizagem.

Nessas condições, a escola pública não consegue assegurar a esses alunos a aprendizagem e o avanço necessários para o alcance das credenciais educacionais exigidas crescentemente para a conquista de melhores condições ocupacionais. Além disso, a influência do processo de segregação sobre o acesso e as condições de inserção no mercado de trabalho também está associado às redes e capital social, ao estigma que se abate, muitas vezes, sobre os moradores das áreas segregadas e à localização das oportunidades e postos disponíveis na estrutura urbana.

Como as informações e o acesso às oportunidades de trabalho dependem, na maioria dos casos, de contactos e indicações, a homogeneidade social da vizinhança e a estreiteza das redes sociais também representa um fator adverso à incorporação produtiva dos que residem nas áreas em questão.

Algumas dessas áreas, desvalorizadas e marcadas pela informalidade e pela reduzida presença do Estado e das instituições de controle e segurança pública, têm se tornado presas do tráfico de drogas e do crime organizado. Organizações criminosas têm se apropriado desses territórios, articulando, daí, suas ações no espaço mais amplo da cidade, dominando os moradores locais e recrutando jovens pobres e sem perspectivas para o consumo de drogas e a criminalidade. Associado ao crescimento das desigualdades e à superposição das carências, esses fenômenos tem contribuído para a degradação dos padrões de sociabilidade e para o crescimento da violência, transformando as áreas em apreço em “territórios penalizados e penalizadores”, situados no mais baixo nível da estrutura urbana e portadores de um estigma residencial poderoso. (Wacquant, 2001). Estendendo-se, muitas vezes, aos moradores, esse estigma pode representar mais um obstáculo à inserção laboral. Não é incomum que esses moradores procurem esconder o seu real endereço, como constatamos entre jovens residentes na periferia de Salvador.

Além disso, com exceção da produção e postos industriais, que normalmente se localizam em terrenos mais distantes e menos valorizados, as oportunidades de trabalho e de obtenção de renda tendem a se concentrar no centro comercial e nos espaços ocupados pela população de maior renda, sendo geralmente restritas e mais precárias nas áreas em discussão. Distantes e concentrando uma população homogênea e de baixa renda, essas áreas tendem a sediar apenas algumas atividades mais imediatamente ligadas à sua reprodução, como bares e pequenas mercearias, enquanto o grosso do comércio e dos serviços procuram zonas centrais e mais afluentes, onde estão seus principais consumidores.

Assim, a distribuição dos postos de trabalho no espaço urbano obriga a população das periferias e demais áreas segregadas a longos deslocamentos para procurar emprego e para trabalhar, dependendo de um sistema de transportes coletivo lento e precário e arcando com os custos monetários e não monetários desse deslocamento. Isto pode representar mais um obstáculo à integração produtiva, notadamente no caso daqueles grupos com atributos menos valorizados no mercado de trabalho (como os jovens, os negros, as mulheres e aqueles dotados de menor escolaridade), uma vez que muitos empregadores selecionam os empregados também pelo local de moradia, considerando que a distância pode contribuir para uma maior incidência de atrasos e faltas e que o valor do transporte pode onerar os custos salariais.

As análises que se seguem abordam esses fenômenos, discutindo como se dá a concentração de oportunidades e postos de trabalho no caso da cidade de Salvador.

 

Para ler o artigo completo “Segregação urbana e emprego: observações preliminares sobre Salvador”, acesse aqui.

 

 Última modificação em 18-01-2013 16:20:55

 

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