Coletânea debate os desafios urbanos da Região Metropolitana de São Paulo

Como enfrentar os desafios urbanos de uma metrópole que concentra mais da metade do PIB paulista, mas convive com intensas desigualdades socioespaciais? Com o objetivo de debater novas propostas para os graves problemas urbanos da maior metrópole brasileira, o livro “São Paulo: Dinâmicas Urbanas e Desafios Sociais” é uma coletânea de textos escritos por 33 pesquisadores e pesquisadoras do Núcleo São Paulo do INCT Observatório das Metrópoles. A obra foi lançada durante o XXI ENANPUR, promovido no mês de maio, em Curitiba (PR). Organizada pelas coordenadoras do Núcleo São Paulo, Lucia Bógus e Suzana Pasternak, juntamente com os pesquisadores Luís Felipe Aires Magalhães e Camila Rodrigues da Silva, a coletânea é dividida em três partes, com 17 capítulos e 369 páginas. O livro é uma publicação do núcleo, Letra Capital Editora e Capes, e está disponível para download gratuito em nossa Biblioteca Digital.

“Os temas de cada capítulo constituem, de um lado, os desafios teóricos e metodológicos para a compreensão das novas lógicas, econômicas, sociais e políticas, de produção do espaço e, de outro, os pontos sobre os quais recaem a disputa pelo próprio direito à cidade”, salienta um dos organizadores, Luís Felipe Aires Magalhães.

De acordo com ele, a obra reflete sobre a dinâmica demográfica da Região Metropolitana de São Paulo (RMSP), à luz dos dados já disponibilizados pelo Censo Demográfico de 2022, a questão habitacional no contexto de políticas urbanas neoliberais, diferentes territórios periferizados e sua dimensão étnico-racial, a expansão e complexidade da população em situação de rua, os desafios da mobilidade urbana, dos projetos de intervenção urbana e da participação social na governança não apenas municipal, cmo também metropolitana e macrometropolitana.

“Os capítulos, mais que oferecer uma reflexão acadêmica sobre os objetos elencados, objetivam também contribuir com as lutas e movimentos sociais urbanos, inserindo a coletânea e o próprio Núcleo São Paulo do INCT Observatório das Metrópoles em um contexto mais amplo da Reforma Urbana e da construção coletiva do direito à cidade”, pontua Magalhães. Segundo informações trazidas na obra, a RMSP é um centro de intensa atividade econômica, responsável por 52,4% do Produto Interno Bruto (PIB) do estado de São Paulo. Essa imponência também se reflete no tamanho de seus desafios, relacionados principalmente à mobilidade, à habitação e às desigualdades socioespaciais. “A má distribuição da infraestrutura e dos serviços urbanos demanda soluções urgentes, bem como a implementação de políticas públicas que garantam o futuro sustentável da região como um todo, respeitadas as especificidades de cada município”, sugerem os organizadores.

Conforme descrito na introdução do livro “São Paulo: Dinâmicas Urbanas e Desafios Sociais”, a primeira parte trata da dinâmica populacional da RMSP, seguida por análises referentes tanto à política habitacional e à urbanização neoliberal, como aos processos recentes de expansão das periferias metropolitanas e às políticas de enfrentamento da pobreza. Os textos da segunda parte discutem a questão da mobilidade e do transporte público como elementos constitutivos da vida urbana, destacando os desafios às políticas públicas e à própria expansão das cidades. Na terceira parte, os autores debatem os desafios da governança metropolitana, tanto no que diz respeito às questões locais e aos Planos de Bairro, às lutas sociais ligadas à habitação e à seguridade social, como às questões mais amplas ligadas ao enfrentamento das mudanças climáticas e ao processo de desindustrialização.

Divisão dos capítulos

O primeiro capítulo aborda as transformações demográficas na RMSP nas últimas décadas, aspectos do crescimento populacional e dos domicílios, destacando o resultado do Censo de 2022, que aponta que o número de domicílios cresceu a taxas maiores que a população, resultando em uma diminuição da densidade domiciliar e um aumento na proporção de domicílios desocupados. No segundo capítulo, são exploradas as interações entre a política habitacional e a dinâmica neoliberal no Brasil, destacando a crescente urbanização e os desafios do déficit habitacional. O capítulo três explora a heterogeneidade da periferia da RMSP, com uma análise das relações sociorraciais de seus municípios. A seguir, são discutidas as políticas públicas voltadas à população em situação de rua em São Paulo, ressaltando a urgência desse tema diante do agravamento da crise do capital no século XXI. O capítulo cinco examina as inovações e transformações sociais presentes na comunidade de Paraisópolis, ressaltando a importância deste território como um espaço de criatividade, empreendedorismo e solidariedade.

Já o capítulo seis aborda as mediações entre economia, política e espaço urbano, com foco nas complexidades da urbanização contemporânea e seus impactos nas relações sociais e de poder. O capítulo sete analisa a relação entre o sistema de transporte e o desenvolvimento urbano em São Paulo, com ênfase nas áreas afetadas pela rede de metrô, e o capítulo oito aborda a evolução recente de instrumentos legais e políticos voltados à melhoria da mobilidade urbana, particularmente no contexto da metrópole de São Paulo. A mobilidade urbana é também tema do capítulo nove, que finaliza a segunda parte do livro. O capítulo 10 faz uma reflexão histórica sobre gestão das cidades em contexto de luta pela democracia, seguido por uma importante síntese das políticas urbanas e climáticas no Brasil e em São Paulo, apontando a importância da governança metropolitana.

No capítulo 12, os autores abordam a participação de base territorial e sua (re)construção no atual contexto de descentralização político-administrativa na cidade de São Paulo. A questão habitacional na RMSP é analisada no capítulo 13 a partir do resgate e da análise de um movimento social urbano específico, o Movimento de Unificação das Lutas de Cortiço e Moradia. O capítulo seguinte aborda o tema da seguridade social, seguido por reflexões sobre as mudanças trazidas ao cotidiano das cidades a partir de três fenômenos contemporâneos. O primeiro são as “dark kitchens”, também chamadas de “restaurantes fantasmas”; o segundo é a expansão da telemedicina; e o terceiro fenômeno constitui a instalação das câmeras corporais nos uniformes dos agentes da Polícia Militar em São Paulo, que transformaram a forma de abordagem destes agentes e os próprios indicadores de segurança pública.

No penúltimo capítulo, os autores avaliam que os modelos tradicionais de gestão pública, alicerçados em políticas representativas e centralizadas, são ineficazes diante da diversidade de demandas socioespaciais presentes no território. Para eles, a adoção de mecanismos como o Orçamento Participativo, tem potencial inclusivo mais efetivo no que se refere aos grupos marginalizados, contribuindo para a mitigação e a superação das desigualdades raciais e econômicas presentes na RMSP. O capítulo final determina a organização preliminar de um conjunto de informações sobre a destinação de uso dos remanescentes de edifícios fabris na Região do Grande ABC. A produção de uma base de dados sistematizada, aberta à consulta pública de modo a promover o debate em torno das diferentes possibilidades de reapropriação desses galpões fabris, deu origem à plataforma digital Plataforma Fabril, cuja consulta permite compreender e participar do desenvolvimento da pesquisa.

Conforme os organizadores, a coletânea apresenta questões de grande relevância e atualidade, destacando a necessidade de discutir tópicos polêmicos e desenvolver propostas para resolver graves problemas urbanos. “Esses desafios estão presentes no cotidiano da maior metrópole brasileira, em um contexto global de rápidas transformações. A inteligência artificial, as inovações tecnológicas e as mudanças no mercado de trabalho trazem novos entraves, que se somam aos já existentes e exigem soluções criativas e urgentes”, concluem.

Sumário

Introdução

Os organizadores

Parte 1

  • Capítulo 1. Dinâmica populacional na Região Metropolitana de São Paulo, por Suzana Pasternak, Lucia Bógus e Luís Felipe Aires Magalhães
  • Capítulo 2. Política Habitacional e a Dinâmica Neoliberal: entre a expansão econômica e o agravamento do déficit habitacional, por Marilia Gabriela Bello Garcia
  • Capítulo 3. Arrabaldes, Subúrbios e Quebradas: um olhar sobre as desigualdades sociorraciais das periferias metropolitanas de São Paulo, por Maura Pardini Bicudo Véras
  • Capítulo 4. Políticas para enfrentamento da situação de rua em São Paulo: uma nova agenda se impõe!, por Carolina Teixeira Nakagawa Lanfranchi e Marisa do Espírito Santo Borin
  • Capítulo 5. Da segregação à inserção na cidade: a comunidade de Paraisópolis em São Paulo, por Dulce Maria Tourinho Baptista e Marisa do Espírito Santo Borin

Parte 2

  • Capítulo 6. Economia, política e espaço urbano, por Ricardo Carlos Gaspar
  • Capítulo 7. O Desenvolvimento Orientado ao Transporte Público (DOT) e as linhas de metrô em São Paulo: instrumento de inclusão ou exclusão socioespacial?, por Gastão Santos Sales, Angélica Tanus Benatti Alvim, Bernardo Guatimosim Alvim e Ivan Augusto Alves Pereira
  • Capítulo 8. Mobilidade urbana e desigualdades sociais: reflexões teóricas e desafios contemporâneos, por Rosana Pedrosa Pereira
  • Capítulo 9. O papel do transporte público sobre trilhos na melhoria das condições de mobilidade das populações de baixa renda, por Diamantino Augusto Sardinha Neto e Lúcia Maria Machado Bógus

Parte 3

  • Capítulo 10. A potencialidade dos projetos apoiados pelo Programa de Fomento à Cultura da Periferia para Planos de Bairros Periféricos: a gestão democrática da cidade baseada em agenciamentos territoriais, por Anderson Kazuo Nakano e Thiago Andrade Gonçalves
  • Capítulo 11. Fortalecendo a Governança Metropolitana frente à Mudança Climática: o caso do Consórcio Intermunicipal do Grande ABC (RMSP), por Angélica Tanus Benatti Alvim, Andresa Lêdo Marques e Pedro Roberto Jacobi
  • Capítulo 12. Notas sobre Planejamento Popular de Base Territorial e Hibridismo Participativo: antecedentes e perspectivas, por Felix Sanchez e Andre Leirner
  • Capítulo 13. Habitação de Interesse Social nas Políticas Públicas Urbanas: Análise do Movimento de Unificação das Lutas de Cortiço e Moradia (ULCM), por Francisco Fonseca e Lúcio Hanai Viana
  • Capítulo 14. Reificação da Seguridade Social no Século XXI: diversidades sociais e proteção social colonizadora, por Carolina Teixeira Nakagawa Lanfranchi e Aldaíza Sposati
  • Capítulo 15. A presença tecnológica nas cidades do futuro e a reconfiguração do cotidiano, por Rafael Araújo e Igor Fediczko
  • Capítulo 16. Perspectivas para uma política decolonial a partir da participação nos municípios, por Paulo Edgar da Rocha Resende e João Marcus Pires Dias
  • Capítulo 17. Mapeamento do patrimônio industrial na RMSP: panorama parcial da região do ABC, por Clarissa M. R. Gagliardi, Mônica de Carvalho, Gabriela Barreiros e Ivo Caio Matos da Cruz

Sobre os Autores

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