Atlas da Mobilidade Social mostra que o território é um fator central na reprodução das desigualdades

O Atlas da Mobilidade Social, divulgado em 31 de julho, traz novas evidências sobre os mecanismos de reprodução das desigualdades no Brasil. O estudo aponta que a mobilidade social permanece limitada no país, e que a origem familiar continua determinando oportunidades de renda, mas destaca que o local onde as pessoas nascem e crescem exerce influência decisiva sobre suas trajetórias econômicas. “O Atlas contribui para aprofundar a compreensão sobre os desafios brasileiros e oferece evidências relevantes para o debate sobre desenvolvimento urbano, justiça territorial e redução das desigualdades”, pontua o coordenador nacional da rede Observatório das Metrópoles, Luiz Cesar de Queiroz Ribeiro.

Utilizando dados administrativos e modelos de aprendizado de máquina para estimar rendimentos, inclusive em contextos marcados pela informalidade, a pesquisa acompanhou cerca de 1,3 milhão de brasileiros nascidos entre 1988 e 1990 até a vida adulta. Os resultados mostram que a renda dos pais continua sendo um dos principais fatores explicativos da posição econômica dos filhos. A mobilidade ascendente é reduzida: apenas 2,5% das crianças que nasceram entre os 20% mais pobres conseguem alcançar o grupo dos 20% mais ricos na vida adulta.

Além disso, quase metade das pessoas permanece nos extremos da distribuição de renda, reproduzindo posições de privilégio ou de privação ao longo das gerações. O estudo também identifica desigualdades persistentes relacionadas à raça e ao gênero. Crianças não brancas e meninas enfrentam desvantagens sistemáticas em comparação com meninos brancos oriundos de famílias com rendimentos semelhantes, embora essas diferenças se atenuem entre os grupos de renda mais elevada.

Fonte: BRITTO et al. (2025, p. 33).

A geografia das oportunidades

Um dos principais avanços da pesquisa é a demonstração de que o território não constitui apenas o cenário onde a desigualdade ocorre, mas atua como um fator determinante na produção e reprodução das oportunidades sociais. A análise mostra que cerca de 57% da variação regional da mobilidade social pode ser explicada pelas características dos lugares onde as crianças crescem. O desempenho varia significativamente entre as regiões do país: áreas do Centro-Sul e de expansão econômica apresentam melhores indicadores de mobilidade, enquanto regiões do semiárido nordestino e da Amazônia registram os piores resultados.

Segundo análise de Luiz Cesar de Queiroz Ribeiro, o estudo amplia e atualiza uma longa tradição de pesquisas sobre estratificação social no Brasil. “As conclusões do Atlas da Mobilidade Social não contradizem os estudos clássicos de Nelson do Valle Silva e José Pastore. Ao contrário, ampliam sua compreensão ao demonstrar que o território deve ser considerado um elemento central na reprodução das desigualdades”, salienta.

Para o coordenador da rede do Observatório, os trabalhos clássicos haviam demonstrado que a sociedade brasileira combinava elevados níveis de mobilidade ocupacional com forte persistência das desigualdades de origem. O novo estudo confirma esse diagnóstico, mas acrescenta uma dimensão fundamental ao debate. “Se a tradição sociológica brasileira mostrou que a origem social, a raça e a escolaridade condicionam fortemente as oportunidades de vida, a nova evidência demonstra que o lugar onde se nasce e vive também exerce um efeito próprio sobre as chances de ascensão social”, aponta.

Da mobilidade ocupacional à mobilidade de renda

De acordo com Ribeiro, a pesquisa reforça a compreensão de que a desigualdade de oportunidades continua sendo uma característica estrutural da sociedade brasileira. Ao substituir a análise baseada em classes ocupacionais por indicadores de renda individual, o estudo revela uma persistência socioeconômica ainda mais intensa. “A mobilidade de renda observada pelo Atlas revela uma persistência socioeconômica ainda mais rígida do que aquela identificada pelos estudos baseados em classes ocupacionais”, ressalta.

A inovação metodológica permitiu observar com maior precisão os mecanismos de transmissão intergeracional da desigualdade, revelando que a ascensão econômica permanece fortemente condicionada pelas condições herdadas. O Atlas mostra que a chamada “loteria do CEP” é uma realidade estatística no Brasil, evidenciando forte estagnação na ascensão de renda entre gerações, peso da origem familiar e impacto da educação local. “A chamada “loteria do CEP” emerge como um fator decisivo para compreender por que determinados grupos conseguem romper ciclos de pobreza, enquanto outros permanecem presos a eles por gerações”, explica Ribeiro.

Educação e território no centro das políticas públicas

Entre os diversos fatores analisados, a qualidade e o acesso à educação aparecem como os elementos mais relevantes para explicar as diferenças regionais de mobilidade. Seu impacto supera o de fatores relacionados à infraestrutura básica ou à estrutura familiar. Para Ribeiro, essa constatação reforça a necessidade de incorporar a dimensão territorial às políticas públicas de combate às desigualdades. “O principal mecanismo que conecta território e mobilidade social continua sendo a oferta educacional. A qualidade da educação disponível em cada localidade pode tanto reproduzir quanto interromper a transmissão intergeracional da pobreza”, conclui.

O coordenador destaca que os resultados apontam para a necessidade de políticas que descentralizem a qualidade do ensino e ampliem a integração entre periferias urbanas e os principais polos econômicos. “A desigualdade social no Brasil não pode mais ser entendida apenas como a distância entre origem e destino social. Ela é também uma desigualdade territorialmente estruturada”, observa. Para ele, os resultados reforçam a necessidade de incorporar a dimensão territorial ao desenho das políticas públicas voltadas para a redução das desigualdades e para a ampliação da igualdade de oportunidades.

O Atlas da Mobilidade Social foi lançado pelo Instituto Mobilidade e Desenvolvimento Social (IMDS) em parceria com o Prospera Lab. Os números apresentados se baseiam nos dados e metodologia desenvolvidos no artigo acadêmico Intergenerational Mobility in the Land of Inequality” (Britto et al., 2025). As estimativas de mobilidade intergeracional de renda foram calculadas usando métodos modernos de mensuração da mobilidade social e dados administrativos da Receita Federal, dos Ministérios do Trabalho e Emprego e do Desenvolvimento Social, e pesquisas domiciliares do IBGE.

Acesse o Atlas da Mobilidade Social AQUI.