Oficina do projeto Segregação Socioespacial das Metrópoles Brasileiras reúne cerca de 40 participantes dos Núcleos Regionais

Como compreender as novas dinâmicas da segregação socioespacial nas metrópoles brasileiras diante das transformações do trabalho, da urbanização e das desigualdades raciais? Essa pergunta orientou os debates da Oficina de Construção da Tipologia Socioespacial, realizada pelo INCT Observatório das Metrópoles entre os dias 26 e 28 de agosto, no Rio de Janeiro. Reunindo cerca de 40 pesquisadores e pesquisadoras dos Núcleos Regionais da rede, o encontro marcou mais uma etapa do projeto Segregação Socioespacial das Metrópoles Brasileiras, com foco na atualização dos referenciais teóricos, metodológicos e operacionais que sustentam a análise das transformações socioespaciais nas metrópoles do país.

Além de promover a integração entre pesquisadores(as) experientes e novos(as) integrantes da rede, a oficina teve como objetivo disseminar os procedimentos de construção da Tipologia Socioespacial, metodologia histórica do Observatório para a compreensão dos padrões de segregação urbana. Para a pesquisadora Jupira Mendonça, do Núcleo Belo Horizonte, a oficina foi fundamental para fortalecer o trabalho coletivo da rede. “Temos vários membros novos no Observatório e a oficina nivelou conceitos, estratégias, dados e procedimentos para encontrarmos a composição social no território das diversas metrópoles que compõem a rede”, observou. Jupira destacou ainda a importância da revisão da estrutura sócio-ocupacional diante das mudanças ocorridas no mundo do trabalho, ressaltando que esse esforço permitirá compreender tanto as transformações quanto as permanências que marcam a sociedade brasileira e sua expressão territorial.

O coordenador do projeto, Marcelo Ribeiro, enfatizou que a iniciativa buscou compartilhar um patrimônio metodológico construído ao longo da trajetória do Observatório. “Essa oficina visou repassar para todos os núcleos do Observatório a metodologia de análise social do território metropolitano, que tradicionalmente utilizamos para entender os padrões de segregação socioespacial das nossas metrópoles”, afirmou. Para ele, a troca de experiências entre os núcleos permitirá produzir interpretações mais atuais sobre a realidade metropolitana brasileira.

Luiz Cesar de Queiroz Ribeiro resgata a trajetória da pesquisa

Um dos momentos centrais da oficina foi a apresentação do coordenador nacional da rede, Luiz Cesar de Queiroz Ribeiro, que retomou a trajetória da pesquisa sobre segregação socioespacial desde os primeiros ciclos do Observatório. Em sua exposição, Ribeiro destacou a importância da comparação entre diferentes metrópoles como estratégia para compreender a totalidade dos processos urbanos brasileiros, em contraste com abordagens centradas apenas em estudos de caso.

A apresentação revisitou conceitos fundamentais da pesquisa, como diferenciação, segmentação e segregação socioespacial, além dos chamados “efeitos de vizinhança” e “efeitos do lugar”, que ajudam a explicar como a concentração de grupos sociais em determinados territórios influencia o acesso à renda, oportunidades, serviços e direitos urbanos.

Também foram discutidos os desafios colocados pela nova hipótese central do programa INCT, que busca compreender as transformações do capitalismo brasileiro em direção a um padrão urbano marcado por dinâmicas rentistas e neoextrativistas. Nesse contexto, a atualização da Tipologia Socioespacial deverá contribuir para identificar novas formas de organização do território metropolitano e seus impactos sobre as desigualdades urbanas.

Classe e raça no centro do debate

A oficina contou ainda com a participação remota de Danilo França, professor da Universidade Federal Fluminense (UFF) e pesquisador do AFRO-CEBRAP, que apresentou reflexões sobre as relações entre raça, classe e segregação socioespacial nas metrópoles brasileiras.

Partindo de pesquisas realizadas na Região Metropolitana de São Paulo, França discutiu resultados que apontam a persistência de padrões diferenciados de segregação racial mesmo dentro de grupos sociais com posições econômicas semelhantes. O pesquisador destacou o conceito de “espaços de exclusividade branca”, desenvolvido em trabalhos recentes, e chamou a atenção para a necessidade de compreender como as relações raciais se inscrevem na produção do espaço urbano.

Sua apresentação também trouxe reflexões metodológicas relevantes para o avanço da pesquisa nacional, incluindo os limites dos indicadores sintéticos de segregação e a importância de aprofundar análises que articulem classe, raça e outras dimensões das desigualdades sociais.

Preparação para os dados do Censo 2022

A expectativa em torno da divulgação dos dados do Censo Demográfico de 2022 esteve presente em diversos momentos da oficina. Para a coordenadora do projeto, Lívia Miranda, o encontro ocorreu em um momento estratégico para a rede. “Estamos muito felizes porque tivemos uma aderência grande de quase 40 pessoas participando da oficina”, afirmou. Segundo ela, a atualização da pesquisa permitirá analisar nacionalmente e em perspectiva histórica o comportamento das metrópoles brasileiras quanto à segregação socioespacial, produzindo conhecimentos capazes de subsidiar futuras políticas públicas voltadas aos territórios metropolitanos. “Estamos na iminência de receber os dados do IBGE para poder analisar nacionalmente e ao longo do tempo, desde os anos 80, como é que se comportam as metrópoles do ponto de vista da segregação socioespacial”, destacou.

Além dos debates teóricos e metodológicos, os participantes discutiram a agenda futura do projeto, incluindo estratégias de análise, publicações e realização de estudos comparativos entre as diferentes regiões metropolitanas brasileiras. “Essa oficina foi um momento muito profícuo de discussão, de troca e de compartilhamentos, especialmente porque agora vamos ter a possibilidade de conseguir uma interpretação mais recente sobre as metrópoles brasileiras”, finalizou Marcelo Ribeiro.

As fotos dos três dias da oficina estão disponíveis em:

https://drive.google.com/drive/u/3/folders/1dD0egxN9IA4Z3Bhsr0cJhoUrwp4Ck3p5

 

*Um agradecimento especial aos bolsistas do Núcleo Rio de Janeiro e integrantes da pesquisa Segregação Socioespacial das Metrópoles Brasileiras, Gabriela Lopes, João Gabriel Mélo e Simone Silveira, pelo trabalho de relatoria realizado durante a oficina.