O que acontece quando deixamos de olhar para a cidade como um espaço isolado e passamos a compreendê-la como parte de uma rede planetária de extração de recursos, circulação de energia, produção de riqueza e destruição ambiental? Essa é a questão central de “O Monstro ‘Interior’: A Urbanização Capitalista como Escalada Geometabólica”, de Neil Brenner e Swarnabh Ghosh, cuja edição brasileira chega ao público por meio do INCT Observatório das Metrópoles, da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ) e da Letra Capital Editora. O livro está disponível para download gratuito na Biblioteca Digital do site do Observatório. Para quem preferir a edição impressa, a obra está à venda no site da Letra Capital Editora e na Livraria Consequência.
A publicação brasileira tem origem no artigo acadêmico The Monster “Within”: Capitalist Urbanization as Geometabolic Escalation, publicado em 2025 na revista internacional Development and Change. No trabalho, os autores propõem uma interpretação das relações entre urbanização capitalista e crise ecológica a partir do conceito de “escalada geometabólica”. A edição em português representa mais um passo na trajetória do Observatório de aproximar pesquisadores(as), estudantes e demais interessados dos debates internacionais sobre urbanização, desigualdades territoriais e crise ambiental.
O livro conta com tradução de Tereza Marques de Oliveira Lima e Pedro Bastos, e prefácio de Luiz Cesar de Queiroz Ribeiro, coordenador nacional da rede, que situa as reflexões da obra diante dos desafios enfrentados pelo Brasil e pelo Sul Global. Ao sintetizar uma das principais chaves de interpretação propostas pela publicação, Ribeiro escreve:
“A urbanização é aqui interpretada como uma escalada geometabólica planetária: um turbilhão indissociável da aceleração de fluxos de capital, energia e materiais, da consolidação de infraestruturas ciclópicas de capital fixo e da produção sistemática de ecologias de exaustão.”
Para o prefaciador, a publicação também provoca pesquisadores e pesquisadoras brasileiros(as) a pensar alternativas aos processos contemporâneos de espoliação socioambiental:
“Para pesquisadores brasileiros — geógrafos, sociólogos, economistas e urbanistas —, este livro é um chamado à práxis. Ele nos desafia a projetar transições ancoradas no decrescimento planejado, no controle democrático das infraestruturas comuns e em uma agenda radical de reparação histórica.”
O “monstro” da urbanização capitalista
No livro, os autores desenvolvem uma crítica às interpretações convencionais da urbanização. As cidades não podem ser compreendidas apenas a partir do que acontece dentro de seus limites físicos. A urbanização contemporânea envolve uma extensa rede de infraestruturas, territórios de extração mineral, áreas de produção agroindustrial, corredores logísticos, paisagens energéticas e zonas de descarte de resíduos articuladas à reprodução do capitalismo.
Essa relação é central para o argumento da obra. Neil Brenner e Swarnabh Ghosh mostram que cidades e regiões metropolitanas se articulam a outras zonas de investimento de capital fixo, como territórios agroindustriais, áreas de extração, infraestruturas energéticas e redes de logística e comunicação. É esse entrelaçamento que participa da escalada do fluxo metabólico capitalista.
O “monstro”, portanto, não aparece como algo externo à sociedade urbana. Ele diz respeito a uma dinâmica inscrita no próprio processo de urbanização capitalista.
Um dos conceitos centrais da obra, a “escalada geometabólica”, refere-se à intensificação dos fluxos de matéria e energia que caracteriza o regime metabólico do capital. Em vez de pensar separadamente cidade e natureza, essa perspectiva permite observar como a urbanização reorganiza territórios e processos biofísicos em escala planetária.
A obra também coloca sob análise as respostas convencionais à crise ecológica. Os autores chamam a atenção para os limites de estratégias de sustentabilidade urbana que não enfrentem os processos de apropriação de recursos e descarte de resíduos que sustentam a urbanização. O texto alerta, inclusive, para a possibilidade de formação de enclaves urbanos relativamente protegidos enquanto seus custos sociais e ambientais são deslocados para outros territórios e populações, dinâmica discutida pelos autores por meio da ideia de eco-apartheid.
Ao articular teoria urbana, ecologia política e economia política, “O Monstro ‘Interior’” convida a repensar não apenas o entendimento sobre as cidades, mas também as relações territoriais, infraestruturais e ambientais que tornam possível a vida urbana.
Uma mensagem de Neil Brenner aos leitores brasileiros
Em mensagem enviada especialmente para o lançamento da edição brasileira, Neil Brenner chama a atenção para a necessidade de superar uma concepção da urbanização limitada aos espaços das cidades:
“A urbanização capitalista não é simplesmente o crescimento e a proliferação de cidades. É um processo planetário através do qual o capital reorganiza territórios e ambientes, próximos e distantes, na busca pela acumulação. Chamamos esse processo de escalada geometabólica: a expansão e aceleração contínuas da energia e dos materiais extraídos da Terra, circulados por infraestruturas de grande escala, transformados pela produção e pelo consumo e expelidos de volta para a biosfera como resíduos tóxicos.”
Em sua mensagem, Neil Brenner ressalta que as cidades precisam ser entendidas em relação aos territórios dos quais dependem:
“As cidades são nós e motores cruciais dentro desse ciclo de matéria/energia movido pelo lucro sob o capitalismo, mas não podem ser compreendidas separadamente das minas, campos, florestas, paisagens energéticas, matrizes infraestruturais, corredores logísticos e zonas de sacrifício que as sustentam.”
Para Neil Brenner, essa perspectiva também coloca em questão respostas à crise ambiental que permaneçam subordinadas às mesmas estruturas responsáveis pela intensificação da exploração de recursos e da produção de resíduos. Por isso, o autor aponta como horizonte a democratização das infraestruturas e da terra e a construção de outras formas de organização socioambiental.
“A tarefa não é construir ‘ilhas’ sustentáveis de infraestruturas militarizadas e de alta tecnologia numa Terra cada vez mais devastada. É transformar as relações sociais, os sistemas institucionais e as infraestruturas materiais que estão a produzir essa devastação, para criar um mundo mais habitável, justo e vibrante.”
Neil Brenner e o INCT Observatório das Metrópoles
A publicação da obra também dá continuidade à trajetória de interlocução entre Neil Brenner e o INCT Observatório das Metrópoles. Reconhecido por sua contribuição à teoria urbana crítica contemporânea, Neil Brenner tem participado dos debates promovidos pela rede sobre urbanização, metrópoles, escalas territoriais e desenvolvimento desigual.
Essa aproximação inclui participações na revista e-metropolis, além de colaborações acadêmicas que aproximam o debate sobre urbanização planetária das pesquisas desenvolvidas no âmbito do Observatório.
O lançamento da edição brasileira também reforça a interlocução construída entre Neil Brenner e Luiz Cesar de Queiroz Ribeiro, especialmente em torno das transformações da ordem urbano-regional contemporânea, da questão metropolitana e das desigualdades socioespaciais.
Confira outras publicações de Neil Brenner no âmbito do INCT Observatório das Metrópoles
Livros
O Monstro ‘Interior’: A Urbanização Capitalista como Escalada Geometabólica
Neil Brenner e Swarnabh Ghosh
Espaços da Urbanização: o urbano a partir da teoria crítica
Artigos publicados nos Cadernos Metrópole
A globalização como reterritorialização: o reescalonamento da governança urbana na União Europeia
Capítulo de livro
Escalas espaciais, reescalonamentos e estatalidades: lições e desafios da América Latina
Faça o download gratuito do livro “O Monstro ‘Interior’: A Urbanização Capitalista como Escalada Geometabólica” em nossa Biblioteca Digital. Disponível AQUI. Para quem preferir a edição impressa, a obra está à venda no site da Letra Capital Editora e na Livraria Consequência.
