A partir de relatórios oficiais, reportagens jornalísticas e informações de órgãos públicos, pesquisadoras do Observatório das Metrópoles Núcleo Natal analisaram como vem sendo o processo de imunização nos municípios da Região Metropolitana de Natal (RMN). O artigo apresenta gráficos e tabelas sobre a vacinação no contexto da RMN, observando que todos iniciaram o processo de imunização da faixa etária 18+, ocasionando uma queda considerável de casos confirmados e número de óbitos.

Vacinação. Foto de Walterson Rosa/MS (Agência Brasil).

Lindijane de Souza Bento Almeida¹
Terezinha Cabral de Albuquerque Neta Barros²
Bruna Cristiano Paulino Pereira³
João Victor Rocha de Queiroz⁴
Larissa Kevinlyn Martins Marinho⁵
Vassilissa Mendes Barbosa da Silva⁶

A partir de fevereiro de 2020, o Brasil passou a enfrentar uma crise sanitária provocada pelo novo coronavírus, o Sars-Cov-2, ocasionando a morte de mais de 584 mil brasileiros pela Covid-19 até o momento em que escrevemos este artigo. Diante desse contexto, o mundo parou para buscar um imunizante eficaz para conter o avanço da Covid-19, assim como o surgimento de novas variantes do coronavírus. Apenas no final de 2020 surgiram as primeiras opções de vacinas: Pfizer, AstraZeneca, Coronavac e Janssen.

O Brasil é reconhecido mundialmente como um país com expertise diferenciada em imunização, dada a existência de um Sistema Único de Saúde (SUS) com um modelo de gestão e governança pautado na universalidade, integralidade e regionalização que assegura uma vacinação em massa em um curto espaço de tempo. No entanto, diante da falta de coordenação do governo federal, responsável pela compra e distribuição das vacinas para os governos estaduais e municipais, o Brasil iniciou tardiamente a vacinação, a qual vem sendo realizada de forma lenta em virtude de atrasos nas entregas das vacinas.

O presente estudo tem por objetivo compreender como vem sendo o processo de imunização nos municípios da Região Metropolitana de Natal (RMN). Para tanto, realizamos uma pesquisa de natureza quali-quantitativa a partir das seguintes etapas: 1) pesquisa documental, a partir dos relatórios oficiais, e 2) pesquisa de reportagens jornalísticas no portal G1/RN e de informações disponíveis nos canais oficiais das prefeituras, do governo do estado do Rio Grande do Norte e do governo federal.

Dessa forma, o trabalho foi organizado em quatro seções, considerando esta introdução e as considerações finais. Na segunda seção, apresentamos os resultados referentes à pesquisa realizada na plataforma integrada para a governança e a transparência do processo de vacinação no Rio Grande do Norte, o RN + Vacina. Em seguida, na terceira seção, demonstramos como os municípios desenvolveram suas campanhas de vacinação, o que foi possível a partir dos canais oficiais dos municípios.

A vacinação no RN e nos municípios metropolitanos

A vacinação no Rio Grande do Norte teve início no dia 19 de janeiro de 2020, começando pelos profissionais de saúde da linha de frente e idosos institucionalizados. Seguindo as orientações do Plano Nacional de Imunização, hoje o RN vem sentindo os impactos da vacinação a partir da redução dos casos, das ocupações hospitalares e dos óbitos. De acordo com o Gráfico 01, a vacinação contra a Covid-19 no RN vem gerando redução nos casos de Covid-19 confirmados, o que chama a atenção para a importância da ciência, confirmando que a imunização é a principal forma de combate e prevenção de doenças virais.

Gráfico 01 – Evolução e impactos da vacinação no Rio Grande do Norte em observância aos casos de Covid-19 confirmados. Fonte: Farias et al., com dados do RegulaRN, 2021.

Com as medidas de restrição e isolamento social tendo dificuldades de operacionalizar em 2021, percebemos um aumento significativo no número de casos e óbitos nos primeiros trimestres do ano, superando inclusive o número de 2020.

Com a vacinação restrita a um público-alvo constituído por pessoas da terceira idade e por pessoas com comorbidades, percebemos uma queda no número de internações de idosos. No entanto, diante da falta de vacinação para a população ativa, a qual ficou exposta ao vírus, um aumento significativo nas taxas de contaminação foi registrado. Com o início da vacinação nesse público, ficou notório que à medida que a vacinação contempla os mais jovens, o vírus demonstra circular menos. Conforme os dados da vacinação, se evidencia o fato de que a queda no número de óbitos e de leitos críticos vem sendo maior a partir da vacinação do público-alvo que apresenta entre 30 e 40 anos, por ser uma população ativa que precisa se deslocar para trabalhar (ver Gráfico 02 e 03).

Gráfico 02 – Evolução e impactos da vacinação no Rio Grande do Norte em observância aos óbitos por Covid-19 confirmados. Fonte: Farias et al., com dados do RegulaRN, 2021.

Gráfico 03 – Evolução e impactos da vacinação no Rio Grande do Norte em observância à regulação de leitos críticos para a Covid-19. Fonte: Farias et al., com dados do RegulaRN, 2021.

No que diz respeito ao ritmo da vacinação por município, na RMN podemos destacar, de acordo com a Tabela 01, que Parnamirim se apresenta com 94%, o maior percentual até o presente momento, em seguida temos Vera Cruz e Goianinha, com 93%, demonstrando um nível maior de eficiência. Já os municípios de Ielmo Marinho (71%), Maxaranguape (74%) e Macaíba (75%) seguem com um ritmo mais lento, o que pode se justificar pela falta de um maior engajamento, organização e decisões estratégicas dos municípios.

Tabela 01 – Número de doses recebidas e aplicadas por município da RMN. Fonte: Elaboração própria, com dados da Plataforma RN + Vacina, 2021.

Conforme os dados disponibilizados pelo Consórcio de Veículos de Imprensa, até o dia 15 de setembro de 2021, no território potiguar foram aplicadas 3,4 milhões de vacinas, sendo 2,21 milhões referentes à primeira dose e 1,19 milhões relacionadas à imunização completa, seja a dose única ou segunda dose. Pontua-se que em setembro de 2021 ocorreu uma inversão na lógica de vacinação, na medida em que ocorre uma superação no número diário de aplicação da imunização completa, majoritariamente formada pela aplicação da D2, visto a baixa distribuição da dose única em território potiguar.

Gráfico 04 – Evolução da aplicação mensal de vacinas no Rio Grande do Norte. Fonte: Elaboração própria com dados do Consórcio de Veículos de Imprensa (G1), 2021.2.

A variedade de vacinas aplicadas no Brasil, e de suas especificidades em relação ao ciclo vacinal, pode ser um dos fatores determinantes para essa variação no ritmo da imunização nos municípios. A partir do gráfico abaixo, podemos verificar, através da quantidade de doses de vacina, como anda o avanço da aplicação na RMN.

Gráfico 05 – Proporção da aplicação da vacina por quantidade de doses disponíveis nos municípios da RMN. Fonte: Elaboração própria, com dados da Plataforma RN + Vacina, 2021.

No que tange às perdas das vacinas pelos municípios, foi possível observar que ocorreu uma reclamação comum por parte de todos os municípios: a quantidade de doses existentes nos frascos das vacinas, independente do seu fabricante, assim como outros problemas relacionados à falta de cuidado no manuseio e na conservação. Além disso, foram noticiados pela mídia problemas relacionados à data de validade das vacinas enviadas para os municípios, o que constatamos no município de Macaíba, a partir da declaração de que 120 doses foram perdidas, dada a validade do fabricante expirada.

Tabela 02 – Motivos de perda técnica de vacina por município da RMN. Fonte: Elaboração própria, com dados da Plataforma RN + Vacina, 2021.

Diante desse contexto, foi preciso compreender como os municípios estavam desenvolvendo suas campanhas de imunização, uma vez que os municípios têm autonomia para fazer a própria campanha de vacinação dentro dos parâmetros estabelecidos pelo Ministério da Saúde, campanhas essas que influenciam no ritmo da imunização nos municípios, principalmente em um contexto de disseminação de fake news e de negacionismo em relação à ciência. A partir do quadro abaixo, podemos verificar o uso das redes sociais pelos municípios no que diz respeito à vacina contra a Covid-19. Segundo os dados obtidos, todos os municípios da RMN estão fazendo campanhas de mobilização através de redes sociais para a vacinação contra a Covid-19, utilizando o Instagram como ferramenta principal, seguido do Facebook, o qual não é usado apenas por um dos municípios – Ielmo Marinho. Em relação à adoção do Twitter como meio de comunicação com a sociedade, apenas cinco municípios recorrem à ferramenta.

Quadro 01 – Informação sobre a mobilização dos municípios nas redes sociais para a vacinação contra a Covid-19. Fonte: Elaboração própria, com base nos dados coletados nas redes sociais informadas, 2021.

No que se refere aos tipos de campanha utilizadas pelos municípios da RMN com o objetivo de mobilizar e informar a sociedade acerca das vacinas contra a Covid-19, o conteúdo das postagens gira em torno das vacinas D1 e D2, conforme sua faixa etária; dos boletins epidemiológicos; e dos vacinômetros. É importante ressaltar que inovações foram desenvolvidas para aumentar a adesão da população, como a realização de baladas, drive-thrus, caravanas, entre outras.

Gráfico 06 – Principais tipos de campanhas e mobilizações utilizadas nas redes sociais da Região Metropolitana de Natal. Fonte: Elaboração própria, com base nos dados coletados nas redes sociais e no site da prefeitura de cada município, 2021.

Com as informações do Gráfico 07, percebemos que todos os municípios disponibilizam em seus sites o portal da transparência para o acompanhamento das ações sobre a Covid-19, apesar de não serem atualizados com frequência. Com maior frequência, temos as notícias e os boletins epidemiológicos, seguidos de banners informativos com ações de combate e prevenção. Por fim, foi possível verificar que a utilização do site como meio de mobilização ainda é feita de maneira tímida, na medida em que a frequência de atualização das informações e postagens é reduzida, da mesma forma que não possuem variabilidade nos conteúdos postados.

Gráfico 07 – Principais meios de mobilização utilizados nos sites das prefeituras sobre a Covid-19 na Região Metropolitana de Natal. Fonte: Elaboração própria, com base nos dados coletados no site da prefeitura de cada município, 2021.

Portanto, as redes sociais têm sido bastante utilizadas como meio de comunicação com os cidadãos, uma vez que identificamos que todos os 15 municípios metropolitanos utilizam as redes sociais, assim como inovaram com novas ações para aumentar o interesse dos cidadãos na busca pela vacina, a exemplo dos drives-thrus, caravanas, baladinhas, entre outras ações.

No entanto, os municípios estudados deixaram a desejar no que tange à transparência governamental, dada a desatualização dos sites oficiais das prefeituras, com a ausência de postagens constantes e conteúdos variados sobre a vacinação.

Considerações Finais

A partir dos achados da pesquisa, podemos ressaltar que a falta de uma maior coordenação por parte do governo federal, dado o papel estabelecido nas diretrizes operacionais do SUS, acabou por impedir uma maior cobertura vacinal em um menor espaço de tempo — como a expertise brasileira, reconhecida mundialmente, permite fazer — no processo de imunização de sua população, o que, por sua vez, culminou na morte de mais de 589 mil brasileiros, em 17 de setembro de 2021, de acordo com o Consórcio de Veículos de Comunicação.

Dessa forma, podemos dizer que o Brasil, a partir do negacionismo do governo federal, dificultou que estados e municípios avançassem na imunização da população brasileira, chegando ao ponto da instalação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid-19 no Senado Federal.

No contexto dos municípios da RMN, foi possível observar que todos iniciaram o processo de imunização da faixa etária 18+, ocasionando uma queda considerável de casos confirmados e número de óbitos. Diante disso, ratificamos a tese defendida pelos cientistas do mundo inteiro de que a vacina é o principal caminho para a saída da crise sanitária estabelecida pelo novo coronavírus, bem como que um maior investimento na ciência e nas capacidades estatais dos estados e municípios é extremamente necessário para o fortalecimento da gestão do SUS.

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¹ Lindijane de Souza Bento Almeida. Professora do Departamento de Políticas Públicas e do Programa de Pós-Graduação em Estudos Urbanos e Regionais (UFRN). Pesquisadora do Observatório das Metrópoles Núcleo Natal.

² Terezinha Cabral de Albuquerque Neta Barros. Professora do Departamento Ciências Sociais e Política (UERN). Pesquisadora do Observatório das Metrópoles Núcleo Natal.

³ Bruna Cristiano Paulino Pereira. Graduanda em Gestão de Políticas Públicas (UFRN) e bolsista de iniciação científica do Observatório das Metrópoles Núcleo Natal.

⁴ João Victor Rocha de Queiroz. Gestor de Políticas Públicas (UFRN).

⁵ Larissa Kevinlyn Martins Marinho. Gestora de Políticas Públicas (UFRN).

⁶ Vassilissa Mendes Barbosa da Silva. Graduanda em Gestão de Políticas Públicas (UFRN) e bolsista de extensão do Observatório das Metrópoles Núcleo Natal.

REFERÊNCIAS

CONSÓRCIO DE VEÍCULOS DE IMPRENSA. Mapa da vacinação contra Covid-19 no Brasil. G1, São Paulo, 2021. Disponível em: https://especiais.g1.globo.com/bemestar/vacina/2021/mapa-brasil-vacina-covid/. Acesso em: 15 set. 2021.

FARIAS, Fernando Lucas de Oliveira; LIMA, Leonardo J. Galvão; VERAS, Nícolas; VALENTIM, Ricardo; SILVA, Rodrigo. Análise da disseminação da infecção, medidas de contenção, expansão da rede assistencial e progresso da imunização à luz da ciência de dados. Relatório. Natal: Laboratório de Inovação Tecnológica em Saúde (LAIS), 2021.

PLATAFORMA RN + VACINA: Banco de dados. Laboratório de Inovação Tecnológica em Saúde (LAIS), 2021. Disponível em: https://rnmaisvacina.lais.ufrn.br/. Acesso em: 18 ago. 2021.