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Franklin Soldati¹

O governador Romeu Zema (Novo) foi criticado em Juiz de Fora por não ter investido em prevenção contra desastres naturais, com a constatação de que os recursos destinados a essa finalidade caíram de R$ 134,8 milhões em 2023 para R$ 5,8 milhões em 2025 – uma queda de 96% em dois anos. Em sua defesa, Zema argumentou que investiu cerca de R$ 200 milhões na construção de piscinões para prevenção de enchentes na Região Metropolitana de Belo Horizonte.

O governador ainda alegou gastos de R$ 70 milhões com a compra de kits da Defesa Civil para 600 municípios. Porém, segundo a prefeita Margarida Salomão (PT), esse repasse ao município foi nulo. Talvez a justificativa esteja no comportamento eleitoral da juiz-forana, contrário aos interesses do governador. Independentemente disso, Juiz de Fora figura entre as cidades brasileiras com maior proporção da população vivendo em áreas de risco, cerca de 25%, além de ser a 4ª maior cidade mineira. As chuvas que ocorreram em 23 e 24 de fevereiro, resultaram em 72 mortes na cidade e região.

Assim, enquanto o repasse de verba estadual para a prevenção de desastres foi zero, o governo federal seguia cumprindo seus compromissos com o município, viabilizando as obras do PAC. E o pior: no momento da tragédia ocorrida nos dias 23 e 24 de fevereiro, que vitimou 72 pessoas, em vez de redirecionar recursos e oferecer suporte à população da Zona da Mata, o governador se ausentou, enviou o vice-governador e, somente após intensa pressão política e vários dias de atraso, resolveu aparecer. Em sua aparição, Zema anunciou medidas pós-crise: aportes de R$ 38,8 milhões para Juiz de Fora, R$ 8,3 milhões para Ubá e R$ 566 mil para Matias Barbosa.

Como era de se esperar, diante das críticas pela redução das verbas de prevenção de desastres, o governador Zema rebateu afirmando que o governo investiu mais de R$ 200 milhões na construção de piscinões – reconhecendo o investimento, mas admitindo que foi realizado em outra região. O grande problema é que Zema apenas participa da execução de alguns desses piscinões, cujo objetivo é a reparação dos danos de Brumadinho. A maioria das demais obras é construída pela Prefeitura de Belo Horizonte, por meio da Sudecap, com recursos federais, da Caixa Econômica, e internacionais, do BID. O governador se valeu dessas obras do acordo de Brumadinho como escudo político para rebater as críticas aos cortes orçamentários e escapar da responsabilização no momento da tragédia.

Juiz de Fora (MG). Foto: Ricardo Stuckert (PR).

Vale lembrar das alegações semelhantes sobre a não utilização das verbas de prevenção de enchentes no Rio Grande do Sul em 2024. Segundo o governador Eduardo Leite (PSD, embora naquele momento fosse PSDB), o estado também tinha outras prioridades. Agora, em Juiz de Fora, o presidente Lula (PT) denunciou ter disponibilizado R$ 3,5 bilhões em obras do PAC para o estado, sem que o governo mineiro apresentasse os projetos necessários. Governos de extrema-direita atuam assim: tratam a tragédia como surpresa, pois ela gera comoção e permite que grupos de interesse imponham mudanças drásticas, sem a participação e o controle da sociedade civil.

Ainda assim, somos levados a refletir: se o governo Zema pretendesse agir preventivamente, poderia executar obras já identificadas como necessárias enquanto políticas públicas. A Revista da PUC Minas, edição n.º 32, de 2025, publicou matéria, afirmando que desde 2009 a Prefeitura de Belo Horizonte investe na construção de bacias de detenção, os chamados piscinões, na tentativa de reduzir os impactos de enchentes e inundações em áreas críticas. Embora eficientes no armazenamento de grandes volumes de água nos períodos chuvosos, essas estruturas representam elevados custos de construção e manutenção. Nesse estudo do Curso de Geografia, coordenado pelo Prof. Antoniel Fernandes, avaliou-se o custo-benefício dessas estruturas ao longo de quatro gestões municipais e concluiu-se que alternativas sustentáveis seriam mais viáveis. De fato, mesmo em BH já existem parques lineares que incorporam bacias de contenção, consumindo um volume total de recursos significativamente menor do que as bacias isoladas, e ainda contribuindo com retornos sociais e ambientais. Além disso, o Plano Diretor de 2019 de BH já prevê a instalação de pisos drenantes e dos chamados “jardins de chuva”, concebidos para atenuar as inundações na cidade.

Com base em tudo isso, os mineiros de renda mais abastada, já teriam elementos para reivindicar a construção de parques lineares em outras cidades do estado, bem como os de menor renda, deveriam rezar para a realização de contenção de encostas pelas prefeituras e pelo PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), pois segundo a análise de Cássia Regina Segnor e Almir Francisco Reis em publicação do Cadernos Metrópole (2025), em Florianópolis, a ocupação urbana responde de algum modo a condição de vulnerabilidade social. E mesmo que a avaliação de Luiz Cesar de Queiroz Ribeiro (2002) diga mais diretamente sobre a cidade do Rio de Janeiro, suas análise há muito, já alertavam para isso, as “encostas” no Brasil, são para os pobres.

Voltando a preferência eleitoral de Juiz de Fora e da Zona da Mata com um dado curioso e que reforça a ideia que existe algum tipo de discriminação eleitoral com nossa região. Pode parecer impressionante, mas desde a redemocratização em 1989, quem vence as eleições presidenciais em Minas Gerais, vence também, as eleições presidenciais no Brasil. Isso há nove eleições presidenciais. Na última rodada, a Zona da Mata Mineira ficou como uma das pedras no sapato do governador, pois é clara a aproximação dele com o outro candidato a presidência em 2022. A diferença de votos obtidas em 2022, foi suficiente para garantir a vitória de Lula na eleição em Minas e manter a tradição. Sabemos que isso é da conta das histórias políticas, ou mais um causo mineiro. Mesmo assim, existem analistas como Malco Camargos que garantem a especificidade de Minas Gerais, retratando como fiel detentora das características nacionais. Na dúvida, lembre-se da tradição política do café com leite e que deu no que deu, no frigir dos ovos, Getúlio no poder. De quebra, outra cidade famosa com características similares é Ohio, que manteve a tradição por 52 longos anos, só deixando de tê-la quando Trump perdeu para Biden. Minas Gerais está apenas a 2 eleições presidenciais de bater esse recorde.


¹ Franklin Soldati é sociólogo e pesquisador do Núcleo Rio de Janeiro do INCT Observatório das Metrópoles.