Artigo analisa os efeitos do consumo na reconfiguração do Centro do Rio

O Centro do Rio de Janeiro é o tema de um novo artigo publicado na revista internacional Urban Geography, assinado por Vicente Brêtas (Universidade de Bonn, Alemanha) e pelo pesquisador do Núcleo Rio de Janeiro do INCT Observatório das Metrópoles, Breno Seródio (IPPUR/UFRJ). O estudo investiga como as políticas recentes de revitalização urbana têm utilizado atividades comerciais e culturais selecionadas para transformar a imagem da região, atrair investimentos e estimular novas formas de consumo.

Com o título “Revitalização urbana entre consumo adequado e inadequado: perspectivas do centro do Rio de Janeiro”, o artigo dialoga com a literatura crítica sobre desenvolvimento urbano orientado pelo consumo e amplia esse debate para o contexto latino-americano. A análise parte do programa “Reviver Centro”, além de documentos oficiais e discursos de agentes públicos e atores sociais, para compreender como determinadas práticas e sujeitos são legitimados, enquanto outros são marginalizados nos processos de renovação urbana.

Segundo os autores, as estratégias de revitalização contribuem para a construção de geografias morais que distinguem formas de consumo consideradas “apropriadas” e “inapropriadas”. Nesse contexto, vendedores ambulantes e trabalhadores informais se tornam alvos de maior regulamentação e vigilância, frequentemente associados pelo discurso oficial à desordem e à insegurança. O estudo mostra como essas narrativas participam da desestigmatização territorial do Centro, ao mesmo tempo em que redefinem quem pode ocupar e usufruir dos espaços urbanos.

Ideia do artigo surgiu a partir de um diálogo acadêmico

A ideia do artigo surgiu a partir de um diálogo acadêmico desenvolvido ao longo de vários anos entre os autores, que pesquisam os processos de revitalização do Centro do Rio por perspectivas distintas. A oportunidade de consolidar essa agenda surgiu com uma chamada da revista Urban Geography voltada às relações entre cidade e consumo, permitindo aos autores contribuir para um debate ainda pouco explorado a partir de cidades latino-americanas.

Segundo Breno Seródio, a pesquisa buscou preencher uma lacuna na literatura internacional e revelou que os processos de revitalização vão além das transformações físicas do espaço urbano. “Um dos nossos principais achados foi compreender que as políticas de revitalização também reorganizam os modos considerados legítimos de ocupar, consumir e vivenciar a cidade”, afirma. O pesquisador destaca, ainda, que a disputa pela revitalização envolve dimensões simbólicas e políticas. “Isso porque a disputa pela revitalização do Centro também é uma disputa sobre quais formas de consumo e de sociabilidade são reconhecidas como legítimas”, pontua Seródio.

Foto: Arquivo pessoal/Breno Seródio/2025.

Confira o resumo:

Desde a década de 1990, os estudos urbanos críticos têm examinado como as estratégias de revitalização mobilizam o consumo para construir consenso em torno de agendas políticas, mas grande parte desse trabalho tem se concentrado em contextos urbanos do Norte. Este artigo amplia o debate analisando o Centro do Rio de Janeiro, onde uma ambiciosa campanha de revitalização utiliza atividades comerciais e culturais selecionadas para remodelar as percepções urbanas e atrair/fixar investimentos. Buscamos demonstrar como essa estratégia reforça hierarquias de espaços, práticas e sujeitos do consumo. Por meio da análise de documentos e declarações relevantes de representantes do governo local e atores sociais, rastreamos como a revitalização impulsionada pelo consumo no contexto sul-americano se baseia em dinâmicas de desestigmatização territorial, revelando geografias morais emergentes que delineiam circuitos de consumo “apropriados” e “inapropriados”, legitimando, assim, a marginalização de grupos sociais do esforço de revitalização. Em particular, os vendedores ambulantes locais tornam-se alvos de maior regulamentação e vigilância, à medida que o discurso oficial associa sua presença ao crime e à desordem. Isso tem implicações teóricas para os debates sobre cidadania e pertencimento, uma vez que as estratégias de desenvolvimento orientadas para o consumo redefinem as presenças e atividades sociais na cidade.

Palavras-chave: Revitalização urbana; desenvolvimento urbano impulsionado pelo consumo; Reviver Centro; Rio de Janeiro; desestigmatização territorial.

Para acessar o artigo completo, clique AQUI.