Realizado no dia 15 de setembro de 2020, o seminário “Desigualdades Duráveis na Perspectiva de Charles Tilly” teve por objetivo estabelecer um diálogo entre os conceitos de Tilly e os diferentes aspectos das desigualdades duráveis na sociedade brasileira. O evento foi organizado pelo grupo de pesquisa do Observatório das Metrópoles “Estrutura Social das Metrópoles Brasileiras”, coordenado por Marcelo Gomes Ribeiro (IPPUR/UFRJ).

Para Ribeiro, ao estabelecer interlocução com pesquisadores que já aplicaram a abordagem teórica e metodológica de Charles Tilly, o seminário possibilitou compreender o seu emprego em diferentes estruturas organizacionais – mercado de trabalho, universidade, esfera da representação política e espaço urbano. Além disso, as discussões permitiram problematizar as possibilidades de ações coletivas ou práticas institucionais que podem superar as desigualdades categóricas:

“O que significa romper com a rigidez das desigualdades persistentes e duradouras que se manifestam pelas relações assimétricas e hierárquicas entre categorias sociais (homem/mulher, branco/negro, estrangeiro/cidadão, favelado/não favelado e etc.), mesmo que essa tarefa não seja tão simples devido à própria característica rígida e duradoura desse tipo de desigualdade”, argumenta.

Ainda segundo Ribeiro, essa reflexão das desigualdades duráveis que se manifestam por meio de pares categóricos é muito relevante para a análise da estrutura social das metrópoles brasileiras:

“Porque a estrutura social também precisa ser compreendida segundo essas dimensões, principalmente quando a pretensão é de aprofundar a tradução da estrutura social no espaço físico em cada metrópole do país, como é tradição nos estudos do Observatório das Metrópoles”, afirma.

Organizado em duas mesas, o evento abordou as seguintes temáticas:

  • Mesa 1 – “Produção e reprodução das desigualdades”:
    • “A construção das desigualdades duráveis”, com Carolina Zuccarelli, professora do Departamento de Sociologia e Metodologia das Ciências Sociais da Universidade Federal Fluminense (UFF);
    • “As desigualdades duráveis no ensino superior”, com Maria Ligia Barbosa, professora do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IFCS/UFRJ);
    • Mediação: Marcelo Gomes Ribeiro, professor do IPPUR/UFRJ e pesquisador do Observatório das Metrópoles.
  • Mesa 2 – “Desigualdades duráveis e democracia”:
    • “As concepções de Charles Tilly no debate sobre liberdade e democracia”, com Maria Aparecida Abreu, professora do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IPPUR/UFRJ);
    • “Desigualdades duráveis e sua superação nas questões urbanas no Rio de Janeiro”, com Erick Omena, pesquisador do Observatório das Metrópoles;
    • Mediação: Thêmis Amorim Aragão, pesquisadora do Observatório das Metrópoles.

A primeira exposição, feita por Carolina Zuccarelli, descreveu as concepções de Charles Tilly sobre desigualdades duráveis abordando os quatro mecanismos que instalam e mantêm as desigualdades, além dos conceitos de organização na perspectiva do autor e as perspectivas relacionais de seu trabalho. Foram discutidas também as desigualdades duráveis na educação e seu papel na reprodução do modelo desigual, abordando as formas de acesso e permanência nas instituições de ensino.

Em um grande diálogo com a primeira exposição, a apresentação da professora Maria Lígia Barbosa abordou como as desigualdades categóricas mantém o acesso restrito a bens, colocando o próprio acesso ao ensino superior como um desses recursos restritos. Na perspectiva da professora, a pergunta fundamental do trabalho de Charles Tilly se trata de como as diferenciações e diversificações se tornam desigualdades e perduram na sociedade.

Confira o registro:

Já a segunda mesa, realizada na parte da tarde, teve início com a apresentação da professora Maria Aparecida Abreu que fez reflexões sobre o papel do Estado no combate às desigualdades, através de suas capacidades estatais e realizou uma exposição dos conceitos de liberdade, interferência e dominação, traçando uma relação com trabalho de Charles Tilly.

Em seguida, Erick Omena discutiu sobre a existência das desigualdades duráveis na conformação do espaço urbano e apresentou casos de possibilidades de superação das desigualdades através de práticas políticas que borravam o par categórico, diminuindo a distância hierárquica entre grupos. Omena abordou o seu trabalho de doutorado, que discutiu a resistência política feita pelos moradores da Vila Autódromo e do Morro da Providência diante das remoções e transformações urbanas no contexto dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, em 2016.

O debate que se seguiu abordou as possíveis ações do Estado no combate à desigualdade e a forma como essas desigualdades limitam a liberdade e a democracia nos conceitos expostos pela professora Maria Aparecida Abreu. Além disso, também foi discutida a atuação dos mecanismos de adaptação e emulação, propostos por Tilly, no processo de adequação urbana estudado por Erick Omena e as possibilidades de uso do modelo teórico de Tilly em reflexões sobre outros processos de resistência política.

Confira o registro:

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Colaboração de Paula Guedes, bolsista do Observatório das Metrópoles Núcleo Rio de Janeiro e integrante do grupo de pesquisa “Estrutura Social das Metrópoles Brasileiras”.