Reportagem da Agência PÚBLICA mostra a invisibilidade dos moradores dos cortiços na zona portuária da cidade do Rio de Janeiro, e sua luta para permanecer no local. Com a revitalização do Porto Maravilha, a Prefeitura prometeu restaurar antigas habitações do centro para garantir a manutenção de moradia a preços acessíveis na região. Porém, a promessa não saiu do papel. A matéria, que contou com informações do projeto “Prata Preta” (Observatório das Metrópoles) cujo resultado traz um mapa inédito dos cortiços na área do porto do Rio, debate revitalização urbana, gentrificação e a luta pelo direito à moradia nos grandes centros do país.

PROJETO PRATA PRETA. A Rede INCT Observatório das Metrópoles e a Central de Movimentos Populares (CMP) divulgam o resultado final do Projeto Prata Preta, com um levantamento inédito dos cortiços localizados na zona portuária do Rio de Janeiro. O mapa aponta que são 54 cortiços situados na área portuária, distribuídos nos bairros Santo Cristo, Gamboa e Saúde, envolvendo no mínimo 712 quartos, onde habitam cerca de 1.120 pessoas. A pesquisa faz parte das ações em defesa do direito à moradia no contexto da Operação Urbana Porto Maravilha. E tem como objetivo dar visibilidade à situação econômica, social, cultural, jurídica e urbanística dos moradores dos cortiços da área central do Rio; e também identificar a demanda por regularização fundiária e habitação de interesse social.

AGÊNCIA PÚBLICA

Cortiços do Porto Maravilha sob pressão

por Caterina Clerici, Diane Jeantet

Quando Eduardo Paes, ex-prefeito do Rio de Janeiro, lançou a Operação Urbana – Porto Maravilha, em 2009, ele prometeu trazer de volta à vida a histórica zona portuária, uma região que estava há décadas abandonada pelo poder público. A revitalização de US$ 2 bilhões foi programada em parceria com o setor privado e inclui arranha-céus, um sistema de bondes e uma nova orla projetada por arquitetos renomados.

Foi o caso de Paulo Cezar da Paula, e também de seu filho, esposa e outras 120 pessoas que habitavam a ocupação Quilombo das Guerreiras, na Gamboa. Todos foram despejados para abrir espaço para a Trump Tower Rio, uma franquia da marca imobiliária do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. A família agora vive em um armazém abandonado, que eles esperam ser convertido em um dos poucos projetos de habitação social incluídos no projeto de revitalização do Porto Maravilha.

Como há grande procura para morar na região central carioca, aqueles que não são despejados muitas vezes se vêem obrigados a pagar preços excessivos para viver em condições precárias. Silvimar Soares vive com seus dois irmãos em um minúsculo quarto aos pés do Morro da Providência, dividindo com eles uma cama de casal. Cortiços sempre fizeram parte da história do Rio de Janeiro, atraindo, no início, escravos libertos e trabalhadores, que precisavam de uma moradia próxima ao seu local de trabalho.

Funcionários da prefeitura entrevistados pela Pública não reconhecem os cortiços como moradias, deixando os inquilinos vulneráveis em caso de despejos forçados. Ainda assim, existem soluções alternativas, como o caso de Isabela Moreira. Há mais de uma década, Moreira mudou-se para um dos cortiços da região portuária graças a um programa financiado pela prefeitura e pela Caixa Econômica.

O projeto Novas Alternativas – Morando no Centro visava à restauração de antigas habitações do centro da cidade para garantir a manutenção de moradia a preços acessíveis na região. Hoje, os moradores estão sentindo ainda mais a pressão de grandes incorporadoras e, sem o apoio da administração municipal, a elitização tem avançado na região.

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