A sexta edição do “Boletim Desigualdade nas Metrópoles”, produzido pelo Observatório das Metrópoles, em parceria com a Pontifícia Universidade do Rio Grande do Sul (PUCRS) e a Rede de Observatórios da Dívida Social na América Latina (RedODSAL), aponta que os mais ricos perderam 8% da renda nos últimos trimestres. Entre os mais pobres, o rendimento médio vem se recuperando, mas ainda é 16,1% menor do que o patamar anterior à pandemia. A fonte de dados é a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNADc), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). As informações levantadas dizem respeito somente ao rendimento domiciliar per capita do trabalho e o recorte geográfico inclui as principais regiões metropolitanas do país, totalizando vinte e duas áreas que respondem por quase 40% da população brasileira, ou mais de 80 milhões de pessoas.

Em resumo, o estudo assinala que a média de renda dos 40% mais pobres vem se recuperando. Do terceiro trimestre de 2020 para o terceiro trimestre de 2021, a renda aumentou 23,4%, subindo de R$173 para R$213. Enquanto isso, no mesmo período, a renda média dos 10% mais ricos caiu 8%, indo de R$6.967 para R$6.411. “No início da pandemia, a renda dos mais pobres foi a um nível muito baixo, enquanto os mais ricos não haviam sofrido tanto. Por outro lado, nos últimos meses, temos um processo de inflação que corrói a renda de todos, porém, ainda assim a renda dos mais pobres tem se recuperado. Dada a profundidade e a duração da crise provocada pela pandemia, junto à alta da inflação, seus efeitos alcançaram de modo mais claro os estratos tradicionalmente mais protegidos, mais bem remunerados e com maior escolaridade, que normalmente identificamos como a classe média ou classe média alta”, explicou o professor André Salata (PUCRS), um dos coordenadores do estudo junto com o professor Marcelo Ribeiro (IPPUR/UFRJ), ambos pesquisadores da rede.

Para Ribeiro, existe uma redução real do nível de renda dos 10% mais ricos. “Nesse sentido, considero que, em 2020, quando começa a pandemia, as pessoas que têm remunerações menores e estão em condições desprotegidas no mercado de trabalho, acabaram saindo dos empregos, o que levou à redução de renda. Mas isso não aconteceu com os mais ricos, porque teve uma série de medidas do governo para manter o emprego em 2020, ou seja, maior proteção social. Mas, em 2021, os mecanismos de proteção social foram relaxados e isso acabou afetando os mais ricos”, pontuou o pesquisador. Segundo ele, se não houver um processo de recuperação econômica para dinamizar o mercado de trabalho e gerar mais empregos, há uma tendência de manutenção desses patamares de desigualdade ou aumento, principalmente pelo efeito da inflação. “À medida que os rendimentos nominais não tenham sido elevados, a renda real tende a diminuir”, apontou Ribeiro.

Segundo os pesquisadores, entretanto, é preciso destacar que, de qualquer maneira, as perdas sofridas entre os mais pobres ainda são proporcionalmente maiores do que as sofridas pelos mais ricos. No terceiro trimestre de 2021 a renda dos mais pobres era 16,1% inferior ao valor do primeiro trimestre de 2020, antes dos efeitos da pandemia se fazerem sentir. Entre os 10% mais ricos, essa diferença era de 10,2%. Segundo Salata, os mais pobres perderam proporcionalmente mais, o que jogou milhares de famílias para níveis de rendimento muito baixos, com efeitos sociais muito significativos.

Famílias chefiadas por mulheres tendem a ter uma renda menor

O estudo também mostra que os domicílios mais afetados pela crise foram aqueles chefiados por mulheres. No terceiro trimestre de 2021, nas metrópoles, as famílias chefiadas por homens tinham média de renda 1,60 vezes superior à média das famílias chefiadas por mulheres. Antes da pandemia, contudo, essa razão era de 1,47. Portanto, as famílias chefiadas por mulheres sofreram de modo muito mais profundo com a crise provocada pela pandemia nas regiões metropolitanas. No último trimestre antes da pandemia, no início de 2020, a renda média dos domicílios chefiados por mulheres era de R$1.345, caindo para R$1.183 no primeiro trimestre de 2021, e chegando a R$1.208 no terceiro trimestre de 2021 – último trimestre para o qual os microdados da PNADc-IBGE foram liberados até o presente momento.

Uma explicação seria a razão entre o número de crianças e adultos na família. “Nas famílias chefiadas por mulheres têm mais crianças que adultos, o que, automaticamente, faz a renda per capita ser menor. Outro fator é as mulheres terem uma posição mais vulnerável no mercado de trabalho, onde não tem carteira de trabalho assinada, estão no mercado informal e mais concentradas no setor de serviços, incluindo o doméstico, que sofreu muito na pandemia”, explicou Salata. Como consequência, as mulheres chefes de família acabaram sofrendo mais.

Projeções e cenário para 2022

Salata ressalta que o estudo mostrou o pior valor de toda a série histórica em temos de renda média, pois em geral está caindo. “Reflete muito o que acontece com a renda dos mais ricos, atingiu o pior valor desde 2012, chegou a R$1.353. Ou seja, estamos batendo o valor mais baixo, que foi em 2012. O cenário provável é a renda média caindo, porque os mais ricos estão perdendo, mas a desigualdade também cai por conta da distância entre eles, porque os mais pobres subiram a renda”, esclareceu.

Ribeiro reflete que, embora a vacinação já tenha permitido que as pessoas retornassem para o mercado de trabalho, o efeito vai se apresentar para todas as classes de rendimentos. “Os que menos ganham são os que mais sofrem e há uma tendência que o nível de inflação seja elevado em 2022. Não necessariamente será um ano de retomada, vamos ficar dependentes do cenário externo. No momento que estamos hoje, não temos grandes perspectivas que 2022 seja um ano de crescimento”, finalizou o pesquisador.

Confira na íntegra o “Boletim Desigualdade nas Metrópoles nº 06”.

Acesse aqui as tabelas e gráficos do estudo.

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