Direito à cidade e questões raciais

Foto: Quitandeiras no Rio de Janeiro, Marc Ferrez (1875).

A arquitetura, o urbanismo e o planejamento urbano foram e ainda são peças fundamentais para manutenção das opressões nas cidades”. Em entrevista, Gabriela Leandro Pereira, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal da Bahia (UFBA), comenta três questões fundamentais para fazer avançar a discussão sobre a abordagem interseccional nos estudos urbanos, a partir do seu texto “Direito à cidade e questões raciais”.

Gabriela é coordenadora da linha “Presença Negra na Produção da Cidade” no Grupo de Pesquisa Lugar Comum (PPGAU-UFBA) e autora da tese de doutorado “Corpo, discurso e território: a cidade em disputa nas dobras da narrativa de Carolina Maria de Jesus”, premiada em 2017 pela ANPUR (Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Planejamento Urbano e Regional), onde incorpora a questão racial às discussões de gênero e do urbano a partir dos escritos de Carolina Maria de Jesus.

A seguir, Gabriela fala sobre a redução da compreensão dos modos de vida na cidade à lógica da precariedade e da ausência, sobre as armadilhas de romantização e simplificação do debate racial nos estudos urbanos e sobre a urgente necessidade de reescrita das narrativas do passado.

Por que não faz sentido acionar exclusivamente as lógicas da ausência e da precariedade para compreender a viabilização da vida nas cidades?

Eu acho que existe uma prática de leitura dos territórios negros, sobretudo, territórios de maioria negra, de lê-los a partir de referenciais, repertórios, experiências e dinâmicas de vidas que não lhes são próprios. Obviamente a gente vive numa sociedade ocidentalizada, onde as dinâmicas e práticas de produção e constituição de relações no território são atravessadas por dimensões que não necessariamente tem como referência apenas perspectivas que foram sendo construídas a partir dessa presença eurocêntrica ou que de alguma forma ditam a lógica hegemônica do planejamento das cidades. Então quando eu falo em acionar outras dimensões que não apenas da ausência e da precariedade como forma de compreender a viabilização da vida nas cidades, é porque historicamente existem processos de resistência, de organização, de permanência e de viabilização da vida que são constituídas nos territórios negros que não cabem nessas categorias “precariedade”, “ausência” ou “escassez”. Os territórios negros têm inventado modos de vida de sobreviver as adversidades e essas dimensões talvez sejam mais estruturantes para pensar esses territórios do que só a ausência e a precariedade. Isso não é necessariamente ingênuo ou romântico, acho que tem uma dimensão óbvia de dar conta de várias precariedades existentes e que são estruturais pelo abandono histórico e estrutural desses territórios, mas isso não os reduz.

Gabriela Leandro Pereira durante evento promovido pelo LabCidade (FAUUSP).

Como abordar o debate racial nas questões do universo urbano, de modo a evitar essas armadilhas armadilha da romantização e simplificação?

Ao inverter a prioridade no olhar, não necessariamente a intenção é polarizar essas relações entre resistência e precariedade, entre ausência e inventividade. Penso que as relações são mais complexas e se atravessam, não cair na armadilha é exatamente não polarizar um lado ou outro e entender também que os territórios negros possuem especificidades. E aí estou chamando de territórios negros o que a gente denomina periferia, favela, subúrbio, territórios populares, reivindicando trazer a dimensão racial discursivamente porque ela aciona necessariamente outras categorias possíveis de leitura, que não só a da precariedade ou da ausência. Acho que a armadilha é não romantizar esse processo, não entendê-lo só como resistência ou só como potência, entender que são processos historicamente constituídos a partir de lutas, de construções de alternativas, de permanência, de viabilização da vida, entender enquanto tecnologia social todas as organizações, todas as práticas coletivas. Compreender também o lugar das dimensões individuais nesses territórios, que não é dual e está muito mais na chave da negociação com o outro, do que propriamente pautar apenas nas resistências ou potências, apenas nas precariedades ou ausências. Eu acho que é entender esse processo enquanto um processo contínuo de negociação para viabilizar a vida.

Você coloca a necessidade de se reescrever a narrativa histórica oficial que tanto nega o saber técnico e a inteligência dos povos africanos na cidade. Como a evitar que isso se consolide na construção da narrativa do futuro?

Para evitar essa consolidação de determinadas narrativas no futuro, é imprescindível reivindicar a reescrita do passado. E essa reescrita não é só tapar buracos ou lacunas, mas reentender, reimaginar, reconstruir lógicas. Por exemplo, se a gente entende que o século XIX é menos um século da escravidão e mais um século de processos de produção de formas de liberdade e de existência numa sociedade escravista e racista, isso faz com que a gente entenda que o papel das mulheres negras, muito antes das pautas feministas brancas do século XX, foi extremamente importante e fundamental para a estruturação da permanência negra nas cidades. Se a gente pega o caso do Rio de Janeiro, o exemplo do Mercado Mina[1] e a quantidade de mulheres negras trabalhando, juntando dinheiro, casando, separando, sendo donas de grandes empreendimentos. É surreal que isso não apareça na nossa historiografia como um dado do século XIX. Se a gente entende que as revoltas do século XIX pautaram uma série de ações posteriores a ela, como coibir a presença dos negros na rua, então a gente sabe a potência desse movimento negro. Se a gente entende que a primeira greve organizada de trabalhadores no Brasil acontece com a greve negra na Bahia, os negros ganham outro lugar até nessa relação de trabalho, das lutas do trabalho. Ainda que no âmbito do trabalho escravo, do trabalho não livre, mas que coloca essa relação do labor em outro lugar da organização, inclusive política, das cidades. Se a gente pensa que as ruas eram ruas negras no XIX, onde os negros estavam trabalhando, se organizando, juntando dinheiro, comprando terras, isso muda a relação que a gente construiu historicamente com essas presenças negras que estão pautadas na historiografia de uma forma extremamente subalterna. 

Então eu acho que reivindicar essas reescrituras do “passado” é entender enquanto uma potência que foi sendo negada e apagada historicamente pelas leituras urbanas que não reconhecem essas dinâmicas como próprias e que fez com que a gente passasse o século XX refém de uma política urbana, de estruturas urbanas que desconsideram e inviabilizam uma série de movimentos extremamente fortes. Pensar o futuro significa repensar esse passado como forma de entendê-lo enquanto potência que projetava uma outra alternativa de vida nas cidades que não essa que foi dada pelo século XX, pela construção das políticas urbanas e pelos registros historiográficos que não dão conta de entender essas lógicas.

Confira o artigo completo publicado na Revista Coletiva (CLIQUE AQUI).

[1] Também conhecido como Mercado da Candelária, era um grande centro de abastecimento com quitandas e bancas de alimentos que reunia trabalhadores de diversas procedências, incluindo muitos escravos e libertos da Costa da Mina. Os minas formavam um grupo longevo e coeso, com uma distribuição entre os sexos bastante equitativa. Fonte: “Mercados Minas: africanos ocidentais na Praça do Mercado do Rio de Janeiro (1830-1890)”, de Juliana Barreto Farias, 2012 (USP).

 

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