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Paula Guedes Martins Ferreira¹

Em 1º de maio celebra-se o Dia do Trabalhador, data que remete aos acontecimentos de 1º de maio de 1886, em Chicago, nos Estados Unidos, há exatos 140 anos. Naquele dia, teve início uma greve em que trabalhadores reivindicavam a jornada de 8 horas diárias e denunciavam as condições precárias de trabalho e de saúde a que estavam submetidos. As manifestações foram duramente reprimidas: a polícia atirou contra os manifestantes, resultando em quatro mortes, e oito trabalhadores foram presos sob acusação de conspiração, mesmo sem evidências. Desses, sete foram condenados à morte e outros receberam penas de 15 anos de prisão em decorrência de sua participação nas mobilizações. Em 1889, a Segunda Internacional Socialista instituiu a data como um marco de luta da classe trabalhadora, em homenagem a esses trabalhadores assassinados.

Discutir o Dia do Trabalhador em 2026 implica em refletir sobre a situação atual da classe trabalhadora no Brasil, marcada por profundas dificuldades e por transformações recentes nas relações de trabalho e a atualidade da luta por melhores condições de trabalho. O mundo do trabalho passou por transformações profundas ao longo das últimas décadas, sobretudo a partir da crise estrutural do capitalismo nas décadas de 1970 e 1980. O aumento da composição orgânica do capital e a tendência à queda da taxa de lucro caracteriza essa crise não como um fenômeno conjuntural, mas como uma crise estrutural de valorização do valor. Essa crise tem efeito inclusive sobre as formas de produção, sobre os sentidos atribuídos ao trabalho e sobre os mecanismos de reprodução social e subjetiva da vida.

Foto: Tânia Rêgo (Agência Brasil).

No Brasil, também se registraram essas transformações do mundo do trabalho. Um dos marcos centrais desse processo, foi a reforma trabalhista de 2017, que se destaca por flexibilizar direitos historicamente consolidados pela CLT e ampliar modalidades contratuais marcadas pela instabilidade, como o trabalho intermitente. Soma-se a isso o avanço da pejotização, caracterizado pela substituição de contratos formais de trabalho, especialmente aqueles regidos pela carteira assinada, por contratos entre pessoas jurídicas, processo que vem sendo progressivamente legitimado no âmbito jurídico.

Os processos característicos da precarização do trabalho se intensificaram também com o avanço do desenvolvimento tecnológico e informacional. Nesse contexto, destacam-se novas formas de precarização e intensificação da exploração, como o plataformismo e a uberização. Roberto Pessanha (2024) defende que o plataformismo promove uma racionalização ainda mais extrema do controle do trabalho e das etapas produtivas, especialmente aquelas ligadas à circulação. Além disso, o plataformismo está diretamente relacionado aos processos de globalização e à expansão da economia em escala global, sendo marcado pelo gerenciamento algorítmico dos trabalhadores.

Essas transformações se inserem em um contexto mais amplo de deterioração das condições de vida da classe trabalhadora. Embora tenham ocorrido aumentos pontuais no salário-mínimo, o quadro geral permanece marcado pelo arrocho salarial e pela perda de renda. Um dos sinais mais expressivos dessa realidade é o elevado endividamento das famílias: atualmente, 80,2% das famílias brasileiras encontram-se endividadas.

Contudo, o 1º de maio nos convida a recolocar no centro do debate público a luta por melhores condições de trabalho e por formas mais dignas de reprodução da vida dos trabalhadores. Entre as pautas que ganharam maior destaque no país nos últimos anos, especialmente em 2024 e 2025, se sobressai a mobilização pelo fim da escala 6×1. Essa reivindicação impulsionou grandes manifestações em novembro de 2024 e levou, ao final daquele ano, à apresentação, pela deputada Erika Hilton (PSOL), da Proposta de Emenda à Constituição nº 08/2025, que propunha a redução da jornada semanal de 44 para 36 horas. Embora a proposta não tenha avançado no Congresso Nacional, a mobilização em torno dessa pauta produziu resultados concretos em diferentes categorias profissionais.

Foto: José Cruz (Agência Brasil).

Em diversos setores, trabalhadores organizados conquistaram a redução e a readequação das jornadas por meio de greves e da mobilização coletiva. Entre os exemplos mais expressivos estão os trabalhadores da PepsiCo, organizados pelo Sindicato dos Trabalhadores da Indústria de Laticínios e Alimentação de São Paulo (STILASP), e os trabalhadores de empresas terceirizadas de limpeza urbana da Paraíba, organizados pelo Sindlimp-PB. Nesses casos, a organização sindical e a ação coletiva possibilitaram avanços concretos nas condições de trabalho, com a ampliação do descanso semanal e a conquista de jornadas menos extenuantes.

Em 2026, o governo federal passou a conferir maior centralidade a essa pauta, apresentando a redução da jornada de trabalho como uma de suas principais bandeiras no debate público, ainda que não tenha aderido de forma mais decisiva a essa agenda nos anos anteriores. Sob pressão das mobilizações sociais e sindicais, o governo apresentou, em 14 de abril, um projeto de lei propondo a redução da jornada semanal de 44 para 40 horas, o fim da escala 6×1 e a manutenção dos salários. Embora a proposta represente um avanço em relação à legislação vigente, ela ainda é mais limitada do que a proposta anteriormente apresentada pela deputada Erika Hilton, que previa a redução da jornada para 36 horas semanais.

Essa, contudo, não é a única frente de mobilização da classe trabalhadora. Diversas categorias seguem se organizando cotidianamente em defesa de melhoria das condições de trabalho. Em dezembro de 2025, a maior empresa brasileira, a Petrobras, viveu uma greve de seus trabalhadores que reivindicavam uma distribuição mais justa dos lucros e dividendos da empresa. Ao longo do mês de abril, por sua vez, intensificaram-se as mobilizações contra a aprovação de um projeto de regulamentação do trabalho por aplicativos de transporte, considerado insuficiente para atender às reivindicações de motoristas e motociclistas. Da mesma forma, os trabalhadores das principais universidades federais estão em greve há quase um mês pelo cumprimento do acordo firmado com o governo federal. Já o mês de maio, será marcado pelo Dia do Gari, no dia 16, em que a categoria da limpeza urbana busca a aprovação de um Projeto de Lei Federal (PL 4146/2020) com as principais reivindicações trabalhistas da categoria.

Esses processos evidenciam que o 1º de Maio permanece como uma data profundamente vinculada às lutas concretas da classe trabalhadora e à atualidade de suas reivindicações por direitos, dignidade e melhores condições de trabalho.


* Texto produzido com informações do Jornal A Verdade, Edição 332.

¹ Doutoranda do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional da UFRJ e pesquisadora do Núcleo Rio de Janeiro do INCT Observatório das Metrópoles.

REFERÊNCIAS

PESSANHA, Roberto Moraes. Teoria: E se estivermos à beira do plataformismo. Outras Palavras, 26 abr. 2024. Disponível em: https://outraspalavras.net/ tecnologiaemdisputa/teoria-e-se-estivermos-a-beira-do-plataformismo/. Acesso em: 4 jun. 2025.