Como a educação impacta as oportunidades de vida no Brasil? O livro “Expansão Educacional, Desigualdades e Estratificação Social: do desenvolvimento infantil ao mercado de trabalho”, organizado por André Salata, pesquisador do Núcleo Porto Alegre do INCT Observatório das Metrópoles e coordenador do PUCRS Data Social. A obra, lançada pela Editora Universitária da PUCRS (EdiPUCRS) e disponível em versões impressa e digital, propõe uma análise abrangente da infância ao mercado de trabalho, com recortes de classe social, raça e gênero. “O livro fornece subsídios valiosos para o aprimoramento de políticas educativas que visem tornar nossa sociedade mais justa e democrática”, destaca Salata.
O título é fruto de um projeto de pesquisa financiado pelo CNPq, no âmbito do Edital Universal. Coordenado por Salata, o trabalho envolveu professores de universidades federais e estaduais do Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais, entre eles Marcelo Ribeiro, pesquisador do Núcleo Rio de Janeiro do Observatório e professor do IPPUR/UFRJ. Segundo Salata, o ponto de partida foi o interesse comum do grupo em compreender a relação entre educação e reprodução das desigualdades no Brasil, um país marcado pela forte expansão do sistema de ensino em meio a profundas disparidades sociais.
“No campo da Sociologia, uma questão-chave emerge: como relacionar o avanço educacional às persistentes desigualdades sociais brasileiras?”, observa.

A investigação se estruturou em três eixos: o desenvolvimento infantil nos primeiros anos da escolarização obrigatória; as políticas de expansão educacional e desigualdade de oportunidades; e os efeitos da escolarização no mercado de trabalho. O objetivo geral era avaliar se a ampliação do acesso à educação contribuiu para democratizar as chances de vida no Brasil, considerando marcadores como classe, raça e gênero.
“Esse objetivo se justificava à medida que a educação se constitui, na sociedade moderna, um elemento-chave no processo de estratificação social e conformação das desigualdades, especialmente diante da substantiva elevação da escolaridade entre os brasileiros nas últimas décadas”, ressalta Salata.
Nesse contexto, o projeto buscou responder se as políticas implementadas nas últimas décadas realmente colaboraram para reduzir desigualdades de oportunidades. Para isso, analisou momentos-chave das trajetórias educacionais: da escolarização infantil ao desempenho no ensino fundamental e médio, do acesso ao ensino superior à entrada no mercado de trabalho. A pesquisa adotou metodologia quantitativa, baseada em dados primários e secundários, tratados com diferentes técnicas estatísticas, sobretudo modelos multivariados.
Os resultados reunidos no livro apontam que a mera expansão do sistema de ensino não é suficiente para mitigar desigualdades. Entre as evidências, destaca-se a chamada “inflação de credenciais”: com mais anos de estudo, a população precisa se qualificar cada vez mais apenas para manter posições relativas semelhantes no mercado de trabalho. Ainda assim, o sistema educacional pode atuar na redução das disparidades quando políticas específicas de inclusão são implementadas.
Cenário de expansão educacional tem despertado o interesse de profissionais de diversas áreas
Ao longo das últimas décadas, a sociedade brasileira foi marcada por um acelerado processo de expansão educacional. Esse movimento, segundo Salata, despertou o interesse de pesquisadores e profissionais de diferentes áreas. Embora a escolaridade média da população ainda seja considerada baixa em comparação a outros países com nível de desenvolvimento semelhante, os avanços foram expressivos desde meados do século passado.
“As matrículas no ensino fundamental mais do que dobraram nas últimas três décadas do século XX. A educação infantil registrou um aumento de mais de treze vezes nas matrículas, e o número de alunos no ensino médio cresceu de pouco mais de 1 milhão em 1970 para quase 7 milhões no final da década de 1990”, salienta.
A mesma tendência foi observada no ensino superior, que apresentou aumento de quase cinco vezes no número de matrículas. Com isso, o percentual de pessoas com 25 anos ou mais e menos de quatro anos de escolaridade caiu de 75% para 42% entre 1960 e 1991. No mesmo período, a taxa de analfabetismo caiu de 34% para 13%. Entre 1985 e 2015, a média de anos de estudo da população de 25 a 64 anos subiu de 4,5 para 8,6, e a proporção daqueles com 12 ou mais anos de escolaridade passou de 7,1% para 19,3%.
O ensino superior, após um período de estagnação nos anos 1980, viveu forte expansão a partir da década de 1990, configurando o chamado “segundo ciclo” de crescimento. Essa ampliação foi impulsionada por fatores como a reforma do ensino médio em 1971, que elevou a base de alunos, e a melhoria nas condições socioeconômicas após o Plano Real.
O movimento se intensificou ainda mais a partir de 2005. Entre 2005 e 2015, mais de 3,4 milhões de novas matrículas foram registradas, totalizando mais de 8 milhões de estudantes no ensino superior brasileiro (Inep, 2023). Nesse período, políticas como Prouni e Fies ampliaram significativamente o acesso de estudantes de baixa renda às universidades privadas. Em 2011, 28,8% dos alunos de graduação no setor privado tinham algum tipo de financiamento ou bolsa; em 2015, esse índice chegou a 44,4% (Inep, 2022). “Como consequência desse processo, a oferta de pessoas mais escolarizadas no mercado de trabalho brasileiro tem aumentado ano após ano”, conclui Salata.
Acesse o site da EdiPUCRS para adquirir o livro na versão impressa ou digital (CLIQUE AQUI).
