Eleições 2026 e Direito à Cidade: Núcleo Curitiba realiza Fórum Local sobre o retrato do país polarizado

Por Kelly da Luz Albuquerque* 

O Núcleo Curitiba do INCT Observatório das Metrópoles realizou, no dia 30 de setembro de 2026, no anfiteatro 400 da Reitoria da UFPR, o Fórum Local – Retratos de um Brasil polarizado. O evento reuniu pesquisadores, estudantes, movimentos sociais e candidaturas em uma exposição multidisciplinar, seguida de um debate, sobre o voto, o território, a opinião pública e as raízes do conservadorismo contemporâneo nas grandes cidades.

  1. Abertura e Carta de Compromisso

         A mesa de abertura foi conduzida pelo Prof. Dr. Luiz Belmiro Teixeira (IFPR), coordenador do Núcleo Curitiba, que destacou a importância das atividades de incidência política do Observatório e a publicação quinzenal de artigos de conjuntura no portal Brasil de Fato – PR. A iniciativa, realizada também nas eleições de 2022 e 2024, chega agora ao seu terceiro ciclo.

Durante o encontro, foi realizada a leitura oficial da Carta de Compromisso com o Direito à Cidade, documento que sintetiza os princípios defendidos pelas pesquisas do Observatório — como a oposição ao ultraliberalismo, a defesa da governança metropolitana democrática, políticas antirracistas e a habitação como direito fundamental. O momento foi marcado pela adesão e assinatura de candidatas presentes ao pleito de 2026, com a assinatura da carta por Laís Leão (PDT), candidata a deputada federal, e pela Professora Ângela Machado (PSOL), candidata a deputada estadual.

  1. Debates e Perspectivas

A programação refletiu sobre o cenário político eleitoral a partir de três eixos complementares destinados a analisar o perfil do eleitor: a macroescala territorial e eleitoral das capitais, a dinâmica quantitativa da opinião pública e as raízes históricas e comportamentais do conservadorismo juvenil.

No primeiro eixo, a Prof.ª Dr.ª Cristina Pereira de Araujo (UFPE) apresentou os resultados do livro “Retratos de um Brasil polarizado: O voto em 2018 e 2022 na perspectiva dos eleitores”, do qual é coautora. O objetivo central da pesquisa que deu origem ao referido livro foi entender de que maneira as condições sociais e territoriais moldam a formação das escolhas políticas. O trabalho cruza as teorias clássicas do comportamento eleitoral (como o voto retrospectivo e econômico de Anthony Downs e o viés de classe de Paul Lazarsfeld) com a teoria espacial de Milton Santos (território usado) e de Flávio Vilaça, além da Teoria dos Capitais de Pierre Bourdieu (capitais econômico, social e cultural). Assim, sob essas perspectivas, cobriu os 12 (doze) maiores colégios eleitorais do país (com Curitiba figurando como o oitavo), realizando 648 entrevistas (com eleitores de Bolsonaro, de Lula e aqueles que migraram o voto entre 2018 e 2022).

Ao explorar as razões do voto, a pesquisadora detalhou as motivações subjetivas e racionais que transformam experiências e afetos em escolhas eleitorais. Destacou como o espaço urbano reflete a desigualdade de classes e a penetração da ideologia ultraliberal nas diferentes faixas de renda mapeadas pela rede de pesquisa.

Conforme a pesquisadora, o eleitor avalia o governo anterior com base em suas vivências práticas e projeta expectativas para o futuro. Além disso, a escolha eleitoral possui uma dimensão positiva (afinidade com o candidato; no bolsonarismo, uma identificação moral e afetiva com a figura e os valores) e uma dimensão negativa (rejeição ao adversário), expressa sobretudo no antipetismo. A pandemia de COVID-19, por sua vez, foi interpretada de maneiras opostas conforme a orientação política prévia: afastou alguns eleitores de Bolsonaro e consolidou o apoio de outros. Por fim, aqueles que votaram em Bolsonaro em 2018 e migraram para Lula em 2022 compõem um grupo heterogêneo, de natureza mais estratégica do que ideológica, que reúne votos defensivos, motivados pela frustração com o governo Bolsonaro, e trajetórias voláteis, sem vínculo partidário estável.

Como conclusão central que atravessou todas as capitais estudadas, a professora destacou o papel corrosivo da desinformação: as fake news não circulam de forma abstrata; ao contrário, ganham credibilidade quando propagadas por círculos íntimos de convivência diária (grupos de família e de trabalho). A tensão provocada por esse fluxo contínuo de conteúdo não checado em espaços de afinidade gera conflitos diretos, fazendo com que muitos cidadãos prefiram se omitir e praticar a autocensura para evitar desentendimentos com parentes e colegas.

Já no segundo eixo, a pesquisadora Raquel Mirian Pereira de Souza, doutoranda em Ciência Política, que representou o Prof. Dr. Emerson U. Cervi (UFPR), trouxe dados quantitativos sobre os 30 (trinta) anos de democracia ininterrupta no Brasil e sobre o consumo de informação política. O debate apontou que, embora o celular (WhatsApp e Instagram) seja o principal canal de consumo de notícias políticas, os cidadãos ainda depositam maior confiança nos meios tradicionais (como a televisão) para validação dos fatos.

Destacou-se também que o eleitor mediano é quem define os pleitos eleitorais, situando-se fora dos extremos ideológicos. Enquanto os eleitores mais radicais e engajados situam-se nos extremos e mantêm seus votos consolidados sem mudar de opinião facilmente, é o eleitor mediano que resolve e decide os resultados das eleições. As pesquisas tradicionais de intenção de voto, especialmente as telefônicas, enfrentam dificuldade para capturar esse perfil, pois tendem a engajar majoritariamente o eleitorado extremado e ativo, deixando na invisibilidade o eleitor independente que decide o pleito de última hora. Analisando séries históricas de 30 anos de democracia ininterrupta no Brasil, a pesquisadora apontou dados considerados otimistas: a adesão à democracia como melhor sistema de governo mantém médias estáveis e elevadas, ultrapassando 50% após 2020. A alta insatisfação com a política (que atingiu picos em determinados anos, como 89% em 2018) não significa rejeição à democracia em si.

Para ela, existe uma crise democrática institucional, mas a população, de forma geral, continua preferindo o regime democrático a alternativas autoritárias. A pesquisadora argumentou que a polarização baseada no “nós versus eles” não nasceu em 2018; ela sempre existiu na política. O que mudou foi o ecossistema comunicacional, que tornou as verbalizações mais extremas e visíveis. No terceiro eixo, a Prof.ª Dr.ª Maria Tarcisa Silva Bega (UFPR) fez uma reflexão histórica ao resgatar uma pesquisa da qual participou, financiada pela Unesco e realizada em quatro capitais brasileiras (Brasília, Rio de Janeiro, Fortaleza e Curitiba), abrangendo o período de 1997 e 1999, sobre juventude, violência e cidadania. O estudo foi motivado pelo assassinato do indígena Galdino Patoxó, queimado vivo por jovens de classe média alta em Brasília, em 1997.

Bega pontuou que, ao analisar o período, os pesquisadores partiram de um falso pressuposto na avaliação histórica nos anos 2000. Embalados pelo clima de alargamento de direitos pós-Constituição de 1988, interpretaram os traços de preconceito e as posturas radicais mapeadas entre os jovens da época como meros residuais ou passageiros. Na verdade, ali estava sendo gerado o que chamou de “ovo da serpente” do conservadorismo que eclodiria décadas depois. A análise demonstrou que o espaço urbano curitibano atua ativamente como um marcador social de exclusão. A narrativa oficial de Curitiba como uma cidade “europeia” sempre funcionou para ocultar o racismo estrutural, estigmatizar as periferias e a região metropolitana (associando-as automaticamente à violência) e alimentar uma superioridade regional excludente — cujos ecos antigos se manifestavam em movimentos separatistas locais nos anos 90 (como “O sul é o meu país”) e, posteriormente, no bolsonarismo.  Utilizando dados recentes de pesquisas de opinião (como AtlasIntel e Quaest), a pesquisadora alertou para o crescimento expressivo de identificações com ideias conservadoras justamente entre os homens jovens, impulsionados por códigos de honra, pela cultura armamentista e por reações antifeministas disseminadas nas redes.

Para a pesquisadora, a universidade precisa abandonar modelos analíticos obsoletos e encarar a complexidade da subjetividade coletiva e do ressentimento social. O território hoje deixou de ser estritamente físico (o bairro, a rua) para se expandir para o território digital e informacional, onde a extrema direita opera com forte apelo emocional e identitário. A pesquisadora conectou as vulnerabilidades estruturais dos anos 1990 com a captura das pautas juvenis pela direita a partir de 2013, contrastando a rigidez de horários das políticas públicas estatais (que funcionam “das 8h às 18h, de segunda-feira a sexta-feira”) com a presença totalizante (7 dias por semana, 24 horas), citando, como exemplo, instituições religiosas e ambientes digitais, que oferecem acolhimento, rituais e pertencimento a uma juventude imersa em incertezas sistêmicas.

         O Fórum Local encerrou-se com uma troca de experiências com o público presente, reforçando a urgência de a universidade e os movimentos sociais atuarem firmemente no letramento político e na reconstrução de laços de solidariedade comunitária face aos desafios da desinformação e da fragmentação urbana. Para quem tiver interesse na leitura, o livro “Retratos de um Brasil polarizado: O voto em 2018 e 2022 na perspectiva dos eleitores” (organizado por Cristina Araujo, Lilian Sendretti e Luciano Abreu) está disponível no site da Alameda Editorial: https://www.alamedaeditorial.com.br/ciencias-politicas/retratos-de-um-brasil-polarizado-o-voto-em-2018-e-2022-na-perspectiva-dos-eleitores-de-cristina-araujo-lilian-sendretti-e-luciano-abreu-orgs

*Kelly da Luz Albuquerque é bacharela em Direito, pós-graduada em Direito Público pela Escola da Magistratura Federal (ESMAFE), pós-graduada em Direito Ambiental e Urbanístico pela Universidade de São Paulo (USP) e mestranda no Programa de Pós-Graduação em Planejamento Urbano da Universidade Federal do Paraná (PPU/UFPR). Integra o Laboratório de Habitação e Urbanismo (LAHURB) da UFPR e o Núcleo Curitiba do INCT Observatório das Metrópoles.