Eleições Brasil 2014: o peso econômico para a escolha eleitoral

By 13/11/2014janeiro 25th, 2018Artigos Semanais

Distribuição de votos válidos no 2º turno Eleições 2014

Distribuição de votos válidos no 2º turno Eleições 2014   Crédito: Jornal O Globo/Reprodução

Brasileiros não sabem votar? É verdadeira a hipótese conservadora que atribui os votos do Norte em Dilma Roussef pela dependência das políticas sociais, em oposição ao Sul e Sudeste que tiveram um voto mais consciente em Aécio Neves? Neste artigo Maria Inês Azambuja mostra, ao correlacionar os votos válidos em Dilma com os dados do Índice Firjan de Desenvolvimento Municipal, que o crescimento econômico teve papel central no voto dos eleitores do país.

Maria Inês Azambuja é médica sanitarista, professora do Departamento de Medicina Social da Faculdade de Medicina da UFRGS e pesquisadora do Observatório das Metrópoles no âmbito do projeto Saúde Urbana. Neste artigo ela faz uma análise do 2º turno das eleições brasileiras no tocante à distribuição de votos válidos por Estados do Brasil.

 

 

O que explica a distribuição proporcional de votos válidos por Estados do Brasil?

Por Maria Inês Azambuja

Brasileiros não sabem votar? Votam a cabresto de partidos políticos no nordeste e norte ou da mídia partidarizada no sudeste e sul? Ou o voto seria hoje  preponderantemente  econômico, ou seja,  refletiria a avaliação racional do eleitor sobre  melhorias (ou não) nas realidades locais durante o mandato de candidatos ou partidos postulantes?

Para avaliar a última possibilidade, este estudo correlacionou a proporção de votos válidos dados a Dilma Rouseff nos Estados com as variações relativas no ïndice Firjan de Desenvolvimento Municipal (IFDM), agregadas por Estados, em período recente.

O Indice Firjan de Desenvolvimento Municipal é um índice multidimensional  que varia entre 0 e 1, composto por uma agregação de indicadores validados internacionalmente para refletirem variações no desenvolvimento social, cobrindo as dimensões educação, saúde e trabalho e renda.  Utiliza, como base, estatísticas públicas oficiais do país. A atualização anual do índice permite o acompanhamento do desenvolvimento socioeconômico de todos os mais de 5 mil municípios brasileiros.

A construção do IFDM foi atualizada em 2014, e resultados relativos ao período 2005 a 2011 foram disponibilizados para download na página da Federação das Industrias do Rio de Janeiro, FIRJAN (http://www.firjan.org.br/ifdm/downloads/). Informações sobre a metodologia de cálculo do IFDM assim como mapas e um relatório detalhado sobre a condição dos municípios brasileiros em 2011 a partir do IFDM também estão  disponíveis para download neste link.

Mapas georeferenciados do IFDM para os anos de 1005 e 2011 produzidos pela FIRJAN podem ser conferidos na Figura 1.

 

Figura 1 – Mapas georeferenciados dos Índices Firjan de Desenvolvimento Municipal, 2005 e 2011.

 

Método

A partir dos IFDM disponibilizados para os anos de 2005 e 2011, calculou-se, por Unidade da Federação, as médias Estaduais e a variação proporcional nas médias no período, tendo como base os índices de 2005. Do TRE, foram obtidas as proporções de  votos válidos em Dilma Rouseff nas Unidades da Federação.  As tabelas e figuras abaixo mostram 1) a associação entre a variação proporcional média dos IFDMs nos Estados entre 2005 e 2011  e a proporção de votos válidos em Dilma Rouseff  no segundo turno das eleições presidenciais de 2014;  e 2) a associação entre as médias estaduais dos índices Firjan de desenvolvimento municipal em 2005 e sua variação proporcional no periodo 2005-2011.

Resultados

Tabela 1 – Variação proporcional nos IFDMs médios por Estado entre 2005 e 2011, e a proporção de votos válidos em Dilma no segundo turno das eleições.

Figura  2 – Associação entre a variação proporcional nas médias estaduais dos  ïndices Firjan de desenvolvimento municipal (IFDM) no período entre 2005 e 2011 e a proporção de votos válidos em Dilma Rouseff em cada Estado no segundo turno das eleições presidenciais de 2014.

A correlação entre a melhoria nos valores estaduais médios do IFDM e a votação em Dilma é muito elevada, especialmente excluido-se o Estado do Acre, um evidente outlier na figura 2, terra de Marina Silva que  lá  transferiu boa parte de seus votos pra Aécio Neves no segundo turno. O índice de correlação chega a 84% sem o Acre ( X 71% com o Acre).

A tabela 2 e a Figura 3 mostram a variação proporcional dos IFDM médios nas UF no período de 2005-2011 em relação à Média estadual dos IFDMs em 2005.

 

Tabela 2 – Média dos IFDM nas Unidades da Federação em 2005 e variação proporcional nas médias estaduais entre 2005 e 2011.

Figura 3 – Associação entre as médias dos IFDM nas Unidades da Federação em 2005 e a variação proporcional nas médias entre 2005 e 2011

Como se espera, Estados que partiram de médias mais elevadas do IFDM tiveram crescimentos relativos  dos índices de desenvolvimento social municipal mais baixos. Por outro lado, Estados que partiram de médias de IFDMs mais baixas tiveram avanços consideráveis.

É importante lembrar que médias são abstrações. Refletem apenas uma tendência central na distribuição de valores do conjunto estudado. Em cada Estado há municípios com maior e menor nível e velocidade de desenvolvimento. Uma avaliação com base em índices e votações Municipais poderia talvez aumentar as correlações encontradas. Mas claro, há desigualdades também dentro dos municípios… e neste nível intra-municipal faltam metodologias padronizadas para mensurar e avaliar desigualdades e seus efeitos.

Conclusões

Os resultados sugerem que o voto dos brasileiros, seja no norte/nordeste seja no sudeste/sul,  foi, na maior parte, um voto econômico,  alinhado com apercepção dos eleitores sobre a evolução da realidade local, objetivamente documentada aqui como variação relativa  nos índices Firjan de desenvolvimento municipal em cada Estado, em período recente.

 

Publicado em Artigos Semanais | Última modificação em 13-11-2014 13:26:32