Em entrevista para o Instituto Humanitas Unisinos (IHU), Marcelo Ribeiro e André Salata falaram sobre a quarta edição do “Boletim Desigualdade nas Metrópoles”, que levantou dados extremamente preocupantes sobre os efeitos da pandemia de Covid-19 no que diz respeito à renda e sua distribuição nas metrópoles.

Com o título “30% dos trabalhadores brasileiros vivem com renda mensal de R$ 275. Entrevista especial com Marcelo Ribeiro e André Salata”, a entrevista foi realizada por João Vitor Santos e buscou, a partir dos comentários dos pesquisadores, compreender os impactos dos dados do boletim – que aponta, por exemplo, que 4,3 milhões de pessoas estão vivendo com menos de ¼ do salário mínimo (R$ 275,00) nas metrópoles brasileiras.

O “Boletim Desigualdade nas Metrópoles” é resultado de uma parceria entre o Observatório das Metrópoles, a Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) e o Observatório da Dívida Social na América Latina (RedODSAL). O estudo é coordenado por Marcelo Ribeiro, professor do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional da UFRJ, e André Salata, professor do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da PUCRS, ambos pesquisadores da rede.

O Complexo da Maré na Zona Norte do Rio de Janeiro. Foto: Fernando Frazão (Agência Brasil).

A seguir, confira alguns trechos da entrevista:

IHU – Segundo pesquisa presente no último Boletim Desigualdade nas Metrópoles, cerca de 30% das pessoas estão vivendo em domicílios com renda per capita do trabalho inferior a ¼ do salário mínimo. Como podemos mensurar o impacto desse dado no cotidiano das famílias?

Marcelo Ribeiro – O que estamos observando é que há uma grande quantidade de pessoas com um nível de renda muito baixo, o qual advém do rendimento do trabalho, que é o principal tipo de remuneração dos domicílios. Isso significa que grande parte da população está com condições e um nível de vida muito precários. Os efeitos que essa situação gera na vida das pessoas são de diferentes aspectos: a capacidade de aprendizagem das crianças fica limitada por não terem uma alimentação adequada na medida em que a renda não é suficiente para poder garantir a subsistência das famílias; os trabalhadores não conseguem ter um nível de saúde adequado; os idosos ficam limitados na capacidade de realizarem uma boa fase de vida na velhice. As condições de vida são afetadas quando o nível de renda é muito baixo, como é o de um quarto da população brasileira: 30% da população tem um nível de renda de até ¼ do salário mínimo.

André Salata – Esse dado de que aumentou em 4,3 milhões, no conjunto das metrópoles, o número de pessoas vivendo com menos de ¼ do salário mínimo – restringido aqui à renda do trabalho –, expressa de modo objetivo algo que qualquer morador das grandes cidades do Brasil percebeu ao longo dos últimos anos. Basta andarmos pelas nossas cidades para enxergar mais pedintes, pessoas em situações de vulnerabilidadedesempregadosvendedores ambulantes nos sinais. É realmente impactante como essa realidade está muito mais presente depois de um ano de pandemia.

André Salata (PUCRS) e Marcelo Ribeiro (UFRJ)

IHU – Em meio a dados como esses que temos visto no Boletim Desigualdade nas Metrópoles, vemos notícias sobre crescimento das vendas no comércio, serviços e o próprio governo federal brada um PIB de 1,2%. Como vocês compreendem e interpretam essa aparente contradição?

Marcelo Ribeiro – A taxa de crescimento do PIB precisa ser compreendida: esse 1,25% que você menciona diz respeito a um crescimento em relação ao ano anterior, ou seja, o crescimento do ano passado em relação ao ano de 2019. Isso significa que é preciso saber quais foram as condições de produção do ano de 2019 – e sabemos que aquele ano não teve uma produção tão elevada. O país já estava com um nível de produção muito baixo desde de 2015. Inclusive, em 2015 e 2016, tivemos taxas negativas de crescimento econômico. Então, toda a recuperação e taxas positivas que passamos a ter a partir de 2017 não foram suficientes para reverter o nível de produção econômica do país.

André Salata – O PIB é composto por diversos componentes, como consumo das famílias, consumo do governo, investimentos, exportações, importações. Alguns desses itens estão mais conectados com a dinâmica do mercado de trabalho e outros nem tanto. O que parece estar acontecendo nos últimos meses é que se tem uma elevação do mercado, da demanda global por commodities, e isso vem estimulando as exportações no Brasil. Mas essa situação não necessariamente, ou de forma imediata, vai impactar o consumo das famílias mais pobres nem a redução mais ampla do desemprego. Pode ser que isso venha a ocorrer daqui a alguns meses, mas esse efeito não é imediato. Então, estamos observando exatamente isto: os componentes imediatos responsáveis pelo crescimento do PIB não são aqueles que estão mais conectados com a dinâmica do mercado de trabalho. Portanto, nem sempre podemos tomar uma coisa pela outra, ou seja, crescimento do PIB e melhora imediata dos indicadores no mercado de trabalho.

IHU – O próximo ano é de eleições. Que dicas vocês dariam para eleitores que estão preocupados com esses dados e a realidade concreta de desigualdades e buscam propostas de candidatos para frear e até reverter essa degradação dos modos de vida na cidade grande?

Marcelo Ribeiro – De fato, o ano de 2022 é significativo para debater a sociedade brasileira, tendo em vista que são eleições nacionais e teremos a oportunidade de escolher um novo presidente. Esperamos que seja um presidente que se preocupe com as pessoas, principalmente com aquelas que foram mais afetadas pela degradação dos últimos tempos, agravada pela pandemia. Espero que o debate público que ocorrerá nesse processo contribua para pensarmos o projeto de sociedade em curso, em que tipo de sociedade queremos viver e em que sociedade gostaríamos que as próximas gerações vivessem. Nesse sentido, tão importante quanto o debate em torno das candidaturas presidenciais, é se atentar também para as candidaturas de representação do Congresso Nacional, porque o Legislativo tem um papel fundamental no modo como as escolhas políticas vão ser feitas no país. O Executivo é grande, tem um papel central, mas ele não pode tudo nem não pode tudo sozinho, e o Legislativo é uma peça fundamental nessa estrutura. Então, eleger candidatos que tenham uma preocupação social e não só o objetivo de atender aos interesses do capital financeiro é fundamental para pensarmos um outro tipo de sociedade, que seja fundamentada numa política e numa economia que se voltem para atender às necessidades da população.

André Salata – O próximo ano é não somente de eleições mas talvez o mais importante da história do nosso país, mas vou me restringir à questão das desigualdades. Como venho dizendo, houve uma inflexão por volta de 2015, e o combate às desigualdades, que era central anos atrás – não somente no governo do PT, mas desde a promulgação da Constituição –, deixou de ser feito. A sugestão que eu daria é procurar candidatos que coloquem a questão das desigualdades e da pobreza como fundamentais nos seus programas de governo. Isso é extremamente relevante, porque não tem como pensarmos num projeto de país sustentável, num crescimento econômico sustentável sem combater a desigualdade, sem reduzi-la a níveis mais civilizados.

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