Ferrovias, geopolítica e desenvolvimento urbano: o avanço chinês na América Latina

Como os investimentos chineses em infraestrutura ferroviária estão redesenhando o território latino-americano? A partir dessa questão, Gabriela Campelo Aragão Bitencourt analisa os impactos territoriais, urbanos e geopolíticos da cooperação entre China e América Latina no livro “Ferrovias do Século XXI: investimento chinês na América Latina colaborando com o desenvolvimento territorial no Sul Global”.

Resultado de sua tese de doutorado, a obra investiga o papel das ferrovias de alta velocidade no planejamento territorial contemporâneo e propõe o conceito inédito de Grandes Projetos de Infraestrutura e Integração Transnacional (GPIIT). O livro faz parte da “Coleção Metrópoles – Teses e Dissertações”, publicado pela Letra Capital Editora, com apoio do INCT Observatório das Metrópoles e da Faperj, e está disponível para download gratuito em nossa Biblioteca Digital.

Conforme a autora, a pesquisa parte da experiência da “Expedição China”, realizada em 2023, fruto da parceria entre a Escola de Arquitetura da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e a Huazhong University of Science and Technology (HUST), em Wuhan. O estudo investiga como os trens de alta velocidade se tornaram instrumentos estratégicos do planejamento territorial chinês, articulando infraestrutura, desenvolvimento urbano, integração regional e geopolítica. O conceito inédito de GPIIT é entendido como um modelo de planejamento multidimensional voltado à integração física, econômica e territorial no Sul Global.

Nos agradecimentos da obra, a autora faz menção ao Observatório e a Luiz Cesar de Queiroz Ribeiro, coordenador nacional da rede. Bitencourt afirma que Ribeiro foi “o elo fundamental na conquista da publicação deste livro”. O trecho também evidencia a conexão da obra com o campo crítico dos estudos urbanos, a interlocução com o Observatório e o papel da rede na circulação da pesquisa.

Trem da Linha 2 do Metrô de Chongqing passando por um prédio residencial em Liziba. Foto: David290 (Wikimedia Commons).

China e América Latina estruturam a tese

A obra é dividida em duas grandes partes. A “Parte I — Decifrando a China da Nova Era” analisa o desenvolvimento tecnológico chinês, planejamento territorial, civilização ecológica, Belt and Road Initiative (BRI), expansão geopolítica da China e o papel da infraestrutura ferroviária de alta velocidade (HSR – High-Speed-Rail) na modernização nacional. Já a “Parte II — Analisando a América Latina” mapeia 44 projetos ferroviários com participação chinesa distribuídos em 12 países latino-americanos e os impactos territoriais, econômicos e geopolíticos da cooperação China-ALC (América Latina e Caribe).

Conforme descrito no livro, dentre os resultados práticos, a pesquisa demonstrou que a atuação da China na ALC, materializada em 44 projetos de transporte sobre trilhos, configura uma retomada sutil, porém significativa, do modal ferroviário na região (foram catalogados projetos no Brasil, Argentina, Chile, Colômbia, Peru, México, Venezuela, entre outros). A tese combina cartografia, georreferenciamento, análise territorial, diagramas autorais e investigação geopolítica.

O prefácio do livro foi escrito pela professora da UFMG, Natacha Silva Araújo Rena, e contextualiza a trajetória intelectual da autora. Segundo Rena, o livro é resultado de sete anos de pesquisa e orientação acadêmica. A trajetória de Bitencourt começou em estudos urbanos locais em Belo Horizonte e evoluiu para análises multiescalares e geopolíticas. O texto ainda destaca a criação do grupo Geopolítica e Planejamento Territorial (GeoPT).

Rena menciona que já não é possível compreender o urbano apenas na escala local e que a geopolítica passou a influenciar diretamente os processos territoriais. Segundo ela, a ascensão chinesa altera a lógica tradicional da globalização e evidencia modelos alternativos de desenvolvimento territorial, tecnológico e econômico. O prefácio também cita a participação de Luiz Cesar de Queiroz Ribeiro na banca da tese e em pesquisas posteriores sobre “Urbanismo do Projetamento”, envolvendo países do Sul Global.

Principais conclusões

De acordo com a autora, a China está promovendo uma nova lógica de integração territorial no Sul Global. Os projetos ferroviários possuem dimensão econômica, urbana, geopolítica, social e ambiental. Entre os principais resultados está a formulação do conceito de GPIIT, um novo marco teórico voltado à análise da infraestrutura, do urbanismo e da integração territorial no Sul Global.

A tese sugere que o HSR atua como instrumento de equilíbrio regional e estimula novas centralidades urbanas, reduzindo desigualdades territoriais e fortalecendo redes econômicas e sociais, além de articular desenvolvimento, mobilidade e planejamento. Segundo a autora, a robustez teórica e metodológica da tese oferece subsídios para futuras contribuições no campo das políticas públicas, do planejamento urbano e territorial e da Cooperação Sul-Sul, com destaque para temas ligados à mobilidade, infraestrutura e desenvolvimento regional.

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