Na última quinta-feira, dia 18, o Observatório das Metrópoles promoveu, através do seu canal no Youtube, a live “Enfrentamento da COVID-19 nas periferias urbanas e comunidades da Região Metropolitana de Belo Horizonte“.

Organizada pelo Núcleo Belo Horizonte, a transmissão contou com a participação de Junia Ferrari e Thiago Canettieri, ambos pesquisadores da rede, além da integrante da coordenação nacional do Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas, Poliana Souza; a secretária da Cooperativa de Produção e Comercialização de Baldin, parceira da feira de economia popular e solidária promovida pela Face/UFMG, Osvaldina de Souza Silva; e o líder comunitário, membro do Movimento das Comunidades Populares (MCP), Gelson Alexandrino, que infelizmente não conseguiu participar diretamente devido a problemas técnicos, mas acompanhou e contribuiu com o debate.

Belo Horizonte concentra hoje 57% dos 6.100 casos de COVID-19 notificados oficialmente, segundo dados do dia 16 de junho. “A curva endêmica tem mostrado na capital um comportamento menos acelerado. Em BH, a velocidade de disseminação do coronavírus é bem menor do que nos demais municípios da região metropolitana e do que no próprio estado. No entanto, as áreas marcadas por enormes desigualdades, no caso, as periferias, estão em alerta, principalmente pelas condições de habitabilidade dessas regiões. E a pandemia vem somar mais uma camada de desafio diante do quadro já instalado”, analisa Junia.

Conforme a militante Poliana Souza, o Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas tem feito uma rede solidária para arrecadar alimentos, produtos de higiene pessoal e de limpeza, distribuindo de forma menos burocrática possível, “mas ainda é insuficiente”, completa. “Também estamos indo às ruas para que a quarentena não seja um privilégio, e sim, um direito para toda a população”, reivindica a militante. Para a líder comunitária Osvaldina Souza Silva, a live veio em um bom momento para alertar a população, bem como os moradores das comunidades, que “é necessário fazer a defesa do SUS, cobrando do poder público e do governo federal os recursos na ordem de dez por cento do valor bruto da arrecadação, para que sejam voltados à defesa da saúde pública”, pontuou. Segundo Osvaldina, algumas saídas para o desemprego e a falta de renda estão nas cooperativas e economia popular solidária.

Ao final da live, Junia Ferrari concluiu: “Dizem que estamos todos no mesmo barco. Porém, eu não acho que isso seja verdade. Estamos no mesmo mar, mas alguns estão de iate, outros estão de barco e outros agarrados em tábuas. O mar é o mesmo, muito tenebroso e vem expor a desigualdade que estamos vivendo há muito tempo. Precisamos unificar os esforços para construir uma outra normalidade menos desigual”, pontuou a pesquisadora.

Confira o registro:

Já na terça, dia 23 de junho, ocorreu a live “Omissões e ações públicas em comunidades vulneráveis no contexto do coronavírus“, organizada pelo Núcleo Paraíba. A transmissão contou com a participação de Lívia Miranda, coordenadora do Núcleo Paraíba e professora do Programa de Pós-graduação em Engenharia Civil e Ambiental da UFCG; do pesquisador do Núcleo Recife e professor aposentado do Programa de Pós-graduação em Geografia da UFPE, Jan Bitoun; da pesquisadora da FIOCRUZ-PE e professora da Universidade de Pernambuco, Tereza Lyra; e da diretora executiva da Habitat para a Humanidade Brasil, Socorro Leite. Os convidados abordaram as práticas cartográficas e discursivas no período da pandemia, as condições sociais de acesso aos serviços de saúde e as condições socioambientais dos moradores que dificultam a proteção quanto ao novo coronavírus.

“Muito já se produziu sobre o coronavírus neste momento e, efetivamente, neste debate vamos discutir o que essas produções representam e qual o impacto disso nas comunidades, assentamentos e favelas”, contextualizou Lívia Miranda. O pesquisador Jan Bitoun discorreu sobre um estudo do Departamento de Ciências Geográficas da UFPE, sobre cartografia e comunicação. “O envolvimento no projeto acabou nos levando a produtos para pensar, a partir de agora, qual comunicação é necessária neste momento de relaxamento geral e de riscos de repique. É um tema que precisamos trabalhar na universidade e, também, em iniciativas com os coletivos”, ressaltou. Na área de cartografia, Bitoun explicou que há obras descritivas acompanhando o avanço da pandemia. “Esses trabalhos cartográficos mostram o caráter da dificuldade das populações mais negligenciadas em acessar o diagnóstico e ainda mais dificuldade em conseguir tratamento em UTI’s para se evitar a morte”, pontuou.

Para a pesquisadora Tereza Lyra, o Brasil poderia ter saído adiantado na prevenção ao coronavírus por ter já visto a experiência de outros países. “Mas não foi isso que a gente assistiu. A falta de um comando único no enfrentamento fez com que as ações carecessem de uma maior coordenação e articulação entre vários entes da federação. Não ter instituído a vigilância adequada dos viajantes, onde não foi recomendado o distanciamento, fez com que a população de classe média e alta trouxesse o vírus de outros países para os centros urbanos”, lembrou. Segundo a pesquisadora, estamos diante de uma epidemia sem conhecê-la, pois o Brasil é um dos países que menos testa a população. “Como enfrentar algo que não conhecemos e não sabemos como se comporta? A falta de uma inteligência epidemiológica para coordenar essa epidemia também é uma das grandes lacunas que o Brasil enfrenta”, observou.

Socorro Leite (Habitat para a Humanidade Brasil) falou da Articulação Nacional de Redes e Entidades da Sociedade Civil pelo Combate ao Covid-19 nas Periferias e Grupos Vulnerabilizados, na perspectiva de apoio às comunidades neste momento, tanto emergencial, quanto assistencial e, ainda, do processo de organização de informações e propostas para realizar a incidência política. “É importante avançar nas provocações e dar visibilidade ao que está acontecendo nas periferias. Há uma série de ausências e omissões que se somam e tornam essa população muito mais vulnerável à COVID-19. Percebemos que a própria sociedade civil e os coletivos das comunidades estão trabalhando essa prevenção nos locais mais vulnerabilizados. Reforço também a questão dos testes: é uma vergonha escancarar como a população negra e pobre está morrendo sem saber que tem COVID-19. É justo nas periferias e nas comunidades mais pobres que temos o maior número de mortes e o menor diagnóstico dos casos mais graves. Faltam testes e melhores condições de isolamento”, ressaltou.

Confira o registro:

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