Livro investiga como galpões logísticos remodelam periferias metropolitanas no Brasil

Quais dinâmicas caracterizam a urbanização associada ao uso logístico do território? A partir dessa questão, o livro “Urbanização extensiva dependente: enclaves logísticos na periferia de regiões metropolitanas brasileiras”, de Aldo Garcia Júnior, analisou a expansão dos condomínios logísticos no país entre 2005 e 2023. A pesquisa utilizou como base estudos de caso em cinco regiões metropolitanas: São Paulo (RMSP), Recife (RMR), Manaus (RMM), Curitiba (RMC) e Goiânia (RMG). O trabalho investigou a disseminação de galpões, seus agentes, condicionantes locacionais e a influência de políticas públicas e instrumentos urbanísticos. Também examinou os impactos territoriais e socioambientais, principalmente em áreas vulneráveis.

Resultado da tese de doutorado de Garcia Júnior, a obra está disponível para download gratuito na Biblioteca Digital do site do INCT Observatório das Metrópoles. A publicação faz parte da Coleção Metrópoles Teses e Dissertações, da Letra Capital Editora, com apoio do Observatório e da Faperj. Com base em estudos de caso e em uma leitura abrangente, o livro destaca o papel central do Estado em diferentes escalas na condução do processo de crescimento da produção de galpões, suas preferências locacionais, a distribuição territorial desses empreendimentos, os principais agentes envolvidos e os interesses que os articulam.

“Este livro oferece uma excelente chave analítica para compreender os mais recentes processos de urbanização no Brasil contemporâneo, especialmente nas áreas metropolitanas, e preenche uma lacuna sobre este fenômeno na atual fase de reestruturação produtiva, na qual o país insiste em se inserir de forma periférica e marginal”, escreveu o orientador da tese, Sidney Piochi Bernardini, na apresentação da obra.

Enclaves logísticos e inserção dependente na economia global

A partir de uma abordagem comparativa, a pesquisa identificou padrões e tendências comuns, sustentando a hipótese de que a expansão desses enclaves expressa a inserção dependente do Brasil na economia global, marcada pela articulação entre capital internacional, agentes nacionais e o Estado. Em relação à metodologia, o autor combinou análise empírica, revisão bibliográfica, cartografia e estudos de caso para compreender as dinâmicas e os efeitos desse processo.

Segundo Bernardini, o autor partiu da hipótese de que os galpões logísticos vão além da função de armazenagem, assumindo papel semelhante ao das grandes plantas industriais do século XX na organização do espaço periférico das metrópoles. Para sustentar essa análise, foi retomado o debate da urbanização dependente, formulado por pensadores como Ruy Mauro Marini, André Gunder Frank e Vania Bambirra, reinterpretado diante de um contexto marcado pela financeirização, centralidade dos serviços e reprimarização econômica.

Diante desse cenário, o destaque é a revisão contemporânea dos conceitos que vem sendo realizada por Luiz Cesar de Queiroz Ribeiro, ao lado de Nelson Diniz, reforçando a atualidade da teoria da dependência para compreender as transformações urbanas recentes. Conforme descrito por Bernardini, o autor da obra pontuou que a configuração espacial resultante da disseminação de condomínios logísticos na periferia de metrópoles brasileiras expressa a posição subordinada do país na divisão internacional do trabalho.

Esse processo articula concentração de renda, superexploração e precarização do trabalho, além de dinâmicas de espoliação urbana. Bernardini destaca na apresentação do livro que o capital rentista aparece como elemento central da acumulação contemporânea, impulsionado por agentes globais. Apesar do dinamismo econômico, a implantação de empreendimentos ocorre em territórios marcados por vulnerabilidade social e fragilidade ambiental, frequentemente com apoio de políticas públicas que oferecem incentivos fiscais e flexibilização urbanística.

Racionalidade logístico-rentista e urbanização extensiva dependente

Garcia Júnior ainda propõe dois conceitos-chave: a “racionalidade logístico-rentista”, que combina fluidez logística e acumulação rentista na produção do espaço, e a “urbanização extensiva dependente”, articulando a teoria da dependência à noção de urbanização extensiva de Roberto Monte Mór. O resultado, nas palavras do autor, é: “um padrão marcado por grandes infraestruturas, expansão horizontal e apropriações seletivas do território, sem romper as estruturas históricas do desenvolvimento periférico”, disse Bernardini na apresentação do livro.

“A tese se organiza em três partes, subdivididas em nove capítulos, partindo da contextualização do fenômeno, passando pela análise dos casos empíricos para, finalmente, fundamentar a proposição dessa categoria-síntese”, mencionou o autor na introdução da obra. A primeira parte tem como objetivo contextualizar o surgimento dos galpões logísticos, e os insere em transformações mais amplas nos campos da produção, circulação e consumo.

A segunda parte analisa o fenômeno nas cinco regiões metropolitanas selecionadas. O autor examina o contexto local, a atuação dos agentes envolvidos, as condicionantes territoriais, os fatores de atração, como incentivos fiscais e ordenamento territorial, bem como os efeitos e desdobramentos associados à disseminação desses empreendimentos, com atenção às áreas de alta vulnerabilidade socioeconômica e de preservação ambiental, o que permite uma comparação sistemática entre as regiões metropolitanas.

A terceira parte busca fornecer respostas interpretativas acerca do fenômeno e de sua dinâmica recente. Foi apresentada uma síntese das principais convergências e particularidades observadas nos estudos de caso, delineando características espaciais gerais da expansão dos condomínios logísticos no Brasil. Por fim, o capítulo de conclusão demonstra como a disseminação dos condomínios logísticos na periferia de metrópoles brasileiras se ancora em uma racionalidade logístico-rentista.

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Sumário

Apresentação

  • Paisagens logísticas metropolitanas da lógica neoliberal, por Sidney Piochi Bernardini

Introdução

PARTE 1. CONTEXTO METROPOLITANO BRASILEIRO E A ASCENSÃO LOGÍSTICA

  • 1. CONTEXTO INDUSTRIAL E METROPOLITANO BRASILEIRO NO SÉCULO XXI
    • 1.1 Indústria, agronegócio e a balança comercial
    • 1.2 Contexto industrial e a dependência 4.0
    • 1.3 Aspectos da desconcentração da indústria brasileira no século XXI
    • 1.4 Desindustrialização, migração e desigualdade nas metrópoles brasileiras
  • 2. A ASCENSÃO LOGÍSTICA E OS CONDOMÍNIOS DE GALPÕES
    • 2.1 A ascensão logística
      • 2.1.1 Fluidez versus fricções
    • 2.3 Aspectos da ascensão logística no Brasil
    • 2.4 Os galpões logísticos e a sua disseminação pelo país
      • 2.4.1 A distribuição de condomínios logísticos pelo país

PARTE 2. ESTUDOS DE CASO: A DISSEMINAÇÃO DE CONDOMÍNIOS LOGÍSTICOS EM METRÓPOLES BRASILEIRAS

  • 3. SÍNTESE – ENTRE ANÉIS E RADIAIS: a recente ampliação do sistema logístico na reestruturação do uso do solo na Região Metropolitana de São Paulo
  • 4. DA CANA-DE-AÇÚCAR AO FULFILLMENT: a produção de condomínios logísticos na Região Metropolitana de Recife
    • 4.1 A metrópole de Recife no século XXI
      • 4.1.1 O protagonismo do Complexo Industrial e Portuário de Suape
      • 4.1.2 Expansão Imobiliária ao sul da metrópole
    • 4.2. A produção de condomínios logísticos na RMR
  • 5. LOGÍSTICA NA AMAZÔNIA: a produção de condomínios em Manaus e suas nuances
    • 5.1 Aspectos econômicos e do processo de urbanização em Manaus: o papel central da ZFM
      • 5.1.1 Entre o isolamento geográfico e a integração logística global
    • 5.2 A produção de condomínios logísticos em Manaus e suas nuances
  • 6. PLANEJAMENTO MODELO? A produção de condomínios logísticos na Região Metropolitana de Curitiba
    • 6.1 A produção de condomínios logísticos na RMC
      • 6.1.1 Mudanças no consumo
      • 6.1.2 As principais empresas e fundos de investimento atuando na RMC
      • 6.1.3 Participação do Estado
        • 6.1.3.1 Curitiba
        • 6.1.3.2 São José dos Pinhais
        • 6.1.3.3 Pinhais
        • 6.1.3.4 Campina Grande do Sul
        • 6.1.3.5 Quatro Barras
      • 6.1.3.6 Araucária
      • 6.1.4 A configuração espacial resultante
  • 7. ASCENSÃO LOGÍSTICA NO TREVO DO BRASIL: a produção recente de galpões logísticos na região metropolitana de Goiânia
    • 7.1.1 Transformações no consumo
    • 7.1.2 A produção de condomínios logísticos em Goiânia
    • 7.1.3 A produção de condomínios logísticos em Aparecida de Goiânia
    • 7.1.4 A produção de condomínios logísticos em Hidrolândia
    • 7.1.5 A configuração espacial resultante

PARTE 3. A CONFIGURAÇÃO ESPACIAL RESULTANTE: UMA URBANIZAÇÃO EXTENSIVA DEPENDENTE

  • 8. Convergências, especificidades e o sistema de produção de condomínios logísticos
  • 9. Racionalidade logístico-rentista e urbanização extensiva dependente em Regiões Metropolitanas Brasileiras
    • 9.1 Galpões logísticos e a racionalidade logístico-rentista
      • 9.1.1 Nós de racionalidade logística e de captura de renda e valor
        • 9.1.1.1 Galpões logísticos na esfera produtiva
        • 9.1.1.2 Galpões logísticos na esfera rentista e financeira
        • 9.1.1.3 Galpões logísticos e sua natureza múltipla
    • 9.2 Galpões logísticos e a urbanização completa da sociedade
    • 9.3 Galpões logísticos: imperialismo, dependência e urbanização

CONCLUSÃO

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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