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Betânia Alfonsin*

Recentemente a população moradora do Bom Fim viu uma cafeteria icônica do bairro fechar as portas. O sentimento de tristeza pela perda de um espaço de convívio social se agravou algumas semanas depois, quando tapumes cercaram a simpática casinha antiga que abrigava o Café, juntamente com a casa vizinha, um sobrado modernista, ele também remanescente da antiga arquitetura residencial da Rua Ramiro Barcelos. Os tapumes não deixavam dúvidas: ambas serão demolidas em breve para dar lugar a mais um prédio em altura na região.

Para quem é morador/a ou frequentador/a do bairro e do Café que fechou as portas, emerge uma incômoda e cada vez mais frequente emoção: a MELANCOLIA URBANÍSTICA.

Se tivesse de escrever um verbete a respeito, escreveria: a MELANCOLIA URBANÍSTICA é um sentimento emergente dos habitantes das cidades, causado pela impotência experimentada diante da destruição de queridas ambiências urbanas, que podem não ter importância alguma para a indústria da construção civil, mas são centrais na construção de memórias coletivas, da sociabilidade e da identidade de um bairro.

É certo que Porto Alegre não está sozinha nesse processo de destruição do patrimônio arquitetônico, paisagístico, cultural e afetivo das cidades. No Brasil inteiro, especialmente nas capitais, as populações urbanas sofrem diariamente com a progressiva perda de referências e de ambiências que frequentavam e que organizavam as leituras comunitárias de bairros e comunidades. São casas construídas em séculos passados que são compradas, demolidas em bloco, os terrenos remembrados e substituídas por espigões; Cafés e armazéns fechados para dar lugar a um shopping center; pequenas matas urbanas suprimidas para o surgimento de algum novo empreendimento imobiliário; praças que, antes ensolaradas, se tornam sombrias e prensadas entre edifícios; parques públicos que se frequentava livremente que passam a ser concedidos à iniciativa privada. Um cenário desolador e marcado pela indiferença com a vida cotidiana.

A verticalização de bairros outrora caracterizados como estritamente residenciais – com casas isoladas no lote, ou com prédios de poucos andares e generosos recuos de jardim – é resultado da alteração do regime urbanístico previsto no plano diretor para essas regiões. Tais alterações da legislação urbanística tem o potencial de gerar maior densidade, diminuir a insolação de calçadas e jardins, impermeabilizar o solo, sobrecarregar infraestruturas, gerar ilhas de calor e dificultar encontros cotidianos entre os moradores do bairro. Essas mudanças são resultado direto da pressão da indústria da construção civil sobre governos municipais que cedem a tais interesses em troca, muitas vezes, do financiamento de suas próprias campanhas eleitorais¹, em um “toma lá, dá cá” em que a opinião da população residente é uma variável que não entra na equação.

Foto: Núcleo Porto Alegre do INCT Observatório das Metrópoles.

Soma-se a isso o fato de que, para a indústria da construção civil, preservar ambiências é sinônimo de diminuição do volume de negócios, pois como a terra da cidade não se multiplica, é precisamente com a combinação de derrubada do casco antigo da cidade, com a construção em altura e o avanço sobre áreas ambientalmente preservadas das cidades que as perspectivas de lucro para o setor aumentam.

Mas essa forma de produzir cidades não vai acelerar as mudanças climáticas? É o que dizem muitos estudos científicos, mas o negacionismo climático tem sido o modus operandi da maior parte dos governos municipais e, no caso do Rio Grande do Sul, nem a tragédia da enchente de 2024 parece ter sensibilizado alguns prefeitos. No caso de Porto Alegre, apesar da capital do estado ter sofrido a maior enchente de sua História, o Plano Diretor Urbano Sustentável e a Lei de Uso e Ocupação do Solo enviados pelo governo Melo à Câmara de Vereadores em 2025, falam bem pouco do tema, demonstrando completo desprezo por um dos maiores problemas da humanidade.

Para além da perda de paisagens preciosas, do incremento da emissão de gases geradores de efeito estufa, do agravamento de congestionamentos e da diminuição da qualidade de vida, o impacto psíquico dessa destruição do habitat urbano em que se vive é uma dimensão ainda negligenciada na maior parte das análises sobre as cidades. Aquilo que um senso comum acrítico chamaria de “desenvolvimento urbano”, “evolução urbana” ou “expansão urbana”, pode afetar radicalmente o humor das pessoas.

Nas grandes cidades, a combinação do barulho incessante do trânsito em vias de grande circulação, a motosserra que prenuncia a derrubada de mais uma árvore na rua em que se vive, o ruído das betoneiras misturando o concreto na obra ao lado de casa, a constatação de que aquele murinho que o seu cachorro amava foi derrubado, causa uma espécie de sofrimento psíquico pelo qual ninguém se interessa. A melancolia urbanística deprime os indivíduos e a coletividade. A melancolia urbanística emerge onde a gestão urbana se afasta do cidadão comum e o planejamento urbano se transforma em plano de negócios.

Esse processo é profundamente perturbador para os moradores do entorno das obras, que, de uma hora para a outra, surgem na esquina e transformam todo o visual de um quarteirão, reduzem o horizonte que se via da janela do apartamento, retiram o sol que inundava a sala de manhã, sem que ninguém na rua tenha sido ouvido a respeito. Reside aí uma ofensa ao direito coletivo à cidade, já que raramente são conduzidas consultas ou audiências públicas que envolvam as populações afetadas nos processos de tomada de decisão sobre o licenciamento de empreendimentos que afetam, às vezes, toda a dinâmica de um bairro. Os estudos de impacto de vizinhança (E.I.V) ficam reduzidos aos grandes empreendimentos urbanos e, ainda assim, são conduzidos com reduzida escuta à população, ou com a definição de contrapartidas que mais agregam valor aos próprios empreendimentos do que resultam em benefícios para o entorno, para a cidade e/ou para a cidadania.

E as resistências? Elas existem e Porto Alegre tem diversas articulações e coletivos organizados na defesa do direito à cidade, de ambiências e equipamentos urbanos, como dão exemplo os Coletivos ATUAPOA – todxs nós pelo direito à cidade, o Coletivo Preserva Redenção e o Gasômetro do Povo. Graças à mobilização desses coletivos, muitas ações judiciais foram propostas, muitas denúncias foram realizadas e muitos projetos governamentais e privados recuaram. Sem dúvida alguma, as resistências populares importam. Enquanto os governos continuarem privilegiando os interesses econômicos das empresas da construção civil, em detrimento do interesse coletivo na preservação da qualidade de vida em Porto Alegre, veremos aumentar muito a melancolia urbana que deprime a cidadania.

Certamente merecemos uma cidade e um futuro menos hostil.

Os povos indígenas têm mostrado, com grande indignação, como se defende a floresta e se revertem decisões governamentais nocivas para a natureza. Vamos aprender com eles a defender nossas ambiências urbanas, mostrando que as cidades, tal como a natureza, também devem ser compreendidas e respeitadas como um bem comum. Essa pode ser a única maneira de derrotar a melancolia urbana.

O INCT Observatório das Metrópoles seguirá engajado na defesa do direito à cidade, na denúncia dos ataques ao planejamento urbano e à gestão democrática da cidade.


* Betânia Alfonsin é doutora em Planejamento Urbano e Regional, Professora da FMP e Pesquisadora do Núcleo Porto Alegre do INCT Observatório das Metrópoles.

¹ Ver a respeito o estudo de André Augustin e Luciano Fedozzi “Para quem se governa em Porto Alegre? Uma análise do financiamento de campanha nas eleições municipais de 2020”. In Reforma Urbana e Direito à Cidade – Porto Alegre (2022). Disponível em: www.observatoriodasmetropoles.net.br/wp-content/uploads/2023/03/Reforma-Urbana-e-Direito-a-Cidade_PORTO-ALEGRE-v2.pdf

Artigo publicado originalmente no Brasil de Fato RS, em 12 de fevereiro de 2026.