Acesso a favela de Paraisópolis na Vila Andrade, Zona Sul de São Paulo. Foto: Simon Plestenjak/UOL.

Suzana Pasternak¹
Camila D’Ottaviano²
Ângela Luppi Barbon³

No último dia 24 de março, o governador do estado de São Paulo, João Doria (PSDB), decretou o isolamento social como medida para evitar a propagação do coronavírus, treze dias depois da Organização Mundial da Saúde (OMS) declarar que o mundo vive uma pandemia causada por este agente patogênico. Desde então, o comércio em geral foi obrigado a fechar, mas o funcionamento dos serviços essenciais, como saúde, alimentação e segurança, foi mantido.

O primeiro caso brasileiro confirmado, no dia 25 de fevereiro, foi de um morador de São Paulo que acabava de chegar da Itália. Desde então temos acompanhado com apreensão as notícias e dados sobre o impacto da COVID-19 no Brasil. Hoje, dia 19 de maio, já são quase 18 mil mortos no país⁴ e mais de 5.900 mortes⁵ apenas na cidade de São Paulo.

Em relação à Região Metropolitana de São Paulo (RMSP), dados publicados no site da Fundação Seade, tendo como fonte informações da Secretaria de Saúde do Estado, mostravam que entre 28 de abril e 12 de maio o número de mortes por COVID-19 na metrópole aumentara 186%. Para a capital, o aumento foi, no mesmo período, de 180%, enquanto para os outros municípios metropolitanos chegou a 205%. Tanto a mortalidade como o aumento da taxa de novos casos nos outros municípios é ainda maior que na capital. Esse aumento expressivo mostra a doença caminhando para o resto da metrópole. Dados do dia 12 de maio mostram que a incidência de casos entre moradores da capital ainda era bem superior que nos demais municípios, com 233,97 casos confirmados para cada 100 mil habitantes em São Paulo, enquanto que no restante da RMSP este número era de 110,33 por 100 mil. Alguns municípios, entretanto, já mostravam alta morbidade: Barueri (200,84 óbitos por 100 mil habitantes), São Caetano do Sul (189,76 por 100 mil), Osasco (189 por 100 mil), Santana do Parnaíba (161,44 por 100 mil).

Municípios reconhecidamente industriais, com grande presença de população pobre, ainda não apresentavam, em 12 de maio, alta morbidade. Por exemplo, em Guarulhos a taxa mortalidade era de 80,74 por 100 mil; em Jandira, 90,61; em Cajamar, 117,23; e em Diadema, 111,01. Nos municípios menos integrados à cidade de São Paulo, a taxa de casos por 100 mil habitantes era ainda menor como, por exemplo, em: Juquitiba, 23,03; Salesópolis, 29,69; e Vargem Grande Paulista, 46,39.

Dados posteriores certamente indicarão aumento expressivo de casos e óbitos nos municípios metropolitanos. Fora Osasco, município proletário, os outros com grande número de casos atestam que o início da pandemia foi resultante de infestação inicial pela população de classe média e alta. Daí a alta morbidade de Barueri e Santana do Parnaíba, onde se concentram condomínios fechados de alta renda. Mas o contágio pelos outros segmentos populacionais era inevitável. A atual e a futura expansão vão, infelizmente, demonstrar este fato.

A partir dos dados divulgados pela Prefeitura de São Paulo⁶ procuramos, a seguir, apresentar o panorama geral da mortalidade por COVID-19 na cidade de São Paulo ao longo do último mês.

Os dados consolidados até agora permitem a análise da mortalidade por distrito ao longo de quase um mês (entre 17 de abril e 14 de maio). Essa primeira análise nos mostra o crescimento da Taxa de Mortalidade em direção à periferia do município.

Tabela 1 – Taxa de Mortalidade COVID-19 por Anéis. De 17 de abril a 14 de maio de 2020. Fonte: PMSP. Elaboração Suzana Pasternak.

Numa primeira visão sintética, utilizando como unidade territorial os anéis  (Taschner e Bogus, 1998), pode-se notar:

  • As taxas de mortalidade por COVID-19, embora subdimensionadas, cresceram em toda a superfície do município, com aumento médio de 204%;
  • As taxas dos anéis central e periférico se aproximam: em 17 de abril a taxa do anel central era 1,47 vezes maior que a do periférico; em 24 de maio, 1,32 vezes;
  • O incremento no período, embora fosse elevado para todos os anéis, mostrou-se mais forte para o anel periférico.

Decididamente, a COVID-19 está se alastrando pela periferia paulistana, incluindo outros municípios da Região Metropolitana mencionados anteriormente.

Para o município de São Paulo,  a Tabela 2 mostra os 10 distritos com maior mortalidade e menor mortalidade (em azul) em 17 de abril (são, no total, 96 distritos). Uma vez que o isolamento social se iniciou em 24 de março, os dados de 17 de abril  já indicam algum tipo de padrão tanto na expansão da contaminação quanto da morbidade.

Tabela 2 – Número de Óbitos e Taxa de Mortalidade. Seleção de Distritos. 17 de abril de 2020. Fonte: PMSP. Elaboração das autoras.

Percebe-se que as maiores taxas de mortalidade (ainda reduzidas, se compararmos com as de 14 de maio) estão tanto em distritos pobres, com alta densidade e presença de cortiços e comércio popular, como o Pari e Belém, como em pontos da periferia leste, como Vila Formosa, São Miguel, Artur Alvim. O Mapa 1 mostra o centro, o centro norte, dois pontos no sul e um caminhar para a zona leste. As taxas de mortalidade menores estavam em distritos periféricos, com exceção do Butantã, perto do centro expandido. Chama a atenção que o distrito de Vida Andrade, onde se localiza a favela de Paraisópolis, com população de 42.826 pessoas em 2010 (ou 34% da população e 49,15% dos domicílios do distrito)⁷, ainda era pouco atingido, com taxa de mortalidade de 6,1 óbitos por 100 mil moradores

Mapa 1 – Taxa de Mortalidade. Município de São Paulo. 17 de abril de 2020. Fonte: PMSP. Elaboração Ângela L. Barbon.

Os dados do dia 30 de abril apresentados na Tabela 3 e no Mapa 2 mostram a expansão das taxas mais altas de mortalidade para o leste e para o norte da capital. As maiores taxas de mortalidade continuam acontecendo no Pari, Belém, Água Rasa, Limão e Artur Alvim. Mas entre os dez distritos com maior mortalidade está também o de Alto de Pinheiros, com baixa densidade, casas horizontais e alta renda. Os distritos periféricos continuam a mostrar baixa mortalidade, incluindo o Butantã. Os valores das taxas já apresentam incrementos significativos (no Pari, aumento de 36,7 para 58,9 por 100 mil; no Belém, aumento de 34,4 para 58,9 por 100 mil). Entre os 10 com a menor taxa, continuam muitos dos periféricos: Campo Limpo, Anhanguera, Jardim Angela, Raposo Tavares, Vila Andrade, entre outros. Mas nota-se que o aumento de óbitos neste período já mostra forte incremento em alguns distritos periféricos (ver Tabela 6, incremento de 179% no Jardim Helena, 143,5% no Jardim Angela e 168% em Campo Limpo).  Na área central também o aumento de mortes foi grande, nos distritos da Sé e da República.

Tabela 3 – Número de Óbitos e Taxa de Mortalidade. Seleção de Distritos. 30 de abril de 2020. Fonte: PMSP. Elaboração das autoras.

Mapa 2 – Taxa de Mortalidade. Município de São Paulo. 30 de abril de 2020. Fonte: PMSP. Elaboração Ângela L. Barbon.

Os dados do dia 14 de maio são apresentados na Tabela 4 e no Mapa 3. Pari, Limão, Belém, Cachoeirinha, Artur Alvim, Campo Belo e Água Rasa seguem entre os distritos com maiores taxas de mortalidade. Porém Alto de Pinheiros, Liberdade e São Mateus foram agora substituídos por Brás (bairro popular da área central), Vila Medeiros e Mandaqui, ambos na zona norte. Entre os distritos com menores taxas de mortalidade, apenas Parelheiros, no extremo sul da cidade, não está mais na lista.

Oito dos dez distritos com as maiores taxas de mortalidade apresentam uma densidade populacional (moradores por hectare) superior à média observada para o município de 95,42 moradores por hectare, segundo dados da última Pesquisa Origem e Destino do Metrô (OD-2017). As exceções são Mandaqui e Cachoeirinha, na zona norte, com densidades de 53,40 e 76,27 moradores/ha respectivamente. Também com base na OD-2017 podemos observar que todos estes dez distritos têm renda média familiar mensal inferior a observada para o município, de R$ 4.273.

Já entre os distritos com menores taxas de mortalidade por 100 mil habitantes há mais distritos com densidade inferior a média municipal, são cinco casos (Anhanguera, Pedreira, São Rafael, Raposo Tavares e Jardim Ângela), todos com renda inferior a média municipal. Por outro lado, quatro dos distritos deste grupo com maiores densidades (Vila Andrade, Butantã, Vila Sônia e Bela Vista) tinham em 2017 renda média familiar mensal significativamente superior à municipal (R$ 5.628, R$ 6.359, R$ 5.454 e R$ 5.076). Já Campo Limpo apresenta densidade (99,54 moradores/ha) mais próxima da média para o município e renda familiar inferior (R$ 3.850).

Tabela 4 – Número de Óbitos e Taxa de Mortalidade. Seleção de Distritos. 14 de maio de 2020. Fonte: PMSP. Elaboração das autoras.

Se a classificação entre os distritos com maior e menor taxa de mortalidade se manteve estável, o Mapa 3 mostra o aumento das altas taxas de mortalidade por COVID-19 em direção à zona norte e leste da capital. Em apenas duas semanas, entre 30 de abril e 14 de maio, os distritos com taxas superiores a 50 óbitos por 100 mil habitantes passaram de 5 para 45!

Mapa 3 – Taxa de Mortalidade. Município de São Paulo. 14 de maio de 2020. Fonte: PMSP. Elaboração Ângela L. Barbon.

Ao analisarmos o aumento do número absoluto de óbitos, a variação ao longo das quatro semanas analisadas chega a um aumento de 560% no número total de óbitos por distrito. A análise do número total de óbitos de forma isolada não é um bom indicador, mesmo assim serve para mostrar escalada no número de mortes por COVID-19 na maior cidade do país.

Tabela 5 – Aumento de óbitos. Seleção de Distritos. Período 30 de abril a 14 maio de 2020. Fonte: PMSP. Elaboração das autoras.

As Tabelas 6 e 7 apresentam a variação percentual da Taxa de Mortalidade para os dois períodos estudados (de 17 a 30 de abril e de 30 de abril a 14 de maio). Novamente os distritos selecionados foram aqueles com os maiores e menores percentuais.

Para o período de 17 a 30 de abril (Tabela 6), o maior aumento na taxa de mortalidade aconteceu no distrito da República, na área central, que apresentou um aumento de mais de 200%. Já o distrito de Marsilac, no extremo sul da cidade e com pouquíssimo habitantes (8.426), não contabilizou nenhuma morte associada à COVID-19.

Tabela 6 – Variação Taxa de Mortalidade. Seleção de Distritos. Período 17 a 30 de abril de 2020. Fonte: PMSP. Elaboração das autoras.

Já para o segundo período (entre de 30 de abril a 14 de maio), apesar dos percentuais de incremento da taxa de mortalidade serem um pouco menores, o aumento das taxas de mortalidade passa a atingir todos os distritos da cidade. Chama a atenção que as maiores variações estão concentradas sobretudos nos distritos ao sul do município: Parelheiros, Campo Grande, Jardim São Luis, Campo Limpo, Santo Amaro e Socorro.

Tabela 7 – Variação Taxa de Mortalidade. Seleção de Distritos. Período 30 de abril a 14 de maio de 2020. Fonte: PMSP. Elaboração das autoras.

Os Mapas 4 e 5 apresentam o incremento das taxas de mortalidade para os dois períodos. Se na segunda quinzena de abril a expansão em direção à periferia do aumento das taxas de mortalidade acontecia de forma mais ou menos homogênea (atingindo distritos ao norte, a leste, a oeste e ao sul), na primeira quinzena de maio, conforme mostra o Mapa 5, o aumento da mortalidade se deu sobretudo em direção a porção sul da cidade.

Mapa 4 – Aumento Taxa de Mortalidade. Município de São Paulo. 17 a 30 de abril de 2020. Fonte: PMSP. Elaboração Ângela L. Barbon.

Mapas 5 – Aumento Taxa de Mortalidade. Município de São Paulo. 30 de abril a 14 de maio de 2020. Fonte: PMSP. Elaboração Ângela L. Barbon.

A análise dos dados da mortalidade por COVID-19 mostra que o caminho rumo à periferia está se concentrando cada vez mais nos distritos e áreas com maior precariedade habitacional, com grande concentração de favelas e assentamentos irregulares, locais com os piores indicadores de acesso à infraestrutura e também aos serviços de saúde. Apenas para lembrar, o distrito de Vila Andrade tem 49,15% dos seus domicílios em favela; Brasilândia, 29,50%; Capão Redondo, 27,66%; Campo Limpo, 26,83%; Jardim São Luis, 24,09%; Pedreira, 23,40%. Todos eles com crescimento explosivo de mortalidade.

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¹ Arquiteta e Urbanista, professora titular aposentada da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAUUSP). Pesquisadora do Observatório das Metrópoles Núcleo São Paulo.

² Arquiteta e Urbanista, docente da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAUUSP). Coordenadora do projeto de pesquisa “Direito à Cidade e Habitação” do Observatório das Metrópoles.

³ Arquiteta e Urbanista, analista de desenvolvimento habitacional e urbano na Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano do Estado de São Paulo (CDHU).

⁴ Fonte: Dados consolidados em 19/05/2020 às 19:20 do Painel Coronavírus do Ministério da Saúde, por meio da Secretaria de Vigilância em Saúde (SVS/MS). Disponível em: https://covid.saude.gov.br/. Acesso em: 19 de maio de 2020.

⁵ 5.935 em 17 de maio de 2020. Fonte: Prefeitura de São Paulo, Boletim Diário Covid-19. Disponível em: https://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/upload/saude/18052020boletim_covid_19_diariov.pdf. Acesso em: 19 de maio de 2020.

⁶ Boletins diários são divulgados em: https://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/saude/vigilancia_em_saude/doencas_e_agravos/coronavirus/index.php?p=295572.

⁷ Mapa da Desigualdade 2019 produzido pela Rede Nossa São Paulo.