Mulheres, tecnologia e acesso à creche na periferia de Curitiba

A digitalização dos serviços públicos tem sido apresentada como um caminho para ampliar a eficiência da gestão urbana e facilitar o acesso da população a direitos e políticas públicas. No entanto, a experiência cotidiana de quem utiliza essas plataformas revela que os benefícios da transformação digital não são distribuídos de forma homogênea entre territórios e grupos sociais. Questões como infraestrutura de internet, acesso a dispositivos, redes de apoio e conhecimentos tecnológicos continuam influenciando quem consegue acessar determinados serviços e em quais condições.

A dissertação de Carla Alessandra Marques investiga as experiências tecnológicas de mulheres moradoras da Vila União, no bairro Tatuquara, em Curitiba, a partir do uso da plataforma Cadastro Online, sistema utilizado pela Prefeitura Municipal para o registro de intenção de vagas na Educação Infantil. A pesquisa analisa como o processo de digitalização dos serviços públicos se articula às desigualdades urbanas e territoriais, evidenciando os desafios enfrentados por mulheres responsáveis pelo cuidado de crianças pequenas no acesso a um direito fundamental.

Intitulada “Experiências tecno-territoriais das mulheres em Curitiba: uso da plataforma Cadastro Online na Vila União-Tatuquara”, a dissertação foi defendida este ano no Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Federal do Paraná (UFPR), sob orientação de Carolina Batista Israel, pesquisadora do Núcleo Curitiba do INCT Observatório das Metrópoles.

Foto: Arquivo Agência Brasil.

A seguir, confira a apresentação dos principais pontos do trabalho:

A que pergunta a sua pesquisa responde?

Quais as experiências tecnológicas de mulheres moradoras da periferia de Curitiba nos serviços públicos digitais, através do uso da plataforma Cadastro Online?

Por que esta pesquisa é relevante?

Pois analisa como o processo de digitalização dos serviços públicos em Curitiba, sob o viés da construção de uma cidade inteligente, não alcança de forma homogênea os diferentes territórios e pessoas. Essa compreensão auxilia a pensar a cidade inteligente não apenas no âmbito da instalação das infraestruturas, mas no uso cotidiano que as pessoas realizam dos componentes digitais, possibilitando novas abordagens na pesquisa sobre cidades e na tomada de decisões.

Qual o resumo da pesquisa?

Esta pesquisa se propõe a investigar as experiências tecnológicas de mulheres da periferia de Curitiba nos serviços públicos digitais, a partir do uso da plataforma Cadastro Online, responsável pelo registro de intenções de vaga na Educação Infantil da Prefeitura Municipal de Curitiba. Adota-se uma abordagem qualitativa, por meio de um estudo de caso que articula revisão bibliográfica, pesquisa documental em reportagens e no site oficial da Prefeitura, análise da Plataforma Cadastro Online e entrevistas semiestruturadas com mulheres responsáveis por crianças de 0 a 3 anos, visando compreender suas experiências de no uso do sistema. Com o avanço das transformações digitais no acesso aos serviços públicos, as atividades de cuidado e as práticas de acesso à educação infantil passam a ser significativamente reconfiguradas, especialmente para a população com acesso limitado a Infraestrutura tecnológica. Nesse sentido, analisa-se os conceitos e práticas da transformação digital dos serviços públicos em Curitiba, evidenciando que, sob a influência do modelo smart city, a cidade tem implementado múltiplas plataformas digitais voltadas para a gestão urbana e o acesso aos serviços públicos digitais, configurando-se como uma Cidade Plataforma. Entretanto, este processo tende a não incorporar de forma equitativa toda a população, produzindo dinâmicas de exclusão e novos regimes de alimentação tecnológica. No caso específico do Cadastro Online demonstra-se que as mulheres da Vila União vivenciam e compreendem o sistema maneiras distintas. As relações estabelecidas com a plataforma são heterogêneas, sendo condicionadas pela disponibilidade de infraestrutura, pelas relações sociais, pelas redes de solidariedade e pelas formas de mediação com as instituições públicas. Por fim, a pesquisa aponta que a digitalização do acesso à educação infantil introduziu novos obstáculo, exigindo das mulheres a construção de novos agenciamentos tecnológicos para as mulheres. Desse modo, evidenciam-se as contradições entre as práticas institucionais de cuidado e as imaginações de eficiência e melhoria associadas à gestão urbana digital.

Quais foram as conclusões?

Constatamos que existem múltiplas experiências tecnológicas no uso do Cadastro Online. Essa experiência é atravessada pela disponibilidade de infraestrutura, pelo conhecimento e uso cotidiano da Internet, pelo conhecimento do funcionamento da plataforma, aproximação com os serviços públicos e relações sociais.

Na Vila União, identificamos a presença de diferenças infraestruturais com as áreas planejadas da cidade. Entretanto, a população, a partir do improviso/gambiarra, busca produzir alternativas para a manutenção da vida cotidiana. Assim, a Internet é utilizada principalmente nas residências por meio dos provedores locais de Internet e das redes de sociabilidade/vizinhança. Tendo em vista que as mulheres possuem diferentes experiências e entendimentos da Internet, as experiências com o serviço público digital ocorrem de maneiras distintas. Essas experiências são operacionalizadas pelos agenciamentos tecnológicos, que se dão principalmente pelo intermédio das relações sociais que auxiliam no uso e no compartilhamento da rede. Outros agenciamentos incorporam os estabelecimentos institucionais, mobilizando conhecimentos antigos sobre as matrículas na Educação Infantil para acessar o Cadastro Online. Destaca-se que, no caso do Cadastro Online, o agenciamento tecnológico é coletivo, englobando conversas e trocas na comunidade, e generificado, por envolver principalmente as mulheres.

Quem deveria conhecer seus resultados?

Pesquisadores sobre tecnologia e cidades, uso de dados, soberania nacional, cidades inteligentes, planejamento urbano de Curitiba, técnicos e servidores que trabalham com políticas públicas de digitalização de serviços públicos.

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