No emaranhado dos trilhos: disputas na mobilidade em Salvador

A substituição do sistema de trens do Subúrbio Ferroviário de Salvador (BA) tem sido marcada por disputas, resistências e intensos debates sobre participação social nas políticas urbanas. Inserido em um contexto mais amplo de reconfiguração da mobilidade e de empresariamento das cidades, o processo evidencia tensões entre projetos de modernização e os modos de vida das populações diretamente afetadas.

A dissertação de Lucas Filipe Souza Coité investiga as dinâmicas da participação da sociedade civil nesse processo, analisando como diferentes atores se mobilizam para influenciar os rumos da política pública. A pesquisa examina as estratégias, repertórios de ação e interações com o Estado ao longo das diferentes fases do projeto, do monotrilho ao Veículo Leve sobre Trilhos (VLT), contribuindo para o debate sobre mobilidade e cidadania.

Intitulado “No emaranhado dos trilhos: disputas, resistências e participação social na substituição do trem do Subúrbio Ferroviário de Salvador“, o trabalho foi defendido em fevereiro de 2026, no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (PPGCS) da Universidade Federal da Bahia (UFBA), sob a orientação de Rafael de Aguiar Arantes (Núcleo Salvador).

Foto: ANP Trilhos Salvador.

A seguir, confira a apresentação dos principais pontos do trabalho:

A que pergunta a sua pesquisa responde?

De que forma os atores da sociedade civil se inseriram na construção da política de mobilidade urbana que substituiu o trem do Subúrbio Ferroviário de Salvador? Quais estratégias e repertórios foram utilizados para disputar os rumos dessa grande intervenção?

Por que esta pesquisa é relevante?

A substituição do trem é uma das maiores intervenções de mobilidade em Salvador e incide sobre territórios com altos índices de segregação e vulnerabilidade. O caso coloca em evidência as tensões entre o empresariamento urbano e as formas de cidadania ativa que reivindicam o direito à definição dos rumos da cidade. A pesquisa analisa como a articulação de múltiplas táticas de ação pode permitir à sociedade civil explorar fissuras e janelas de oportunidade para pautar políticas públicas.

Qual o resumo da pesquisa?

O sistema de trens do Subúrbio Ferroviário de Salvador funcionou por mais de 160 anos. Funcionava como a espinha dorsal de um território cuja população é majoritariamente negra e de baixa renda. Conectava gerações, modos de vida, labor e redes de sociabilidade com uma tarifa de R$ 0,50, transportando cerca de 3,4 milhões de passageiros anualmente. Até que, em fevereiro de 2021, durante a pandemia de Covid-19, teve seus serviços interrompidos para a implementação de um novo modal. A dissertação investiga as dinâmicas da participação social nesse processo, mobilizando uma metodologia que articula a análise de conteúdo de contratos, projetos, licitações, inquéritos civis e ações judiciais, somados à observação direta de audiências públicas e reuniões, bem como à realização de entrevistas com lideranças comunitárias, sindicais e de movimentos sociais. A investigação percorreu duas fases do processo. Na primeira, examinou o projeto do Monotrilho sob a gestão do ex-governador Rui Costa (PT), viabilizado por meio de uma Parceria Público-Privada com o consórcio da BYD, cujo contrato de mais de R$ 5 bilhões foi firmado em 2019 e rescindido em 2023. Na segunda fase, analisou a retomada do projeto como Veículo Leve sobre Trilhos sob a gestão do governador Jerônimo Rodrigues (PT), que adotou um regime de contratação semi-integrado para acelerar as obras que estavam paralisadas por anos.

Quais foram as conclusões?

A pesquisa demonstra que a participação social produz efeitos ambivalentes. De modo que as lideranças e movimentos conquistaram avanços materiais, como a instalação de bancadas de aço inox para o transporte de mercadorias oriundos da pesca nos veículos, compromissos de empregabilidade local e a contratação de mulheres nas obras, além de projetos de requalificação do patrimônio histórico. Contudo, a racionalidade mercantil que orienta o projeto permanece operando com a lógica de “descortinar” o potencial imobiliário e turístico do entorno, desapropriações de moradores e espoliações de modos vida. Ao longo do processo, identificou-se que as oportunidades políticas se tornaram mais permeáveis às demandas e ação coletiva. Todavia, sua internalização, além de restritiva em aspectos macroestruturais, é processada e utilizada como peça publicitária. Ainda assim, os conflitos persistem, resistem, transcendem a questão do transporte, configurando-se como uma disputa sobre a cidade. Conforme os interlocutores, o que se está em jogo também é o direito de definir, habitar, narrar e transformar uma metrópole periférica, racializada e profundamente desigual.

Quem deveria conhecer seus resultados?

Os resultados são relevantes para gestores e planejadores, especialmente os envolvidos em projetos de infraestrutura de transporte. Interessam, igualmente, a pesquisadores das áreas dos estudos urbanos, política e mobilidade. Dialoga com as comunidades do Subúrbio Ferroviário de Salvador e com movimentos sociais que disputam o direito à cidade. É também de interesse do Ministério Público, Legislativo e órgãos de controle que acompanham o processo, bem como do público interessado nas dinâmicas urbanas das metrópoles brasileiras.

Confira o trabalho completo, CLIQUE AQUI.

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