O paradoxo da globalização em revista: para reler um clássico contemporâneo

Em contribuição para o blog Novos Estudos CEBRAP, Alexandre Abdal, pesquisador do Observatório das Metrópoles Núcleo São Paulo, apresenta a sua resenha da obra The Globalization Paradox: Democracy and the Future of the World Economy do economista Dani Rodrik.

Utilizando a metáfora da “raposa” e “ouriço” para caracterizar os cientistas sociais, Abdal argumenta que Dani Rodrik é “o economista mais raposa de sua geração”, pois se atenta ao contexto e as complexidades na formulação de respostas e soluções, considerando variáveis para além da esfera econômica. Já os economistas do tipo “ouriço” são caracterizados pelo seu reducionismo e crença inabalável em “uma grande ideia” capaz de resolver todos os problemas.

Segundo Abdal, “(…) se Rodrik é um cientista social pragmático por excelência, os economistas ortodoxos, em geral, são cientistas sociais de uma nota só, moral e valorativamente comprometidos com a integração global profunda dos mercados. Mesmo que os efeitos sociais, econômicos e políticos adversos dessa hiperglobalização sejam altos demais ou que ela não gere os resultados prometidos, a resposta desses ideólogos da integração profunda a qualquer custo é sempre a mesma: mais integração, mais reformas e menos barreiras aos fluxos de capitais e de mercadorias“.

Abdadl evidencia a crítica de Rodrik sobre a integração enquanto um fim em si mesmo – o autor não é contrário à integração, porém argumenta que esta seria “uma alternativa de estratégia de desenvolvimento, cujas formas e intensidades de adoção podem variar setorial e espaço-temporalmente; mas que, sobretudo, dependem de processos decisórios autônomos e democráticos e das capacidades nacionais de construção de estratégias de desenvolvimento de mais longo prazo“.

Confira a resenha completa abaixo:

Por Alexandre Abdal¹

Dani Rodrik é, certamente, o economista mais raposa de sua geração. Bebendo da diferenciação entre “raposas” e “ouriços” que Isaiah Berlin (1953) faz, Rodrik caracteriza o economista raposa como um cientista social pragmático, que considera o mundo a sua volta em toda a sua complexidade. Sabedor de muitas coisas e atento ao contexto, esse cientista social pragmático busca respostas e soluções para os problemas sociais e econômicos considerando todas as variáveis, inclusive as contextuais e as não econômicas. Por isso, a cada tempo e lugar, são diferentes as políticas que endereçam problemas públicos semelhantes.

Em oposição ao economista raposa, há o economista ouriço. Cientista social de uma nota só, tal qual o samba de Tom Jobim e Newton Mendonça, esse segundo tipo de economista é detentor de “uma grande ideia” e acredita poder resolver todos os problemas econômicos e sociais a partir da tal grande ideia. Para ele, o mundo social é reduzível a essa sua grande ideia e, se os problemas não foram resolvidos, é, provavelmente, porque a sua grande ideia não foi bem implementada ou foi implementada de forma insuficiente. Parafraseando Max Weber (1999), o cientista social pragmático tem a sua ação orientada por racionalidade com respeito a fins (um problema de pesquisa, um problema público), enquanto o cientista social de uma nota só tem a sua ação orientada por racionalidade com respeito a valores (uma visão de mundo).

Pois bem, se Rodrik é um cientista social pragmático por excelência, os economistas ortodoxos, em geral, são cientistas sociais de uma nota só, moral e valorativamente comprometidos com a integração global profunda dos mercados. Mesmo que os efeitos sociais, econômicos e políticos adversos dessa hiperglobalização sejam altos demais ou que ela não gere os resultados prometidos, a resposta desses ideólogos da integração profunda a qualquer custo é sempre a mesma: mais integração, mais reformas e menos barreiras aos fluxos de capitais e de mercadorias.

Esse é o fundamento da principal lição que Rodrik nos dá, em The Globalization Paradox: Democracy and the Future of the World Economy [O paradoxo da globalização: democracia e o futuro da economia mundial], infelizmente, ainda sem tradução para o português. Publicado em 2011, poucos anos após a crise financeira de 2008 que abalou os EUA e atingiu toda a economia mundial, o livro oferece uma rica e atual reflexão, sob a perspectiva pragmática da raposa, a respeito dos dilemas e possibilidades da economia global.

Para Rodrik, o principal erro dos ideólogos da integração profunda – por ele chamada de hiperglobalização e que dobra países inteiros, com seus Estados, governos e populações aos desígnios dos livres fluxos comerciais e financeiros – é uma inversão entre meios e fins. Na perspectiva ideólogo-obsessiva do ouriço, a integração torna-se um fim em si mesmo, irresistível e desejável. Quem discorda é, no mínimo, ignorante ou ingênuo, desconhecedor dos verdadeiros princípios da ciência econômica.

Deve-se atentar, entretanto, que Rodrik não é contrário à integração, desde que não seja tomada como um fim em si mesmo e que as suas consequências econômicas e não econômicas sejam postas na balança. Mais correto seria tomar a integração como uma alternativa de estratégia de desenvolvimento, cujas formas e intensidades de adoção podem variar setorial e espaço-temporalmente; mas que, sobretudo, dependem de processos decisórios autônomos e democráticos e das capacidades nacionais de construção de estratégias de desenvolvimento de mais longo prazo.

Bom, mas qual é o problema para Rodrik com as integrações comercial e financeira profundas? Pontuo as três instâncias basilares.

Em primeiro lugar e focando mais a dimensão comercial, Rodrik afirma que toda e qualquer liberalização comercial (livre trânsito de mercadorias) traz consequências distributivas, portanto, potencial de tensão social e, no limite, de deslegitimação da própria liberalização. Isso porque, como em qualquer política pública, uma política de abertura comercial implica ganhadores e perdedores. Agora, se pode ser socialmente legítimo impor derrotas a camadas empresariais protecionistas que gozam privilégios de sua posição em mercados excessivamente fechados, é muito provável que seja socialmente problemático impor perdas a pelo menos dois importantes grupos sociais: trabalhadores, cujos empregos e padrões trabalhistas estão cada vez mais pressionados pelos imperativos da competitividade, e empreendedores em indústrias nascentes e/ou de base tecnológica, cujos primeiros passos dependem de políticas públicas específicas e de algum tipo de proteção.

Em segundo lugar e focando a dimensão das finanças, Rodrik aponta que a liberalização financeira é fonte, por excelência, de instabilidade econômica, a qual também pode gerar tensões sociopolíticas. A partir de uma diferenciação entre fluxos de longo prazo de capitais produtivos e fluxos de curto prazo de capitais não produtivos, países que implementaram liberalizações financeiras profundas ficaram, além de dependentes da entrada de capitais externos para o equilíbrio de suas contas correntes, à mercê desses fluxos. Como as crises dos anos 1990 e 2000 (russa, mexicana, asiática, argentina etc.) demonstraram, a qualquer momento uma crise de confiança pode deixar tanto uma economia inteira à beira da bancarrota como as suas populações vulneráveis.

Por fim, Rodrik identifica uma tensão profunda entre hiperglobalização e democracia nacional, em uma formulação que ficou conhecida como o trilema da globalização. Ideia básica é que não se pode ter, ao mesmo tempo, integração profunda, democracia política e soberania nacional, mas só dois desses termos. Resultado: quanto mais as decisões políticas de integração profundas forem ancoradas em uma narrativa da globalização como irreversível e desejável, com o espaço decisório correspondente sendo tecnocraticamente insulado dos espaços decisórios democráticos (eleições, câmaras de representantes, conselhos etc.), mais essa hiperglobalização se fará à custa da democracia política e/ou da soberania nacional.

Então, para Rodrik, o que pode ser feito? Ora, não nos resta alternativa viável a não ser a moderação democrática da integração profunda. Só assim efeitos econômicos, sociais e politicamente adversos da globalização poderiam ser contrabalanceados. Isso passa por, em âmbito global, construir espaço político para os vários países se integrarem nos seus próprios termos e a partir de suas próprias estratégias de desenvolvimento, e, em âmbito nacional, deslocar as decisões das políticas de desenvolvimento para o escrutínio do processo democrático.

Qual o risco de não fazer isso? Em certa medida, aquilo a que estamos assistindo nos nove anos que nos separam da publicação do livro (e que, trágica e inversamente, tornam a sua leitura ainda mais instigante): moderação da integração profunda e da democracia política em protodesenvolvimentismo autoritário e conservador em países ricos como os EUA e o Reino Unido vis-à-vis a afirmação da integração profunda mediante neoliberalismo também autoritário e conservador em países em desenvolvimento, dentre os quais, o Brasil desponta como vanguarda.

Referências bibliográficas:
Berlin, Isaiah. The Hedgedog and the Fox: An Essay on Tolstoy’s View of History. Nova York: Simon & Schuster, 1953.
Weber, Max. “Conceitos sociológicos fundamentais: poder, dominação”. In: Economia e Sociedade, v. 1. Brasília: UnB, 1999.

Agradeço ao meu amigo, e supervisor, Alvaro Comin pela sugestão de leitura.

¹ Alexandre Abdal é sociólogo e professor do Departamento de Gestão Pública (GEP) da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (FGV EAESP), pesquisador do Cebrap, instituição em que faz pós-doutorado no International Posdoctoral Program (IPP), e pesquisador da rede de pesquisa INCT Observatório das Metrópoles: núcleo São Paulo.

 

 

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