As organizações criminosas deixaram de atuar apenas em mercados ilícitos e passaram a desempenhar um papel cada vez mais relevante na produção do espaço urbano nas periferias brasileiras. Essa foi a principal reflexão apresentada pelo geógrafo Thiago Canettieri, coordenador do Núcleo Belo Horizonte do INCT Observatório das Metrópoles e professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), durante a palestra “Organizações criminosas na urbanização periférica no Brasil”, realizada no dia 09 de julho pelo Instituto Humanitas Unisinos (IHU) e transmitida pelo YouTube.
Ao longo da exposição, Canettieri apresentou resultados e hipóteses desenvolvidas em pesquisa recente publicada na revista Cadernos Metrópole, em coautoria com a pesquisadora Priscila Coli. O estudo analisa a relação entre urbanização periférica e atuação de grupos criminosos em três grandes metrópoles brasileiras (São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte) e propõe novas chaves de interpretação para compreender como esses agentes influenciam a produção das cidades.
Segundo o pesquisador, a presença dessas organizações deve ser analisada para além das atividades relacionadas ao tráfico de drogas ou à violência armada. A pesquisa sustenta que facções e milícias participam ativamente da organização dos mercados imobiliários informais, influenciando processos de expansão urbana, ocupação do território, circulação de recursos e acesso à moradia.

Durante a palestra, Canettieri destacou que a urbanização periférica brasileira se desenvolve em um contexto marcado por desigualdades históricas, precariedade habitacional e limitações de acesso ao mercado formal de moradia. Nesse cenário, grupos criminosos encontram condições favoráveis para consolidar formas próprias de regulação territorial e econômica, articulando mercados ilícitos, redes de proteção e atividades imobiliárias.
Ao analisar casos das três metrópoles estudadas, os pesquisadores argumentam que a atuação desses grupos varia conforme os contextos locais. Em São Paulo, o protagonismo do Primeiro Comando da Capital (PCC) aparece associado à regulação de ocupações e negócios imobiliários nas franjas urbanas. No Rio de Janeiro, milícias e facções exercem influência sobre loteamentos, empreendimentos habitacionais, serviços urbanos e mercados fundiários. Já em Belo Horizonte, onde predominam organizações mais fragmentadas, há evidências da participação de grupos ligados ao tráfico na apropriação de terrenos, na mediação de transações imobiliárias e na disputa pelo controle territorial.
Um dos argumentos centrais do trabalho é que as organizações criminosas devem ser reconhecidas como agentes relevantes da urbanização periférica contemporânea. Para os autores, compreender sua atuação permite ampliar o entendimento sobre os processos de produção do espaço urbano, contribuindo tanto para o campo dos estudos urbanos quanto para a formulação de políticas públicas voltadas às periferias metropolitanas.
Promovida pelo Instituto Humanitas Unisinos (IHU), a palestra está disponível no YouTube: