Professores e escola: uma outra cidade é possível

Em artigo para o site Justificando, Gilson Jacob Bergoc, membro do BrCidades, fala sobre o Plano Diretor de Londrina (2005-2006) que introduziu no contexto pedagógico escolar a criação da cultura de planejamento e gestão participativa, incentivando a construção permanente de conhecimentos sobre a cidade e seu processo de decisão, considerando a realidade urbana e rural, no contexto ambiental, lançando bases para o exercício da cidadania.

Para Bergoz, é necessário resgatar essas iniciativas para se contrapor aos tempos sombrios que vivemos. “Tentam impor a ideia de que as escolas precisam trabalhar apenas com conteúdos “básicos”: matemática, português e ciências, de forma genérica. Entretanto a complexidade da sociedade que vivemos nos desafia a ter conhecimentos cada vez mais amplos e desenvolver habilidades adequadas para utilizar em diferentes momentos de nossa vida“.

Imagem: ABr / Agência Brasil – Arte: Gabriel Pedroza / Justificando
Professores e escola: uma outra cidade é possível

Gilson Jacob Bergoc¹

Ao estruturar o processo participativo de discussão do Plano Diretor de Londrina em 2005-2006, pensou-se em introduzir um elemento que pudesse iniciar a percepção dos cidadãos sobre a cidade desde a formação fundamental.

A metodologia proposta pelo “Plano diretor participativo: guia para elaboração pelos municípios e cidadãos” propunha a ampla discussão em todo o território municipal, considerando uma “leitura técnica” e outra “comunitária”, ficando sempre subentendido que a comunidade é formada por adultos. Ora, as crianças e jovens também usufruem da cidade, mas nunca são lembrados no processo de envolvimento com sua construção. No entanto, são elas que mais vivenciarão as cidades no futuro. Por que não convidá-las a reconhecer e participar do seu território no entorno das suas escolas e de suas casas, a identificar os problemas e iniciar o desenvolvimento da cidadania a partir desse referencial?

Ao pensar nisso, um primeiro problema se colocou: como fazer isso com uma equipe tão reduzida até para conduzir o processo geral? A alternativa pensada a de envolver os professores das escolas públicas municipais e estaduais para inserir o tema em disciplinas, articulando os diversos saberes e abrindo uma possibilidade de relacionar os estudos “teóricos” com aspectos práticos da vivencia das crianças e adolescentes. Para que isso pudesse ocorrer buscou-se conversar com a Secretária Municipal da Educação e o Chefe da Regional de Ensino do Estado, que de pronto acataram a ideia.

Com esse apoio foi chamada uma reunião com as Diretoras/es, Supervisoras/es e Pedagogas/os das escolas para apresentar a proposta e definir a forma de encaminhamento. Os Diretores/as das escolas particulares ficaram sabendo dessa proposta e entraram em contato, por meio do Sindicato Patronal, pedindo para participar do projeto, o que foi prontamente aceito. Sendo assim, todas as escolas, públicas e particulares de Londrina, se envolveram no processo, mobilizando alunos e professores de várias áreas para pensarem a cidade. O desafio colocado foi o de identificar os problemas existentes: a cidade que temos, para pensar as soluções, e a cidade que queremos.

O objetivo perseguido foi o de introduzir no contexto pedagógico escolar a criação da cultura de planejamento e gestão participativa, incentivando a construção permanente de conhecimentos sobre a cidade e seu processo de decisão, considerando a realidade urbana e rural, no contexto ambiental, lançando bases para o exercício da cidadania.

Nas discussões com os professores de várias disciplinas e de escolas situadas nas várias regiões do município foram sugeridas várias atividades: professores de português poderiam propor atividades de análise de reportagens de jornais, programas de rádio e TV sobre os problemas e sobre o que ocorrem cotidianamente na cidade. A partir dessas análises, a ideia era trabalhar a produção de textos, poesias, charges e histórias em quadrinho sobre a cidade, o rio da minha rua, do meu bairro, da minha escola, lugares que gosto – ou não gosto – e sobre plano diretor e estatuto da cidade, respeitando os níveis de conhecimento de cada turma.

Na matemática poderiam ser trabalhadas as distâncias entre a casa e a escola, ou até o centro da cidade, pontos de referência urbanas ou rurais que os alunos/as elegessem como importantes. A partir dessas medidas, calcular áreas ou outros tipos de referências que possibilitassem exercitar as diferentes operações. Também poderiam contar o número de casas, prédios e estimar a quantidade de moradores, para então calcular as densidades da quadra onde mora, das quadras nos arredores da escola, etc. A contagem de carros, ônibus, bicicletas e outros veículos, quantidade de passageiros que cada um transportava, para desenvolverem a noção do espaço que cada veículo ocupa e a quantidade de gente que transporta. Com esses dados poderiam fazer gráficos, tabelas, porcentagens e outras operações, sempre respeitando o nível de formação em curso.

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¹ Docente de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Estadual de Londrina e membro do BrCidades.

 

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