Projeto de pesquisadora do Núcleo Belo Horizonte amplia cooperação científica na América Latina

O projeto “Desenvolvimento de Alta Qualidade no Sul Global: Plataforma Latino-Americana de Inteligência Territorial para o Planejamento Urbano e Regional”, coordenado pela pesquisadora do Núcleo Belo Horizonte do INCT Observatório das Metrópoles, Natacha Silva Araújo Rena, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), foi uma das propostas contempladas na Chamada Pública MCTI/CNPq nº 02/2026, conhecida como Edital Pepe Mujica, na Faixa A, destinada a Redes Temáticas de Pesquisa Consolidadas. A proposta articula pesquisadores(as) e instituições do Brasil, Argentina, Equador e Colômbia e estabelece diálogo direto com pesquisas desenvolvidas no âmbito do INCT Observatório das Metrópoles.

Para Luiz Cesar de Queiroz Ribeiro, coordenador nacional do Observatório, o resultado representa uma conquista importante para a rede. “Este projeto foi submetido ao Edital Mujica e acaba de ser vencedor. Foi uma grande vitória para o nosso INCT”, afirmou. No projeto aprovado, Ribeiro integra a equipe de colaboradores, representando o Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IPPUR/UFRJ).

A proposta tem como objetivo desenvolver e validar um protótipo de plataforma sul-americana de inteligência territorial, reunindo sistemas geoespaciais, métodos computacionais de análise territorial, inteligência artificial e ferramentas de transformação digital. O projeto prevê quatro cidades-piloto: Belo Horizonte, Buenos Aires, Bogotá e Quito, nas quais serão desenvolvidos diagnósticos, indicadores e subsídios técnicos para políticas públicas orientadas pelo conceito de Desenvolvimento de Alta Qualidade.

Além da construção de uma infraestrutura interoperável de dados espaciais, a pesquisa prevê a criação de indicadores territoriais adaptados à realidade sul-americana, o desenvolvimento experimental de modelos computacionais e agentes assistidos por inteligência artificial e a consolidação de uma rede de cooperação científico-tecnológica. Workshops, seminários internacionais, mobilidade acadêmica e produção científica conjunta também fazem parte das atividades previstas.

Da cooperação Brasil-China à articulação latino-americana

A aprovação dá continuidade e amplia uma agenda já desenvolvida pelo Observatório. O novo projeto dialoga diretamente com “Urbanismo de Projetamento: estratégias para o Desenvolvimento de Alta Qualidade (desde e para) o Sul Global”, pesquisa do INCT que articula temas como planejamento urbano e regional, desenvolvimento nacional, integração regional, infraestrutura físico-digital, transição ecológica e Desenvolvimento de Alta Qualidade.

Segundo Natacha Rena, o trabalho desenvolvido no âmbito do Observatório partiu, entre outras frentes, da investigação sobre a experiência chinesa e suas possíveis contribuições para compreender as relações entre planejamento territorial e desenvolvimento econômico.

“Nós, do Grupo de Pesquisa Geopolítica e Planejamento Territorial (GeoPT), fomos convidados para criar uma pesquisa para comparar o mercado imobiliário chinês com o brasileiro. Criamos o projeto incluindo pesquisas de nossos orientandos no Brasil e pesquisadores de diversas universidades chinesas, para tentarmos entender como a China gerou sua principal plataforma de desenvolvimento econômico a partir de uma ocupação extensiva de seus territórios com grandes projetos urbanos e de infraestrutura”, explica a pesquisadora.

O projeto apresentado ao Edital Pepe Mujica acrescenta uma dimensão latino-americana a essa trajetória. A proposta reúne a UFMG e instituições da Argentina, Equador e Colômbia, entre elas a Universidad Central del Ecuador, Universidad Regional Amazónica Ikiam, Universidad Nacional de Avellaneda, Universidad de Buenos Aires e Universidad de Los Andes. O documento do projeto destaca que parte dessas cooperações resulta de relações acadêmicas construídas anteriormente, por meio de pesquisas conjuntas, publicações, intercâmbios e eventos científicos.

“Logo em seguida ao início de nossa pesquisa junto ao Observatório, nossa equipe do GeoPT entrou no edital do CNPq Pepe Mujica junto de antigos parceiros pesquisadores, com quem trabalhamos há mais de 13 anos, e fomos aprovados. Estamos muito felizes porque agora poderemos unir a pesquisa que já estava sendo desenvolvida com esse novo projeto, que amplia a nossa investigação territorial”, comemora Natacha Rena.

A pesquisadora ressalta que a articulação com os países latino-americanos é, portanto, um passo de ampliação de uma cooperação científica que já vinha sendo construída. “Agora teremos Argentina, Equador e Colômbia junto conosco oficialmente”, destacou ao comunicar a aprovação.

Inteligência territorial e políticas públicas

A dimensão tecnológica é um dos principais eixos da proposta vencedora. A plataforma deverá integrar dados sobre diferentes realidades urbanas e permitir análises comparativas. O trabalho inclui a coleta e padronização de bases de dados espaciais, a implementação de uma Infraestrutura de Dados Espaciais e a construção de indicadores territoriais. Ferramentas computacionais e recursos de inteligência artificial serão empregados como apoio à identificação e interpretação de padrões nas cidades estudadas.

A perspectiva é produzir instrumentos que contribuam para a formulação de políticas públicas e, ao mesmo tempo, fortalecer a autonomia científica e tecnológica na América Latina. Segundo o projeto, a cooperação Sul-Sul busca promover soluções territorialmente contextualizadas e construir referenciais próprios para cidades inteligentes, transformação digital e desenvolvimento sustentável.

O projeto também toma como referência o conceito de “Desenvolvimento de Alta Qualidade”, associado à experiência chinesa e reinterpretado criticamente a partir das especificidades latino-americanas, articulando inovação, sustentabilidade e qualidade de vida. Nesse percurso, Natacha destaca a experiência acumulada na cooperação com pesquisadores e instituições chinesas. “Como realizei meu pós-doutorado em Wuhan e a UFMG tem a HUST como parceira oficial por meio do Instituto Confúcio, também me tornei professora visitante e tenho diversos projetos em desenvolvimento com eles”, relata.