A reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) representa um fortalecimento da democracia brasileira, na avaliação do INCT Observatório das Metrópoles. Para Luiz Cesar de Queiroz Ribeiro, coordenador nacional da rede, o resultado eleitoral possui forte significado histórico e demonstra a capacidade de mobilização da sociedade brasileira diante do que estava em disputa.
“O que vivemos nesta eleição contém uma densidade histórica muito grande. Expressa a elevação da capacidade do povo brasileiro em entender com clareza o que estava em jogo: o destino do Brasil como nação democrática, soberana e próspera. Esta capacidade já tinha se revelado em outros episódios históricos igualmente densos, como foram as grandes mobilizações em defesa das eleições diretas e pelo impeachment de Collor.
Mas, desta vez, foi necessária uma capacidade elevada, porque, ao lado da extrema direita, se reuniram poderosas forças: o imperialismo americano e seu poder de intervir em eleições para impedir que forças progressistas e nacionais ganhem eleições, como vimos no Peru e na Colômbia; as big techs e o seu avassalador poder de controlar as nossas comunicações; os grandes financistas da Faria Lima e a força da grana a serviço dos seus interesses especulativos; grandes empresas da mídia corporativa; os grandes capitalistas expropriadores das bets; o grande empresariado do comércio e dos serviços contrário ao fim da escala 6×1, entre outras grandes frações da nossa burguesia antinacional. A Elite do Atraso, como chamou Jessé de Souza.
A reeleição de Lula é, sem dúvida, uma grande vitória do povo brasileiro, que, com a sua energia, criatividade e mobilização, conseguiu derrotar estas forças. Ganhamos uma batalha e devemos comemorar, confraternizar com muita força. Mas a guerra contra estas forças reacionárias e antinacionais nos convocará para novas batalhas a serem travadas para viabilizar o quarto mandato do maior líder da nossa história: Luiz Inácio Lula da Silva”, salientou Ribeiro em depoimento.
Análise da disputa política nas ruas e nas redes digitais
Em entrevista à TV Câmara após a divulgação do resultado do segundo turno, Thiago Trindade, coordenador do Núcleo Brasília do INCT Observatório das Metrópoles e professor do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília (UnB), analisou a participação do eleitorado, a disputa política nas ruas e nas redes digitais e os desafios que deverão marcar o próximo mandato presidencial.
Lula foi reeleito neste domingo, dia 25, com 51,79% dos votos válidos no segundo turno, contra 48,21% do senador Flávio Bolsonaro (PL), segundo informações da Agência Câmara de Notícias. O presidente recebeu 64.256.232 votos e conquistou um inédito quarto mandato. A diferença entre os candidatos ultrapassou 4,4 milhões de votos.
Para Trindade, a análise da eleição vai além do resultado das urnas. O processo eleitoral revelou maior mobilização da sociedade, com a retomada da participação política nas ruas durante o segundo turno e uma presença mais intensa da esquerda no ambiente digital. “Eu diria que o Brasil que sai das urnas é um Brasil com a democracia fortalecida”, apontou.
Na avaliação do pesquisador, a campanha do segundo turno apresentou elementos inesperados. Entre eles, a mobilização nas ruas de uma parcela expressiva da população e a entrada mais efetiva de setores da esquerda na disputa política no ambiente digital, espaço em que a extrema direita vinha apresentando forte desempenho.
Participação eleitoral fortalece a democracia
Um dos principais aspectos destacados por Trindade foi a redução da abstenção. Segundo os dados divulgados pela Agência Câmara de Notícias, 19,22% dos eleitores aptos deixaram de votar no segundo turno, percentual próximo ao registrado em 2006.
Na avaliação do coordenador do Núcleo Brasília, o comparecimento às urnas e a redução da abstenção demonstram maior disposição da população para participar do processo político. “Os eleitores e as eleitoras, eles de fato optaram. Eles foram às urnas, eles se mobilizaram”, ressaltou.
Trindade lembrou que essa mobilização ocorreu mesmo diante de dificuldades enfrentadas por parte do eleitorado, relacionadas, entre outros fatores, às condições climáticas e ao transporte coletivo. “O eleitorado certamente mandou um recado de que ele está mais consciente, mais politizado, mais informado e mais disposto a ir votar. Quanto mais pessoas vão às urnas, mais fortalecida sai a democracia”, observou.
Questionamentos ao resultado eleitoral
Durante a entrevista, o pesquisador também analisou possíveis contestações relacionadas à decisão do ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF), que permitiu que parte das urnas permanecesse aberta até as 19 horas diante de dificuldades registradas ao longo do dia de votação.
Para Trindade, a extensão do horário não oferece elementos suficientes para colocar em dúvida o resultado eleitoral. Em sua análise, a diferença superior a quatro milhões de votos entre os candidatos afasta a possibilidade de que os votos registrados durante o período adicional tenham alterado o resultado. “O meu entendimento, enquanto cientista político, é que é completamente insustentável colocar em xeque o resultado”, pontuou.
O pesquisador também situou as contestações eleitorais em um cenário político mais amplo, chamando a atenção para o questionamento dos resultados e dos sistemas eleitorais por movimentos de extrema direita em diferentes países.
Novo mandato terá cenário político desafiador
Apesar da avaliação positiva sobre a participação eleitoral, Trindade ressaltou que Lula deverá enfrentar uma correlação de forças complexa durante o novo mandato. O cientista político destacou o crescimento da direita e da extrema direita no Congresso Nacional, especialmente no Senado, além da presença de governos estaduais que deverão atuar na oposição ao Executivo federal.
“É claro que o presidente Lula vai enfrentar um cenário muito desafiador, porque a direita, a extrema direita, cresceu, do ponto de vista não só do Congresso, não só na composição parlamentar, especialmente no Senado”, mencionou.
Para Trindade, entretanto, a convivência entre forças políticas distintas no Executivo, no Legislativo e nos governos estaduais não representa, por si só, um problema. A divisão e o equilíbrio entre os poderes fazem parte da própria dinâmica democrática. “A divisão de poderes é um dado natural da democracia e é importante que exista esse equilíbrio”, lembrou.
Nesse contexto, o pesquisador avalia que a presidência poderá funcionar como contraponto à nova composição do Congresso Nacional, especialmente do Senado. Mais importante, segundo Trindade, é que as diferentes forças políticas e instituições reconheçam a decisão tomada pela população por meio do voto. “A sociedade brasileira foi às urnas, a vontade popular foi expressada, ela tem que ser respeitada por todos os atores políticos, por todos os atores institucionais”, disse o pesquisador.
Ao final da entrevista, Trindade destacou que o respeito ao resultado das urnas deve orientar o período após a disputa eleitoral e a relação entre governo, oposição e instituições. “A democracia é assim, a gente disputa a eleição, quem ganha assume o poder, quem perde se prepara para disputar as próximas eleições e a vida segue para a gente pensar no melhor para o nosso país”, concluiu.
A entrevista com Thiago Trindade está disponível no canal da TV Câmara no YouTube, localizada entre 29min52 e 39min42.
*Com informações da Agência Câmara de Notícias.
