Está disponível o dossiê “Censos demográficos: resultados e desafios no seu uso para análise do urbano”, publicado pela Revista Cadernos Metrópole (Qualis/CAPES A1), que evidencia, através dos artigos publicados, as possibilidades que os censos demográficos apresentam para a pesquisa urbana.
O dossiê foi organizado por Suzana Pasternak, professora da Universidade de São Paulo, e Luis Felipe Aires Magalhaes, professor da Universidade Estadual de Campinas, ambos pesquisadores do Núcleo São Paulo do INCT Observatório das Metrópoles.
Os organizadores destacam que o censo é o único instrumento que coleta informações sobre municípios de todo o país e com periodicidade conhecida, em geral decenal.
Historicamente, os censos têm sido a principal fonte de dados para a pesquisa urbana, tanto no Brasil como em outros países. Eles apontam as transformações da estrutura regional e urbana, descrevem os atributos populacionais e de moradia, vetores da redistribuição populacional da população, crescimentos dos municípios, etc.
Para a organização do dossiê, os textos recebidos foram agrupados em quatro categorias: artigos mais gerais sobre o País como um todo; artigos que problematizam a forma de coleta dos censos; artigos que mostram possibilidades novas de análise dos dados censitários; e, por fim, mas não menos importantes, artigos que utilizam dados censitários para análise específicas, tanto de variáveis definidas como de locais escolhidos.
A seguir, apresentamos os onze artigos selecionados no âmbito do dossiê temático e os sete textos adicionais que completam o número:

O primeiro texto, Evidências da metropolização brasileira captadas no Censo 2022, de Rosa Moura, utilizando dados censitários de 2022, mostra que houve redução nas taxas de crescimento das metrópoles, com alguns casos inclusive com perdas populacionais. Mas, como ela salienta, mesmo taxas mais reduzidas, em grandes bases populacionais como as metropolitanas, resultam em acréscimo de população significativo.
O texto de João Victor Rocha de Queiroz, Jordana Cristina de Jesus e Ricardo Ojima, A transição demográfica no Brasil e o fundo de participação dos municípios, coloca outra variável a enfatizar no cenário demográfico: as mudanças na estrutura etária dos municípios. Estudos sobre transição demográfica tratam do processo histórico em que uma população jovem com altas taxas de fecundidade e de mortalidade se transforma numa população envelhecida, com baixas taxas de fecundidade e mortalidade.
No artigo Universalização do acesso à água tratada: desafios dos dados censitários como informação, as autoras Andreza Garcia de Gouveia, Ana Lucia Nogueira de Paiva Britto e Rosa Maria Formiga-Johnsson apontam que a Lei Federal n. 14.026/20 estabeleceu como meta a universalização de água a todos os brasileiros até 2030. As informações do Censo Demográfico são, portanto, essenciais para o planejamento de políticas públicas ao fornecem dados comparáveis para todos os domicílios brasileiros. No entanto, a partir de pesquisa documental e de entrevistas de campo, evidenciou-se que, apesar dos avanços sobre as formas de abastecimento domiciliar, os dados censitários ainda são insuficientes para caracterizar adequadamente o acesso à água.
Outro texto que explora os desafios do uso de dados censitários e como ele pode ocultar disparidades sociais e espaciais é o de Gustavo Henrique Campos de Faria, Dados agregados, realidades ocultas: desafios na análise de ambientes obesogênicos. Usando um modelo computacional no ArcGIS, o estudo investiga a obesogenicidade em um bairro em Belo Horizonte, demonstrando como técnicas geoespaciais podem revelar padrões encobertos pela estatística convencional. Os resultados apontam a necessidade de abordagens mais detalhada se a pesquisa foi realizada para compreender as dinâmicas urbanas relacionadas à saúde pública.

Em Os cortiços do centro de São Paulo: uma análise à luz dos dados censitários recentes, Ana Gabriela Akaishi e Luiz Kohara abordam a problemática dos cortiços no centro de São Paulo. A análise, fundamentada nos dados dos Censos de 2010 e 2022, investiga a dinâmica atual dos cortiços existentes, constatando sua permanência nas áreas tradicionalmente encortiçadas, como Brás, Luz, Glicério, Bexiga e Barra Funda. Nota que a atuação do mercado imobiliário residencial no centro, sobretudo a partir de 2013, relaciona-se com a redução de cortiços em regiões onde mais atua, como República, Consolação, Barra Funda e Mooca.
O artigo de Fabio de Oliveira Neves e Danilo Leonardo de Paula Rosa, Parques urbanos e reconfiguração socioespacial: uma leitura a partir dos dados dos censos demográficos, investiga as alterações territoriais associadas à implantação do Parque do Povo, com base na análise comparativa dos Censos Demográficos de 2010 e 2022. Utilizando cinco indicadores censitários via SIGs, a pesquisa identifica padrões recentes de ocupação urbana, como aumento do padrão construtivo, baixa densidade habitacional e elevada proporção de domicílios desocupados.
O texto de Victor Borrás Ramos, Segregación residencial de clase em Montevideo: una aproximación da partir de datos censales, estuda a segregação residencial por classe na capital uruguaia utilizando dados censitários de 1996 e 2011. A pesquisa identifica classe social a partir de duas variáveis: tipo de ocupação e categoria ocupacional. Para mensurar a segregação, o artigo utiliza o índice de Moran. A chamada classe média alta localiza-se na costa sul e sudeste metropolitano, enquanto a classe trabalhadora se concentra em zonas periféricas e eixos metropolitanos não costeiros.
Já o artigo de Ana Paula Vasconcelos Gonçalves e Julia Celia Mercedes Strauch, Segregação racial em Belo Horizonte: o que mudou em mais de uma década?, analisa as dinâmicas espaciais da segregação residencial em Belo Horizonte entre 2010 e 2022, utilizando dados dos Censos Demográficos. O trabalho desenvolve três índices de segregação: Índice de Segregação (ISS), Índice de Concentração Absoluta (ACO) e Índice de Agrupamento Absoluto (ALC). Os resultados indicam que a população negra se localiza em locais mais afastados do centro e mais concentrados nas franjas urbanas.
Ainda sobre a capital mineira, mas com foco na Região Metropolitana, o texto de Thiago Machado Lage Moreira, Migração e estrutura populacional na Região Metropolitana de Belo Horizonte em 1991-2010, analisa as implicações das migrações sobre a estrutura populacional entre 1991 e 2020. Através de informações dos censos demográficos de 2000 e 2010, o autor estimou as migrações dos municípios dessa região metropolitana e fez uma breve explanação sobre o que sugerem os dados disponíveis para 2022.
O artigo seguinte, de Priscila Kauana Barelli Forcel, Elza Luli Miyasaka e Tiago Augusto da Cunha, Déficit habitacional e microdados censitários: fluxo metodológico, desafios e perspectivas, discute o fluxo metodológico do cálculo do déficit habitacional a partir dos microdados do Censo Demográfico com base na metodologia da Fundação João Pinheiro. O artigo apresenta a evolução histórica da metodologia e sua aplicação no software SPSS, com base nos microdados do Censo de 2010, e discute a possibilidade de replicar a metodologia da FJP com a liberação dos microdados do Censo de 2022.
O último texto, de Michel Misse Filho, Desigualdades raciais no acesso a esgotamento sanitário em regiões metropolitanas brasileiras, observa que, apesar da evolução no esgotamento sanitário entre 2000 e 2022, padrões diferentes encontram-se nas distintas regiões metropolitanas e, dentro do tecido urbano de cada uma delas, notáveis diferenças na distribuição racial e na qualidade da infraestrutura sanitária.

Na sequência, este dossiê apresenta um conjunto de textos sobre temas variados das metrópoles contemporâneas, contemplando distintos aspectos dos estudos urbanos.
Inaugura essa seção o artigo Planejamento insurgente e ação coletiva: o caso do Poço da Draga em Fortaleza, de autoria de Amanda Máximo Alexandrino Nogueira e Clarissa Figueiredo Sampaio Freitas, que analisa as práticas insurgentes construídas por moradores da comunidade Poço da Draga, na capital cearense, em um contexto de disputas pelo poder de decisão na comunidade. As autoras apontam a atuação de mecanismos institucionais, implementados por órgãos de planejamento do Estado, na satisfação de interesses privados e não coletivos na região.
O segundo artigo intitula-se Agroecologia e ambientalização de lutas na Região Metropolitana do Rio de Janeiro. As autoras, Annelise Caetano Fraga Fernandez, Silvia Regina Nunes Baptista e Caren Freitas de Lima, partem da constatação da concentração dos conflitos urbanos fluminenses especificamente na Região Metropolitana do Rio de Janeiro para analisar a atuação dos movimentos de agroecologia na ambientalização das lutas sociais relacionadas à disputa territorial e pela terra, as quais apontam, segundo as autoras, para novas formas de produção do espaço urbano e novas dimensões de acesso e conquista do direito à cidade.
Na sequência, o artigo Gestão comunitária da terra como resistência às milícias no Rio de Janeiro, de autoria de Utanaan Reis Barbosa Filho e Felipe Litsek, analisa o avanço das milícias em contexto urbano-imobiliário na Região Metropolitana do Rio de Janeiro. Constitui aspecto particularmente importante do artigo a realização de uma interpretação histórica da evolução das milícias na região, permitindo-nos compreender as causas e as condições da situação vivenciada atualmente na cidade.
O quarto artigo dessa seção analisa a disputa espacial, suas regras e lógicas particulares, no mercado do sexo nas ruas de Montevidéu. Intitulado Sexo en las calles de Montevideo: espacios disputados, reglas e ilegalismos, o artigo de Martín Boy analisa as tensões existentes entre moradores e moradoras do bairro, funcionários públicos e pessoas trans trabalhadoras do sexo e suas repercussões do ponto de vista da produção social do espaço urbano.
A seguir, o artigo Governando pelo fracasso: militarização e policialização no Rio de Janeiro, da autora Clara Polycarpo, permite compreender mais profundamente o processo de vigilância e de controle territorial exercido por forças policiais na cidade do Rio de Janeiro no período entre 2001 e 2021. A análise histórica permite um olhar crítico a respeito dos programas de segurança implementados, seus fracassos e a mobilização para a implementação de uma nova agenda de parcerias voltadas à vigilância e ao controle territorial.
O penúltimo artigo intitula-se No espaço entre a lei e sua aplicação: ocupações ameaçadas de remoção. Nele, o autor, Eduardo Abramowicz Santos, debruça-se sobre como os processos judiciais de remoção de moradores de ocupação promovem mudanças nas dinâmicas dos espaços urbanos. São analisadas especificamente duas ocupações urbanas, uma situada no bairro do Brás, na região central da cidade de São Paulo, e outra no bairro da Vila Andrade, na região sul da capital paulista.
Por fim, encerra essa importante seção deste volume o artigo Organizações criminosas na urbanização periférica: hipóteses a partir de três metrópoles brasileiras, de autoria de Thiago Canettieri e Priscila Coli. O trabalho realiza uma importante e profunda análise da literatura sobre violência e criminalidade em contexto urbano, destacando suas contribuições e também apontando o quanto essas análises negligenciaram a atuação específica das organizações criminosas no processo de urbanização.
A Revista Cadernos Metrópole surgiu em 1999 como um dos principais produtos do INCT Observatório das Metrópoles e tem como principal objetivo difundir os resultados da análise comparativa entre as metrópoles brasileiras. Na última avaliação Qualis Periódicos (2017-2020) da CAPES, recebeu classificação A1. A revista é produzida em parceria com a EDUC (Editora da PUC-SP). Conheça a história do nosso periódico nesse post da Scielo (clique aqui).
