Revista Cadernos Metrópole n.66 | Envelhecimento em movimento: perspectivas críticas sobre mobilidade urbana e acessibilidade na América Latina

Está disponível o dossiê “Envelhecimento em movimento: perspectivas críticas sobre mobilidade urbana e acessibilidade na América Latina“, publicado pela Revista Cadernos Metrópole (Qualis/CAPES A1), que reúne um conjunto de artigos que examinam as interseções entre os processos de envelhecimento e as situações locais de mobilidade e acessibilidade nas cidades latino-americanas.

O dossiê foi organizado por Natalia Villamizar Duarte (Universidade de Newcastle), Ana Marcela Ardila Pinto (Universidade Federal de Minas Gerais) e Carlos Fernando Ferreira Lobo (Universidade Federal de Minas Gerais), estes últimos pesquisadores do Núcleo Belo Horizonte do INCT Observatório das Metrópoles.

Os organizadores destacam que transporte, mobilidade e acessibilidade são áreas críticas em que os desafios do envelhecimento se cruzam com as condições materiais dos territórios urbanos e suas agendas políticas. Trata-se, segundo eles, de uma tarefa urgente para os governos locais, no sentido de (re)formular políticas públicas destinadas a melhorar a qualidade de vida e garantir o direito à cidade para as pessoas idosas.

Os artigos selecionados abrangem uma gama diversificada de geografias, escalas e abordagens metodológicas, desde análises de acessibilidade até reflexões filosóficas sobre corpos idosos nas ruas latino-americanas, desde o geodesign participativo até relatos etnográficos sobre o envelhecimento nas favelas. Esse conjunto, segundo os organizadores:

promove uma agenda interdisciplinar que coloca as experiências vividas das pessoas idosas no centro dos debates urbanos, desafiando tanto a redução biomédica do envelhecimento ao declínio funcional quanto o estreitamento tecnocrático da mobilidade às métricas de transporte.

A seguir, apresentamos os doze artigos selecionados no âmbito do dossiê temático e os sete textos complementares que compõem o número:

O artigo Economía plateada y actividad física en la vejez: deporte como mercado emergente, de Fernando Ariel Manzano, discute criticamente o conceito de economia prateada aplicado à atividade física na velhice. A partir de uma revisão teórica sobre a América Latina, o autor argumenta que a mercantilização do envelhecimento ativo transforma a prática esportiva em um bem de consumo, reproduzindo desigualdades territoriais e sociais em vez de reduzi-las.

Em Percepção de pessoas idosas sobre episódios de discriminação no transporte público coletivo, Alda Abrahão Faiad de Moura, Eduarda Rezende Freitas e Ingrid Luiza Neto analisam experiências de discriminação vividas por pessoas idosas nos ônibus. Com base em entrevistas com 109 participantes, o estudo mostra que preconceitos relacionados à idade, gênero e escolaridade afetam a mobilidade cotidiana e limitam o acesso pleno à cidade.

O texto Cidades e envelhecimento: proposições para uma cidade inteligente sensível à idade, de Allan Leon Casemiro Silva, Sandra Medina Benini e Jeane Aparecida Rombi de Godoy, investiga os desafios de articular os modelos de cidades inteligentes e cidades amigas das pessoas idosas. Os autores apontam problemas como exclusão digital, desigualdades territoriais e deficiências de infraestrutura, defendendo uma governança urbana centrada na justiça social e na participação das pessoas idosas.

No artigo Viver a cidade: inserção de instituições para pessoas idosas em Campina Grande, Miriam Panet e David Melo analisam a localização de instituições de longa permanência em relação aos serviços urbanos e ao transporte público. Os resultados mostram que muitas dessas instituições permanecem pouco integradas à cidade, restringindo a autonomia e as possibilidades de convivência social de seus residentes.

Centro Municipal de Convivência do idoso Dr. João Marcos Moura e seu entorno adjacente. Foto: Miriam Panet e David Melo, 2024.

O estudo Envelhecimento e acessibilidade: análise estratificada do censo no Rio Grande do Sul, de Lucas Eduardo Dornelles e Laís Veríssimo do Nascimento, utiliza dados dos Censos de 2010 e 2022 para avaliar a infraestrutura urbana voltada à acessibilidade. Os autores identificam que os municípios com maior proporção de população idosa são justamente aqueles que apresentam maiores carências em calçadas, rampas e iluminação pública.

Em Movilidad, autonomía y espacio público: percepciones de personas mayores en Peñalolén, Chile, Carlos Adrian Vargas Alfaro e Giovanni Vecchio investigam como pessoas idosas percebem o espaço público em um bairro de Santiago. A pesquisa revela que a qualidade das calçadas e da infraestrutura urbana influencia diretamente a autonomia, reforçando a importância da proximidade e da acessibilidade para a manutenção da vida ativa.

O artigo Mobilidade a pé: idosos e a vulnerabilidade a alagamentos, de André Eiji Sato, Solimar Isaac e Roberta Kronka, relaciona padrões de deslocamento de pedestres idosos com áreas suscetíveis a inundações na Região Metropolitana de São Paulo. O estudo demonstra que os riscos climáticos ampliam vulnerabilidades já existentes e propõe incorporar critérios de segurança ambiental às análises de acessibilidade urbana.

No texto Mobilidade simbólica de pessoas idosas em cidades patrimonializadas: cocriar para o pertencer, Ana Luíza Rodrigues da Silva Santos, Daniela Antunes Lessa e Bárbara Abreu Matos exploram como memória, pertencimento e afetos influenciam os deslocamentos de pessoas idosas em Ouro Preto. A partir de experiências de geodesign participativo, as autoras defendem que o planejamento urbano considere não apenas aspectos funcionais, mas também os vínculos simbólicos construídos com os lugares.

Escadas de acesso à casa de dona Arruda – Morro da Providência. Foto: Fernando Henrique Ferreira de Oliveira e César Augusto Marques da Silva, 2025.

Em Entre becos e escadarias: mobilidade, território e envelhecimento em favelas brasileiras, Fernando Henrique Ferreira de Oliveira e César Augusto Marques da Silva analisam os desafios da mobilidade para pessoas idosas em favelas do Rio de Janeiro. O artigo mostra como desigualdades de gênero, raça e classe se combinam à precariedade da infraestrutura, tornando a circulação cotidiana uma prática de resistência apoiada em redes de solidariedade comunitária.

O artigo Deslocamentos cotidianos de pessoas idosas: evidências coletadas por entrevista caminhada, de Isabela de Oliveira Bastos, Patricia Rodrigues Samora e Alejandro Pérez-Duarte Fernández, acompanha percursos cotidianos de moradores idosos de Campinas. Combinando entrevistas, GPS e registros fotográficos, o estudo evidencia como laços afetivos, relações de vizinhança e pequenas barreiras urbanas moldam a experiência da mobilidade.

No texto Utopias e distopias: a cidade que temos e que queremos para envelhecer, Débora Wilza de Oliveira Guedes investiga como pessoas idosas percebem a cidade atual e imaginam futuros urbanos desejáveis. A pesquisa realizada em São José dos Campos revela críticas à infraestrutura e à segregação espacial, ao mesmo tempo em que destaca aspirações por cidades mais inclusivas, seguras e voltadas ao bem-estar coletivo.

Encerrando o dossiê, Daniel Pala Abeche assina o artigo Velhice em ruas que não esperam: mobilidade e existência na América Latina. Inspirado na filosofia política de Hannah Arendt, o autor propõe compreender a mobilidade como condição de presença no espaço público e critica modelos urbanos que privilegiam velocidade e consumo em detrimento da participação ativa das pessoas idosas na vida urbana.

Na sequência, sete artigos complementares abordam dinâmicas urbanas que também afetam a forma como as populações idosas habitam as cidades.

O artigo Smart city: entre a tendência global e os riscos sociais locais, de Eluane Parizotto Seidler e Roberto Schoproni Bichueti, revisa a literatura sobre cidades inteligentes em países em desenvolvimento. Os autores identificam riscos tecnológicos, organizacionais e sociais associados a essas iniciativas e defendem que a inovação urbana seja acompanhada por mecanismos de governança participativa e redução das desigualdades.

Em Pacto Alegre: contradições nas propostas de smart city para Porto Alegre, Mariana Baldi e Fernando Dias Lopes analisam criticamente o programa Pacto Alegre. O estudo evidencia tensões entre o discurso de inclusão associado às cidades inteligentes e estratégias de desenvolvimento urbano alinhadas a prioridades neoliberais.

O texto Contraplanos e planejamento radical como meio para o direito à cidade, de Clarice Misoczky de Oliveira, examina experiências de planejamento insurgente em Porto Alegre. A autora destaca os Planos Regionais de Ação Popular como instrumentos capazes de ampliar a participação social e fortalecer o direito à cidade em contextos marcados por agendas urbanas neoliberais.

Foto: Projeto Humanamente Fiocruz.

No artigo Demanda e acessibilidade do transporte na Região Metropolitana de São Paulo (2017), João Augusto Dunck Dalosto e Pedro José Perez-Martinez investigam padrões de macroacessibilidade na metrópole paulista. A análise demonstra que as oportunidades de acesso ao território permanecem fortemente condicionadas pelas desigualdades na oferta de infraestrutura e transporte público.

O estudo Fragilidade estatal e vulnerabilidade climática: há uma relação?, de Cristiano Garcia Mendes, Mariana Ferreira Torres e Victor de Matos Nascimento, examina a relação entre fragilidade estatal e vulnerabilidade climática. Os autores identificam uma correlação direta entre esses fatores, contribuindo para o debate sobre governança e capacidade de resposta aos desafios ambientais contemporâneos.

Em Pagamento por serviços ambientais em áreas urbanas: framework para implementação no Brasil, Juliano Rodrigues Gimenez e Janaína Ribeiro Velho discutem o potencial dos mecanismos de pagamento por serviços ecossistêmicos na gestão da água urbana. O artigo propõe um modelo de implementação voltado à integração entre sustentabilidade ambiental e planejamento urbano.

Por fim, Priscila Coli assina o artigo Milícias e urbanização periférica, uma nova dinâmica de segregação na metrópole carioca. A autora analisa como grupos milicianos passaram a atuar como agentes da urbanização periférica no Rio de Janeiro, reorganizando o acesso à terra e à moradia e produzindo novas formas de segregação socioespacial.

Revista Cadernos Metrópole surgiu em 1999 como um dos principais produtos do INCT Observatório das Metrópoles e tem como principal objetivo difundir os resultados da análise comparativa entre as metrópoles brasileiras. Na última avaliação Qualis Periódicos (2017-2020) da CAPES, recebeu classificação A1. A revista é produzida em parceria com a EDUC (Editora da PUC-SP). Conheça a história do nosso periódico nesse post da Scielo (clique aqui).