Está disponível o dossiê temático “Urbanização, periferias e política: formas de organização, pautas de reivindicação e lutas da população periférica hoje”, publicado pela Revista Cadernos Metrópole (Qualis/CAPES A1). O número reúne artigos que investigam as múltiplas formas de ação política que emergem nos territórios periféricos brasileiros, abordando experiências de organização coletiva, reivindicação de direitos, produção de conhecimento e construção de alternativas urbanas em contextos marcados pela desigualdade social.
O dossiê foi organizado pelo coordenador do Núcleo Belo Horizonte do INCT Observatório das Metrópoles, Thiago Canettieri (Universidade Federal de Minas Gerais), pela pesquisadora do Núcleo Belo Horizonte, Luciana Teixeira de Andrade (Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais) e pelo coordenador do Núcleo Fortaleza, Luís Renato Bezerra Pequeno (Universidade Federal do Ceará).
No editorial, os organizadores destacam que a periferia, tradicionalmente interpretada como expressão espacial das desigualdades urbanas, deve ser compreendida também como um espaço de elaboração política, reivindicação e transformação social. Segundo os autores, as periferias contemporâneas constituem ambientes férteis para mudanças sociais, produzindo formas próprias de organização coletiva, identidade política e ação territorial.
O texto ressalta que, apesar da permanência de problemas históricos como precarização do trabalho, insegurança habitacional, racismo estrutural, violência e controle territorial por grupos armados, as periferias também se afirmam como territórios de invenção política. Nesse contexto, emergem experiências diversas como movimentos pela moradia, iniciativas comunitárias de autoconstrução, coletivos culturais, cursinhos populares, cozinhas solidárias, hortas urbanas, articulações feministas e antirracistas, entre muitas outras formas de ação coletiva.
Os organizadores argumentam ainda que as práticas políticas periféricas se desenvolvem simultaneamente “com”, “contra” e “apesar” do Estado. Elas abrangem desde a participação em conselhos, fóruns e políticas públicas até manifestações, ocupações urbanas, redes de solidariedade e experiências autônomas de gestão comunitária. Essa diversidade de práticas evidencia a complexidade dos territórios periféricos e a necessidade de aprofundar sua compreensão no campo dos estudos urbanos.
Chamada aberta até 30 de setembro para novo dossiê
A revista Cadernos Metrópole está com chamada aberta para o dossiê “Tarifa Zero: impactos, disputas e suas perspectivas de ampliação no Brasil”, que receberá submissões de artigos até 30 de setembro de 2026. Organizada por Thiago Trindade, Juciano Rodrigues e Letícia Birchal, integrantes do INCT Observatório das Metrópoles, a edição busca reunir pesquisas teóricas e empíricas sobre os avanços, desafios e perspectivas da política de Tarifa Zero no transporte coletivo. O tema ganha relevância diante da expansão dessa política em mais de 140 municípios brasileiros e de seu potencial para promover a inclusão social, ampliar o acesso a direitos fundamentais e contribuir para modelos de mobilidade urbana mais sustentáveis e menos desiguais.
Confira os nove artigos selecionados no âmbito do dossiê temático “Urbanização, periferias e política: formas de organização, pautas de reivindicação e lutas da população periférica hoje”

O artigo “Sou a pastora Ana”: conflito e ética do cotidiano em uma favela, de Réia Silvia Gonçalves Pereira, Wania Mesquita e Vânia Sierra, aborda o caso etnográfico de uma liderança religiosa que desafia o poder do tráfico de drogas a partir de sua atuação assistencial e comunitária, evidenciando as múltiplas institucionalidades que regulam a vida cotidiana nas periferias.
Em Cartografia participativa como forma de mobilização coletiva para emergência em desastres hidrológicos, Talita Gantus-Oliveira e Henrique Candido de Oliveira apresentam a construção participativa de um mapa técnico-comunitário em uma área periférica vulnerável a enchentes, fortalecendo vínculos comunitários e contribuindo para políticas públicas adaptadas à realidade local.
O texto Agricultura urbana como ambiguidade e ambivalência na periferia de Belo Horizonte, de Bruno Dias Magalhães, analisa a agricultura urbana como espaço de disputa política e de construção de alternativas econômicas e territoriais.
No artigo Produção de dados sobre as favelas brasileiras e o problema da comparabilidade intercensos, Mariana Camillo Sant’Ana e Alex Ferreira Magalhães discutem as mudanças metodológicas promovidas pelo IBGE na identificação de favelas e comunidades urbanas, apontando desafios para análises territoriais e formulação de políticas públicas.
Em Rastreando a dívida para morar: o caso de Ponta Grossa/PR (2009-2023), Carlos Picanço Wambier e Igor Sporch da Costa investigam os processos de endividamento associados à política habitacional e aos imóveis retomados por inadimplência no Programa Minha Casa Minha Vida.
O estudo Associativismo “sob cerco”: violência e ação coletiva em favelas no Rio de Janeiro, de Lia de Mattos Rocha, Monique Batista Carvalho e Jonathan Willian Bazoni da Motta, analisa como práticas do crime organizado restringem experiências associativas e comunitárias nos territórios populares.
Já Por que não ocupar? A experiência da Ocupação Kilombo Urbano em Pelotas/RS, de Bárbara Hypolito, discute as ocupações urbanas como formas de ação política que produzem novas formas de habitar, organizar o território e construir subjetividades insurgentes.
Em Uma “periferia” no “centro”: o caso da Vila Vicentina (Fortaleza/CE), Aline Maria Matos Rocha e Linda Maria de Pontes Gondim revisitam as categorias de centro e periferia a partir da experiência do Movimento Resistência Vila Vicentina, mostrando como essas noções se tornam mais complexas diante das transformações urbanas contemporâneas.
Encerrando o dossiê, o artigo Cidades invisíveis, pessoas incríveis: entre autogestão e resistência nas periferias latino-americanas, de Angélica Tanus Benatti Alvim, Bianca Moro de Carvalho e Marina Erendina Contreras-Saldaña, analisa experiências de autogestão e liderança comunitária em assentamentos informais do Brasil e do México, destacando práticas coletivas capazes de reconfigurar as relações entre Estado e sociedade.
Dez artigos complementares ampliam o debate sobre os desafios contemporâneos das metrópoles brasileiras
O artigo Urbanização desigual, controle punitivo e cidadania nas economias dependentes, de Matheus Boni Bittencourt, discute a relação entre urbanização e segurança pública no Brasil. O autor analisa como os processos de urbanização se articulam ao controle policial e penal de determinados territórios urbanos.
Em O papel da infraestrutura verde na drenagem urbana: diagnóstico e diretrizes, Adriana Emi Büchler Otakara e Alba Regina Azevedo Arana destacam a importância da infraestrutura verde para enfrentar problemas relacionados à drenagem urbana.
O texto Apontamentos sobre clima e cidade: análise de projeto de (re)urbanização em Curitiba, Paraná, de Letícia Peret Antunes Hardt, Carlos Hardt e Marlos Hardt, analisa o Projeto Gestão de Risco Climático Bairro Novo do Caximba, discutindo estratégias de planejamento urbano voltadas à adaptação climática.
No artigo Evolução dos padrões de mobilidade por gênero e suas transversalidades em Fortaleza, Brasil, Bianca Macêdo, Germana Nunes de Oliveira Melo e Carlos Felipe Grangeiro Loureiro investigam como as desigualdades de gênero influenciam os deslocamentos cotidianos na cidade.
Em Cosmologias da totalidade e práticas materiais no Santuário Nacional da Umbanda, Otávio di Nardo D’Andréa explora a relação entre a cosmologia da Umbanda e a organização espacial do Santuário Nacional da Umbanda. O estudo mostra como práticas rituais e relações simbólicas contribuem para a construção de uma ética de cuidado com o ambiente e com o território.
O artigo Analisando a música na cidade: ensaio metodológico nos bairros Catete e Glória, RJ, de Lucas Yudi Moriya Sampaio, propõe uma metodologia para estudar a música como fenômeno urbano. A pesquisa analisa de que maneira práticas musicais constroem relações materiais e imateriais no espaço urbano.
No texto Avaliação da participação popular no Ciclo de Planejamento Participativo de Fortaleza, Elielson Dias dos Santos e Gil Célio de Castro Cardoso examinam os limites e as potencialidades da participação social em processos de planejamento urbano. O artigo avalia a experiência de Fortaleza e reflete sobre os desafios para o fortalecimento da gestão democrática das cidades.
Em Dinâmica imobiliária no “Rio Olímpico”: expansão da produção e reprodução das desigualdades, Samuel Thomas Jaenisch analisa o mercado imobiliário da cidade do Rio de Janeiro durante o ciclo de preparação para os Jogos Olímpicos de 2016. Os resultados indicam que o aumento da produção habitacional ocorreu acompanhado pela intensificação de desigualdades socioespaciais.
O artigo Espaço público em disputa: cenários para os camelôs em Juiz de Fora, de Pablo Correa Lima, Frederico Braida e Marcelo Luís Ribeiro Silva Tavares, discute os conflitos relacionados à presença do comércio ambulante na região central do município.
Por fim, em Da “Nova Economia do Projetamento” ao Communist Party-led Development, Elias Jabbour e Javier Vadell discutem transformações recentes do desenvolvimento econômico chinês. Os autores apresentam o conceito de communist party-led development como uma chave analítica para compreender as inovações institucionais e os novos padrões de organização do desenvolvimento observados na China contemporânea.
Segundo os organizadores, a diversidade temática presente tanto no dossiê quanto nos artigos complementares aponta para a necessidade de um olhar acadêmico capaz de compreender as múltiplas complexidades das metrópoles contemporâneas, contribuindo para a construção de cidades mais justas, democráticas e inclusivas.

Sobre os Cadernos Metrópole
A Revista Cadernos Metrópole surgiu em 1999 como um dos principais produtos do INCT Observatório das Metrópoles e tem como principal objetivo difundir os resultados da análise comparativa entre as metrópoles brasileiras. Na última avaliação Qualis Periódicos (2017-2020) da CAPES, recebeu classificação A1. A revista é produzida em parceria com a EDUC (Editora da PUC-SP). Conheça a história do nosso periódico nesse post da Scielo (clique aqui).
Acesse a edição completa da Revista Cadernos Metrópole n.67. CLIQUE AQUI.