Por Ana Lúcia Rodrigues
Coordenadora do Observatório das Metrópoles Núcleo Maringá
Professora da Universidade Estadual de Maringá (UEM)

Maringá está gestando uma grande rede de solidariedade frente à pandemia do coronavírus. Digo gestando, pois os fatos e as medidas tomadas nos indicam o nível de envolvimento do poder público e da sociedade, demonstrando como a cidade se entrelaça, se comporta e se transforma ao mesmo tempo que deixa transparecer como as pessoas vão se arranjando e se articulando em redes, seja nas micro, envolvendo familiares e pessoas mais próximas, ou nos arranjos um pouco mais amplos, envolvendo atividades institucionais e locais de trabalho. A princípio parece que todos estão no mesmo barco, pois, do que se sabe até agora sobre o contágio do novo vírus, parece não haver distinção em relação a cor, classe social e gênero.

Mas, não haverá o que chamo aqui de solidariedade se as pessoas em situação de rua não estiverem assistidas por meio do fortalecimento das ações do poder público municipal, ou seja, de um incremento nas intervenções frente à gravidade da situação que se aproxima. Alguns analistas estão fazendo um prognóstico assustador para o Brasil que pode alcançar uma quantidade de mortes sem precedentes. Todavia, o perfil das vítimas certamente será composto na sua maioria pelos mais pobres e mais carentes. E pobreza e carência são características de um grande contingente de brasileiros que incluem as pessoas em situação de rua. Todavia, a estas pessoas se associam ainda outras vulnerabilidades, transformando-as num grupo completamente suscetível ao vírus, pois muitos são idosos, metade está doente, não há como colocá-los em quarentena na rua, vivem em grupos, circulam por muitos territórios da cidade e se dirigem aos transeuntes todo o tempo. Somente o poder público pode reunir recursos e políticas de diversos setores para responder, imediata e suficientemente, à tragédia que se aproxima dessas pessoas.

O isolamento social (voluntário) do máximo de pessoas é um cuidado que se pode encaminhar e exigir para aqueles que cotidianamente não estão isolados; para aqueles que fazem parte da sociedade, que estão inseridos nos agrupamentos sociais. A população de rua, ao contrário, padece de um isolamento social cotidiano, oriundo do rompimento dos vínculos com a família e com a sociedade. Um isolamento que gera impactos desastrosos para ela, pois a invisibiliza e naturaliza sua condição, praticamente tornando-a parte da paisagem da cidade. Isolamento é um privilégio dos que estão incluídos.

Maringá não queria ver estas pessoas, chegando um ex-prefeito a afirmar que não havia pessoas em situação de rua na cidade e, em certo momento, alegando tal inexistência devolveu recursos federais. O fato é que elas existem; querendo ou não vê-las, estas pessoas estão desabrigadas por aí. São mais de 4 centenas, conforme o Observatório das Metrópoles demonstrou em 2019, com a 5ª edição do Censo que realiza anualmente desde 2015. Alguns dados da pesquisa mostram que a precariedade é o nome e o sobrenome das condições de vida dos “moradores de rua”. A média dos cinco anos mostra que 36% dormem nas calçadas; 20% vivem na rua há mais de 9 anos; 35% têm entre 41 e 60 anos e 5% têm idade acima de 60 e são, na maior parte dos casos, os que estão há mais tempo na rua, ao ponto de serem conhecidos por seus nomes pela extraordinária equipe de servidores do Centro POP; 46% afirmam que têm dependência química; 30% não tem qualquer contato com os familiares; 65% não recebem nenhum benefício social; 41% afirmam apresentar algum problema de saúde e destes 67% não fazem tratamento.

Enfim, a solidariedade em tempos de pandemia deve ser construída em bases reais e pensada a partir das enormes desigualdades sociais associadas às relações de trabalho e à precariedade urbana. Por enquanto, está sendo gestada e precisa evoluir para a ampliação dos espaços de inclusão, fazendo-se imprescindível para isso ações do poder público, evitando que as ações voluntariosas de boa vontade acabem reforçando a discriminação e o preconceito contra as pessoas mais vulneráveis. Ou, mais grave, que o vírus torne de fato invisíveis as pessoas em situação de rua porque elas não estarão mais lá.