Quais os desdobramentos da proteção patrimonial para as dinâmicas residenciais e comerciais de um bairro? A partir dessa pergunta, Clarissa dos Santos Veloso, pesquisadora do Núcleo Belo Horizonte, desenvolve a sua tese intitulada Um bairro patrimonial: as dinâmicas residenciais e comerciais do Floresta, em Belo Horizonte”.

A pesquisa analisa a relação entre a política de proteção patrimonial do bairro Floresta e sua vida social. Localizado na região leste de Belo Horizonte e limítrofe ao Centro, o Floresta teve sua ocupação iniciada no século XIX, junto com a criação da capital mineira. A partir de 1996, o bairro passou a ser protegido como conjunto urbano pelo Conselho Deliberativo do Patrimônio Cultural do Município de Belo Horizonte (CDPCM/BH).

Bairro Floresta. Foto de João Paulo Vale (Reprodução: Prefeitura Municipal de Belo Horizonte).

Para identificar e analisar processos urbanos em curso no Floresta, Veloso utilizou três procedimentos investigativos qualitativos (entrevista, pesquisa documental e observação participante), além da análise de discurso para a interpretação dos dados coletados. Segundo a autora, a utilização dessas técnicas visa abordar as mudanças que se processam no bairro a partir de uma perspectiva microssociológica.

Defendida no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da PUC Minas, a tese foi orientada por Luciana Teixeira de Andrade, coordenadora do Observatório das Metrópoles Núcleo Belo Horizonte.

Confira a apresentação dos principais pontos do trabalho:

A que pergunta a sua pesquisa responde?

Quais os desdobramentos da proteção patrimonial para as dinâmicas residenciais e comerciais de um bairro? Essa pergunta é o ponto de partida desta pesquisa, que analisa o caso do bairro Floresta, em Belo Horizonte.

Por que isso é relevante?

Este estudo faz parte da discussão sobre os processos urbanos nas grandes cidades e integra uma pesquisa mais ampla, cujo objeto de estudo são outros bairros centrais da capital mineira. Procuramos compreender os processos urbanos em termos de renovação, requalificação, elitização, gentrificação, entre outros fenômenos. No caso do Floresta, apesar da proteção patrimonial ir na direção da manutenção da paisagem e da vida social analiso como ela é capaz de influenciar fenômenos que envolvem transformações no espaço urbano e em sua vida social.

Construção do Viaduto Santa Tereza, em 1928. Fonte: Hometeka (s.d.).

Qual o resumo da pesquisa?

Esta tese analisa a relação entre a política de proteção patrimonial do bairro Floresta e sua vida social, compreendida tanto nos seus aspectos residenciais quanto comerciais e de consumo. Ciente das transformações pelas quais o bairro passa, mas também das permanências após o tombamento, procurei conhecer as direções e os significados da vida social no bairro nas duas últimas décadas. Localizado na região leste de Belo Horizonte e limítrofe ao Centro, o Floresta teve sua ocupação iniciada no século XIX, junto com a criação da capital mineira. A partir de 1996, o bairro passou a ser protegido como conjunto urbano pelo Conselho Deliberativo do Patrimônio Cultural do Município de Belo Horizonte (CDPCM/BH). Para identificar e analisar processos urbanos em curso no Floresta lancei mão de três procedimentos investigativos qualitativos – entrevista, pesquisa documental e observação participante – e da análise de discurso para a interpretação dos dados coletados. A utilização dessas técnicas visa abordar as mudanças que se processam no Floresta a partir de uma perspectiva microssociológica. Os moradores do bairro e os demais atores sociais que nele trabalham e circulam são agentes determinantes para a dinâmica desse espaço urbano. Suas práticas e percepções são tomadas como parte ativa dos processos de mudanças que analiso. Além disso, foram utilizados dados quantitativos secundários do censo e do cadastro de imóveis da Prefeitura de Belo Horizonte usados para fins de cobrança do IPTU para analisar a composição social e o estoque imobiliário do bairro.

Quais foram as conclusões?

A análise sobre as dimensões residenciais e paisagem física revelou que a criação da política do Conjunto Urbano tem colaborado para a manutenção da paisagem construída do bairro, conservando a horizontalidade via tombamento e evitando a verticalização. A manutenção do padrão de construção de apartamentos residenciais no bairro, voltados para grupos médios, reforça a atração desse estrato social para a Floresta e a sua predominância entre os residentes. As diferenças encontradas entre novos e antigos moradores são de esferas culturais, relativas aos gostos e estilos de vida e não as suas posições em estratos sociais, o que permite falar de uma gentrificação cultural em curso no bairro. A entrada de moradores, no entanto, não provoca a expulsão de outros grupos de classes sociais mais baixas. Trata-se de uma mudança que não chega a alterar a composição social do bairro. Já a análise de dinâmicas comerciais, concentrada no caso da Rua Sapucaí, demonstrou um processo de gentrificação comercial, com a substituição do comércio pequeno e local por negócios voltados para o lazer e a diversão que atraíram consumidores com maior capital econômico e cultural. As descobertas a partir da Sapucaí reforçam a interpretação da gentrificação comercial como um fenômeno volátil e efêmero. A volatilidade se dá, em primeiro lugar, porque a gentrificação comercial acontece em períodos do dia e da semana específicos, consoante o funcionamento dos estabelecimentos comerciais. Por outro lado, a gentrificação comercial na Rua Sapucaí é frágil e instável por estar sujeita a transformações repentinas, como o aumento descontrolado do número de pessoas e o encerramento das atividades de bares e restaurantes, que podem levar à perda do status da Rua de centro urbano de diversão atraente para os consumidores de classe média. Seja pela localização central do Floresta, pela vida social de espaços urbanos centenários e/ou porque o histórico e o antigo são apreciados, o bairro desperta o interesse de novos grupos, tanto de moradores quanto de investidores e consumidores de bens e serviços. O Floresta se constitui como um bem cultural da cidade, onde mudanças e permanências convivem num espaço urbano de valor patrimonial.

Quem deveria conhecer seus resultados?

Todos os interessados na temática urbana e nos estudos de bairros, com destaque para acadêmicos das ciências sociais, geografia, história, arquitetura e urbanismo. Além disso, planejadores urbanos e profissionais que lidam com questões que envolvem o patrimônio histórico e cultural das cidades.

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