Como compreender as periferias brasileiras em um contexto de transformações no mundo do trabalho, na política e nas formas de organização social? Essa é uma das questões centrais do livro “Periferias em debate: estratégias de reprodução social, conflitos e ação coletiva”, organizado por Renato Fontes e Thiago Canettieri, pesquisadores do Núcleo Belo Horizonte do INCT Observatório das Metrópoles. Publicada com apoio do CNPq e da Editora Cosmópolis, a obra está disponível para download gratuito em nossa Biblioteca Digital.
“Esperamos que os textos desta coletânea possam contribuir para pensar as periferias a partir das diferentes pesquisas apresentadas. Esperamos também que a leitura provoque novos questionamentos e fortaleça esse campo de estudos, contribuindo para uma perspectiva crítica sobre nossas cidades”, pontuam os organizadores. A publicação reúne trabalhos apresentados nas duas primeiras edições do Colóquio Periferias em Debate, realizadas em 2024 e 2025. São pesquisas e reflexões que apontam para novas situações e problemas pensados a partir da periferia, reunindo análises sobre as complexas dinâmicas das periferias brasileiras contemporâneas.
Para compreender os processos que atravessam a vida de mais de 16 milhões de brasileiros que vivem em “favelas e comunidades urbanas”, os textos de 14 autores discutem estratégias de reprodução social, conflitos e formas de ação coletiva que atravessam os territórios periféricos contemporâneos. Conforme os organizadores, a coletânea não busca oferecer uma interpretação com um único sentido, mas tensionar perspectivas, aproximar e explorar diferentes entradas para a compreensão das dinâmicas periféricas.
Ao mobilizar temas como ilegalismos, dinâmicas econômicas, formas de organização coletiva, gênero, raça, cultura e reprodução social, os capítulos evidenciam como as periferias se configuram como arenas densas de conflito, mediação e produção de sentidos, nas quais se entrecruzam práticas, instituições e experiências.
Destaques da coletânea
Já na apresentação, Thiago Canettieri e Renato Fontes introduzem as periferias urbanas brasileiras como territórios de extrema complexidade e heterogeneidade, habitados por mais de 16 milhões de pessoas. Os autores argumentam que as definições tradicionais baseadas apenas em carência infraestrutural são insuficientes, propondo uma análise que considere as novas reconfigurações do mundo do trabalho, a expansão religiosa e a coexistência com regimes normativos como o “mundo do crime”.
O capítulo “Novos e velhos atores: ocupações, reconfigurações e modulações nos espaços e nas tramas sociais das periferias”, de Cibele Saliba Rizek e Ana Luiza Vieira Gonçalves, analisa as ocupações urbanas em São Paulo e Campinas, observando a transição de uma antiga “gramática de direitos” para novas tramas marcadas por múltiplos mercados e subjetividades neoliberais. Em “Ilegalismos, domínio armado dos territórios e associativismo: reflexões na perspectiva de uma agenda de pesquisa”, Orlando Santos Júnior, Taísa Amendola Sanches, Utanaan Reis Barbosa Filho, Bruno Frazão e Clara Polycarpo exploram como o domínio armado de milícias e do tráfico de drogas impacta as dinâmicas associativas no Rio de Janeiro.
Por fim, no capítulo “Periferias, espaço e tempo: experiência cotidiana e produção do espaço político”, Renato Fontes discute como a produção do espaço político nas periferias emerge das contradições entre a dominação do capital e a apropriação cotidiana. Segundo ele, mais do que identificar os fenômenos de forma isolada, importa compreendê-los como parte de novos agenciamentos que reconfiguram práticas, vínculos e formas de ação coletiva, reinscrevendo as contradições no tempo e no espaço. “Atentar para essas inflexões não apenas amplia a compreensão das periferias contemporâneas, mas também recoloca desafios à própria teoria urbana e à formulação de políticas para as periferias”, encerra Fontes.
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- Apresentação
Thiago Canettieri e Renato Fontes - Novos e velhos atores: ocupações, reconfigurações e modulações nos espaços e nas tramas sociais das periferias
Cibele Saliba Rizek e Ana Luiza Vieira Gonçalves - Da ponte pra cá, o mar ficou mais fundo: ensaio sobre a fabricação da identidade periférica
Gabriel da Cruz - Em busca da sociedade sem classes: fronteiras simbólicas e espaciais do empreendedorismo na periferia de São Paulo
Henrique Costa - Quando a casa deixa de ser só moradia: microempreendedorismo como reprodução social crítica em uma periferia metropolitana de Belo Horizonte
Thiago Canettieri e Larissa Muniz Rovadoschi - Mudanças climáticas como fronteira de mercado: energia solar, negócios de impacto social e ilegalismos
Gustavo Prieto - Ilegalismos, domínio armado dos territórios e associativismo: reflexões na perspectiva de uma agenda de pesquisa
Orlando Santos Júnior, Taísa Amendola Sanches, Utanaan Reis Barbosa Filho, Bruno Frazão e Clara Polycarpo - O associativismo periférico dentro e fora das instituições: uma análise a partir do Mapeamento de Movimentos Sociais e Coletivos das Periferias Brasileiras
Victoria Lustosa Braga - Periferias, espaço e tempo: experiência cotidiana e produção do espaço político
Renato Fontes

