Os dados do último Censo Demográfico do IBGE, de 2022, evidenciam a persistência e a expansão das periferias urbanas nas cidades brasileiras. O levantamento identificou mais de 12 mil “favelas e comunidades urbanas”, distribuídas em todas as regiões do país, onde vivem cerca de 16,3 milhões de pessoas, aproximadamente 8,1% da população do país. Esses territórios se manifestam em diferentes formas e nomenclaturas: ocupações, comunidades, favelas, quebradas, baixadas, palafitas, mocambos, etc. Isto é, em que pese resultarem de determinações comuns, são espaços heterogêneos, em constante transformação: de cômodo a cômodo, de rua a rua, de chegadas e saídas, de maior ou menor presença de políticas estatais, de configurações societárias. Lá coexistem e se inscrevem no tempo e no espaço: trajetórias, possibilidades de mobilidade social, estratégias de reprodução social, riscos e vulnerabilidades e regimes de regulação distintos. Ou seja, os territórios periféricos são espaços de grande complexidade.
Ao lado de problemas historicamente acumulados, como a precariedade da infraestrutura urbana e o acesso desigual a serviços, o desemprego persistente e o baixo assalariamento, entre outros, novas determinações e situações vêm reconfigurando esses espaços. A título de exemplo, as transformações no mundo do trabalho, marcadas pela precarização, pela informalidade e pelo avanço do capitalismo de plataforma; a expansão das igrejas neopentecostais; forças políticas conservadoras e progressistas; a coexistência de diferentes regimes normativos, como o mundo do crime, etc. Tudo isso tem reordenado práticas cotidianas, redes de sociabilidade e formas de organização.
Esses fenômenos não estão unicamente situados nas periferias, longe disso, estão intrinsecamente conectados com o desenvolvimento capitalista em sua escala planetária. O capital, ao longo da história, manifesta-se com distintas feições, mesmo que dissimuladas, para superar barreiras geográficas e ideológicas à sua expansão. Nesse sentido, as periferias estão sendo continuamente reconfiguradas, reterritorializadas e reescalonadas, a ponto de não caber mais a “velha” definição que as reduz a uma localização geográfica ou a um déficit de infraestrutura e de serviços. Ao contrário, as periferias resultam de (e produzem) um conjunto de processos inter-relacionados que operam com temporalidades, espacialidades e formas de agência específicas, articulam-se transversalmente às lógicas estatais e de mercado e engendram modos próprios de produção da política.
Nesse contexto, o Colóquio Periferias em Debate, que dá origem a esta coletânea, surge da necessidade de constituir um espaço de interlocução capaz de articular diferentes campos de pesquisa em torno das múltiplas expressões e fenômenos das periferias contemporâneas. Mais do que reunir estudos sobre um objeto comum, trata-se de promover um debate que reconheça a complexidade desses territórios e favoreça o diálogo entre abordagens teóricas e empíricas diversas. A partir de diferentes focos de discussão, espera-se debater as relações cotidianas que se desenrolam nos territórios periféricos sob uma perspectiva crítica. Deste modo, o Colóquio criou uma oportunidade de encontro para que se pudesse colocar a periferia no centro das discussões.
Os textos aqui reunidos, uma amostra das duas primeiras edições do Colóquio, a primeira realizada em 2024 e a segunda em 2025, refletem essa aposta na pluralidade analítica. As pesquisas e reflexões apresentadas nos capítulos deste livro apontam para novas situações e novos problemas pensados a partir da periferia. A coletânea não busca oferecer uma interpretação unívoca, mas tensionar perspectivas, aproximar e explorar diferentes entradas para a compreensão das dinâmicas periféricas. Ao mobilizar temas como ilegalismos, dinâmicas econômicas, formas de organização coletiva, gênero, raça, cultura e reprodução social, os capítulos, aqui presentes, evidenciam como as periferias se configuram como arenas densas de conflito, mediação e produção de sentidos, nas quais se entrecruzam práticas, instituições e experiências.
Esperamos que os textos desta coletânea possam contribuir para pensar as periferias a partir das diferentes pesquisas aqui apresentadas. Esperamos também que a leitura provoque novos questionamentos e fortaleça esse campo de estudos, contribuindo para uma perspectiva crítica sobre nossas cidades.