Jamile Maia Younes¹
Uma “cidade inteligente”, ou smart city, corresponde a um tipo de desenvolvimento urbano associado ao imaginário de que as cidades podem se tornar mais sustentáveis, eficientes e seguras ao adotar esse modelo, mesmo que isso não corresponda à realidade. Esse paradigma smart é conduzido por agentes sociais responsáveis pela difusão de discursos e projetos que vendem os supostos benefícios e avanços da aplicação de soluções smart, apesar do teor reducionista desse tipo de abordagem (Hollands, 2008; Greenfield, 2013; Morozov; Bria, 2019; Kraus et al., 2023; Oliveira et al., 2023).
O termo smart city, em um primeiro momento, esteve vinculado principalmente a empresas de tecnologia da informação e comunicação (TIC), como a IBM e a Cisco, com a oferta de produtos tecnológicos às administrações públicas. Atualmente, prefeituras, empresas de TIC, políticos, empresários, entre outros, difundem discursos e materializam iniciativas para tornar as cidades smart. Mas o que significa dizer que uma cidade é smart e a quem esse paradigma beneficia?
A pesquisa desenvolvida durante o mestrado identificou que a incorporação da smart city tem modificado o planejamento e o gerenciamento urbano de cidades como Florianópolis, em Santa Catarina. Intervenções smart em ruas, instalação de tecnologias e parcerias para coleta de dados, mudanças no nome de secretarias, adotando a atribuição “inteligente”, e marketing urbano frente à posição da cidade em rankings de smart cities são alguns exemplos desse processo.
A expansão do paradigma smart city não está dissociada do avanço do urbanismo neoliberal, utilizado como mecanismo para atrair novos investimentos e se colocar como um diferencial frente a outros municípios. O gerenciamento do Estado neoliberal tem relação com as articulações entre mercado e poder público, que se aliam para também construir uma imagem de cidade receptiva aos negócios.
Florianópolis segue essa cartilha. Dando continuidade à seletividade histórico-geográfica de investimentos orientados pelas classes sociais que controlam e estruturam o processo de urbanização (Sugai, 2002), desde os anos 1990, políticas, programas e planos da cidade são projetados por meio do marketing urbano. Campanhas como “a melhor cidade para se viver” e “capital com melhor qualidade de vida” são reflexos de um imaginário proveitoso ao capital turístico-imobiliário, que se consolidou como uma das forças de modernização contemporânea do desenvolvimento urbano (Pozzo; Vidal, 2011; Lenzi, 2016).

Florianópolis. Foto: Jonatã Rocha / SECOM.
Nos anos 2000, despontou a projeção da cidade como polo de desenvolvimento tecnológico: denominações como “Capital da Inovação”, “Ilha do Silício” e “Cidade Criativa” refletem os investimentos e a criação de uma imagem que fortaleceu setores empresariais, como o setor de tecnologia e inovação (T&I), que se beneficia ao divulgar Florianópolis como uma cidade que fomenta a inovação e a tecnologia.
Entre 2012 e 2013, notícias, debates e eventos relacionados à transformação e aos benefícios de ser uma smart city começaram a circular na capital catarinense. Considerada um marco normativo para o setor de T&I, a Lei Municipal de Inovação e Tecnologia, a Lei Complementar nº 432/2012, propõe uma série de benefícios para estimular o fortalecimento e o financiamento de iniciativas no setor de T&I, bem como de intervenções smart. Com essa lei, é possível que projetos e programas voltados à tecnologia e inovação recebam isenções fiscais. Além das isenções, a lei estabeleceu instrumentos para sua efetivação, como o Fundo Municipal de Inovação, financiado por recursos públicos e previsto na lei orçamentária do município, o qual foi regulamentado em 2017.
Um dos primeiros eventos sobre smart cities foi o seminário “Cidades Inteligentes, Cidades do Futuro”, realizado em Florianópolis em 2013, que contou com a participação da Prefeitura Municipal de Florianópolis (PMF), da Universidade Federal de Santa Catarina, entre outros. Nas notícias e entrevistas realizadas sobre o evento, há uma ênfase nas soluções tecnológicas, referenciadas como um “poder” de transformação dos espaços.
Mesmo que atualmente existam outras denominações, como cidades humanas, inteligentes e sustentáveis, o paradigma smart city serve como um guarda-chuva que agrega as intenções referentes a essas concepções, e inúmeros são os elos que as unem, como as soluções urbanas smart.
As soluções smart são permeadas pelo que o pesquisador Evgeny Morozov (2013; 2019) cunhou como solucionismo tecnológico, no qual discursos transformam problemas sociais profundos em disfunções técnicas a serem corrigidas. Como não há mais recursos devido a cortes orçamentários, o caminho possível passa a ser “evitar” a política e implantar tecnologias como curativos digitais nos problemas existentes, sem atacar o funcionamento estrutural do mercado (Morozov, 2020). Logicamente, “driblar” a política beneficia amplamente as empresas que oferecem esses produtos.
Além dos exemplos de intervenções smart citados anteriormente em Florianópolis, no setor de mobilidade, a instalação de semáforos inteligentes é vendida como uma solução smart para amenizar o fluxo de trânsito. Mesmo com especialistas afirmando que as mudanças em horários de grande movimentação não são, de fato, tão significativas, um debate sobre a ampliação e melhoria do transporte público — ou seja, uma efetiva mudança política — é substituído por soluções parciais que transmitem a sensação de algum tipo de controle sobre o problema urbano em questão. Enquanto isso, Florianópolis tem a passagem de ônibus, paga em dinheiro, mais cara do país.
O projeto Waze for Cities (WFC), que é uma parceria do aplicativo Waze, pertencente ao grupo Alphabet, com a PMF, tem como objetivo coletar dados de pontos da cidade, repassando-os à prefeitura e alertando os usuários do serviço sobre o tráfego. Conforme imagem disponibilizada pela PMF em anúncio publicitário, a grande maioria da coleta de dados está nos bairros Centro, Agronômica e Santa Mônica e, na parte continental, principalmente no bairro Estreito — praticamente as mesmas áreas em que estão presentes os semáforos inteligentes.

Figura 1. Imagem da localização da coleta de dados do projeto WFC. Fonte: NSC branded content (2025).
A PMF incentiva a utilização do Waze para aumentar a quantidade de informações coletadas. O cidadão é visto como um consumidor do produto e, ao mesmo tempo, como fornecedor de dados que são essenciais à plataforma Waze para aumentar seu valor de mercado. Esses dois projetos se estabeleceram principalmente em locais valorizados da capital, sendo perceptível tanto uma concentração dessas tecnologias quanto uma seletividade dos dados coletados e das informações que serão consideradas para a cidade como um todo.
Ao analisar a incorporação da smart city em Florianópolis, é perceptível que o paradigma constitui uma das faces do neoliberalismo nas gestões urbanas, buscando criar um consenso sobre o que é desejável para o desenvolvimento urbano. A condução para alcançar essas características é mediada pelo Estado neoliberal e pelo capital tecnológico. Na mobilidade, o paradigma reduz a participação popular à coleta de dados, enquanto as empresas que fornecem esses produtos tecnológicos ampliam seus lucros, além de as soluções smart estarem majoritariamente concentradas em bairros valorizados da capital. A smart city cria a impressão de que é possível consertar os problemas da cidade, aprofundando uma produção desigual do espaço em Florianópolis.
¹ Doutoranda pelo Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Bolsista da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) – DS. Orientação: Prof. Dr. Paulo Roberto Rodrigues Soares (UFRGS), pesquisador do INCT Observatório das Metrópoles Núcleo Porto Alegre. E-mail para contato: mjamile306@gmail.com
REFERÊNCIAS
YOUNES, Jamile Maia. Estratégias neoliberais na configuração do espaço urbano: a incorporação da smart city em Florianópolis/SC. Florianópolis: UFSC, 2025. 151 p. Dissertação (Mestrado em Geografia). Disponível em: https://repositorio.ufsc.br/handle/123456789/265397














