Nova estratégia americana ⎮ José Luis Fiori

No final de dezembro de 2017, a Casa Branca divulgou o texto da nova “estratégia de segurança nacional” dos Estados Unidos, antes que o presidente Donald Trump completasse o primeiro ano do seu mandato. A novidade do texto é que os EUA abdicam da função de defensores e árbitros da “ética internacional”, mas em troca assumem plenamente sua condição e seu objetivo de “império militar” com projeção global. Nesta análise, o cientista política José Luis Fiori mostra que a nova estratégia dos EUA aponta para uma competição permanente e sem árbitros, onde todas as alianças e guerras são possíveis, em qualquer momento e lugar. Um horizonte de “guerra infinita”.

O artigo de opinião “Nova estratégia americana”, do cientista político José Luis Fiori, foi publicado originalmente no Jornal do Brasil, edição de 4 de março de 2018.

Com autorização do autor, a Rede INCT Observatório das Metrópoles divulga o texto com o propósito de enriquecer o debate sobre a geopolítica internacional.

José Luis Fiori é coordenador do Programa de Pós-Graduação em Economia Política Internacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e autor do livro “O Poder Global” (Editora Boitempo). Ele pesquisa e ensina há mais de 20 anos no campo das Relações Internacionais, e em particular, na área de Economia Política Internacional, com ênfase no estudo das relações entre a geopolítica e a economia política do “sistema inter-estatal capitalista”.

Até 2008, publicou 9 livros e organizou 5 coletâneas. Ganhou o Prêmio Jabuti de Economia, Administração, Negócios e Direito, na Bienal do Livro de São Paulo, em 1998, com o livro “Poder e Dinheiro. Uma economia Política da Globalização”, organizado com a professora M.C.Tavares; e recebeu Menção Honrosa, na Bienal do Livro de 2002, com o livro “Polarização Mundial e Crescimento”, organizado com o professor C. Medeiros. Desde 1990, publicou cerca de 230 artigos em jornais como Valor Econômico, Correio Braziliense, Folha de São Paulo, Jornal do Brasil, Jornal do Comercio, e em revistas como Carta Capital, Exame, Praga, Margem Esquerda, Carta Maior, SinPermisso e La Onda.

 

NOVA ESTRATÉGIA AMERICANA

JOSÉ LUÍS FIORI

“We will pursue this beautiful vision – a world of strong, sovereign, and independent nations, each with its own cultures and dreams, thriving side by side in prosperity, freedom, and peace […]. We are also realistic and understand that the American way of life cannot be imposed upon others, nor is it the inevitable culmination of progress. (Presidency of the United States, “National, Security Strategy of the United States oAmerica”, December 2017, Washington, p. II e  4)

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No dia 18 de dezembro de 2017, a Casa Branca divulgou o texto da nova “estratégia de segurança nacional” dos Estados Unidos, antes que o presidente Donald Trump completasse o primeiro ano do seu mandato. Todos os governos americanos fazem o mesmo, mas engana-se quem pensar que se trata apenas de uma obrigação burocrática, porque atrás de sua aparência convencional o novo texto esconde uma ruptura revolucionária que transcende a figura errática do presidente Donald Trump.

Na parte menos inovadora do documento, a Casa Branca define os interesses e objetivos estratégicos permanentes dos Estados Unidos: i) proteger o povo americano e seu modo de vida; ii) promover a prosperidade econômica e a liderança tecnológica americana; iii) preservar a paz mundial através da força; iv) e avançar a influência global dos EUA. E, em seguida, identifica os principais inimigos e concorrentes dos EUA i) a Rússia e a China que se propõem modificar a  “ordem mundial” liderada pelos EUA; ii) a Coreia e o Irã, que se propõem alterar o equilíbrio geopolítico de suas regiões; iii) e, finalmente,  o “terrorismo jihadista”, e toda “organização criminosa internacional” ligada ao tráfico de drogas e armas.

A grande novidade da nova estratégia de segurança nacional dos EUA, entretanto, não está em nenhum desses pontos. Está escondida nas entrelinhas do documento onde aparecem suas premissas e definições fundamentais, que são apresentadas como se fossem uma coisa trivial ou consensual, quando na verdade não são, pelo menos na tradição americana. De forma sintética, quase telegráfica:

I  Os EUA assumem que o sistema mundial não é o lugar de uma luta global entre o “bem” e o “mal”, e está composto por povos e nações que possuem  valores, culturas e “sonhos” diferentes dos norte-americanos;

II Mais do que isto, consideram que não existe nada que assegure que os valores americanos triunfarão no final da história.

III Como consequência, os americanos aceitam – implicitamente – que não existem “valores universais”, nem existe um “destino histórico convergente’ da humanidade, abandonando o velho projeto messiânico de conversão dos povos à ética cristã, e à “razão iluminista”.

IV Como consequência, os EUA assumem a premissa realista de que o “sistema mundial” é um espaço de competição permanente pelo “poder global”, entre estados e interesses nacionais que seguem sendo a única base sólida do sistema internacional.

V E, por fim, nesse novo contexto, os EUA anunciam ao mundo que se orientarão daqui para frente, exclusivamente, pela bússola dos seus “interesses nacionais”, abrindo mão da condição de árbitros de todos os grandes conflitos mundiais.

Mas atenção, porque os EUA seguem se considerando um “povo escolhido”, com a certeza de que seus valores nacionais não são exclusivos, mas são superiores aos de todos os demais povos do mundo. Eles abdicam da função de defensores e árbitros da “ética internacional”, mas em troca assumem plenamente sua condição e seu objetivo de “império militar” com projeção global. Numa competição permanente e sem árbitros, onde todas as alianças e guerras são possíveis, em qualquer momento e lugar. E onde sua moeda, sua finança e suas sanções econômicas são assumidas, plenamente, como instrumento de poder, e como arma de guerra. Por isso, da parte dos EUA, o que se deve esperar daqui para frente, é uma estratégia de guerra de movimento, com a prática recorrente do “bullyng militar” contra seus adversários, e contra os aliados de seus adversários, obrigando-os à uma corrida tecnológica e militar defensiva sem precedente histórico.

Esta nova estratégia dos EUA pode ser revertida? É muito difícil de dizer, porque ela é o produto de uma luta interna que ainda não acabou. O mais provável, entretanto, é que se mantenha no futuro, a menos de uma mudança na “configuração de força” mundial. O problema é que para que ocorra esta mudança, as demais potências terão que seguir a mesma cartilha dos americanos, e este é um caminho que aponta, inevitavelmente, para um horizonte de “guerra infinita”.

 

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