Skate no espaço do Museu de Arte Moderno (MAM) do Rio de Janeiro

Desde os anos 1990, o skate tornou-se uma realidade presente na maioria das grandes cidades do Brasil. Neste artigo da Revista e-metropolis nº 27, Nelson Diniz e Luciano Hermes da Silva analisam a prática do skate de rua no contexto da ressignificação e subversão criativa das formas e dos equipamentos urbanos (contrauso skatista). O skate de rua não se realiza em espaços separados daqueles da vida cotidiana. Desse modo, sua permeabilidade, isto é, sua presença nas ruas, praças e calçadas constitui-se, na maior parte das vezes, em atividade “clandestina” e, por isso mesmo, passível de repressão.

Este artigo pretende estabelecer uma análise comparativa de casos particulares de apropriação de espaços públicos por skatistas na cidade do Rio de Janeiro, buscando demonstrar, antes de tudo, que a reflexão sobre esse tema marginal, pouco desenvolvido ou mesmo negligenciado por sua “menor importância”, permite compreender conflitos mais gerais relativos à apropriação e à produção social do espaço.

Segundo os autores, a reflexão sobre o tema possibilita compreender aspectos mais gerais dos conflitos relativos à apropriação e à produção social do espaço e que, dependendo dos contextos e interesses envolvidos, o skate pode ser visto desde prática reprimida e intolerada a uma prática absolutamente aceita nos movimentos mais amplos de promoção da cidade.

Abstract: Since the 1990s, skateboarding has become a present reality in most major cities in Brazil. This article aims to discuss the practice of street skating in the context of reinterpretation and creative subversion of shapes and urban equipment (skateboarders’ counter use). The street skating is not carried out in separate areas from those of everyday life. Thus, its permeability, that is, your presence on the streets, squares and sidewalks is constituted, in most cases, in “underground” activity and, therefore, liable to prosecution. Given these potential conflicts, this article aims to establish a comparative analysis of particular cases of public spaces appropriation by skateboarders in the city of Rio de Janeiro. Seeks to demonstrate, first of all, that reflection on this theme marginal, underdeveloped or neglected by their “less importance” allows us to understand more general disputes concerning the appropriation and social production of space.

EDIÇÃO 27

Revista eletrônica e-metropolis é uma publicação trimestral que tem como objetivo principal suscitar o debate e incentivar a divulgação de trabalhos, ensaios, resenhas, resultados parciais de pesquisas e propostas teórico-metodológicas relacionados à dinâmica da vida urbana contemporânea e áreas afins.

É direcionada a alunos de pós-graduação de forma a priorizar trabalhos que garantam o caráter multidisciplinar e que proporcionem um meio democrático e ágil de acesso ao conhecimento, estimulando a discussão sobre os múltiplos aspectos na vida nas grandes cidades.

INTRODUÇÃO: SKATISTA DE ESPAÇOS PÚBLICOS

Por Nelson Diniz e Luciano Hermes da Silva

A prática do skate data de pouco mais de meio século. De acordo com Howell (2001), Borden (2003) e Machado (2014), sua origem se deve à retirada dos guidões dos patinetes por surfistas californianos, na segunda metade da década de 1950. Isto é, os primeiros skates foram produzidos de maneira artesanal, constituindo-se em meros brinquedos para andar sobre calçadas e áreas livres de trânsito de veículos e pessoas. Nos anos 1960, o skate passou a ser praticado em piscinas de casas abandonadas, reproduzindo manobras do surf e tornando-se uma alternativa para os dias sem ondas (ZARKA, 2011).

A partir dos anos 1970, em virtude da popularização do skate e do constante aperfeiçoamento dos materiais utilizados em sua fabricação, difundiram-se, a princípio nos Estados Unidos, as pistas de skate (BORDEN, 2003). Desta maneira, dos “espaços encontrados” o skate passou a ser praticado também em “espaços construídos” (BORDEN, 2003, p. 29-57). Apesar de as pistas de skate se constituírem em espaços de confinamento e domesticação (ZARKA, 2011), ainda de acordo com Borden (2003), foi nesses “espaços da superarquitetura” (p. 89) que se tornou possível o aprimoramento das técnicas de realização de manobras. Se, até a década de 1970, o skate se resumia à repetição dos movimentos do surf fora d’água, com a construção dos skateparks, passou a se orientar por uma constante evolução própria.

A invenção de um movimento específico é considerada a revolução na história da prática do skate. Tal movimento chama-se ollie. Esta manobra fez com que, definitivamente, o skate deixasse de ser uma extensão do surf, possibilitando aos skatistas experimentar qualquer tipo de terreno pavimentado.

Uma vez que se tornara possível transpor diversos obstáculos, decolando com o skate sob os pés, e que, nos Estados Unidos, as skateparks deixavam de ser investimentos rentáveis (BORDEN, 2003, p. 174), a alternativa encontrada pelos skatistas do início dos anos 1980 foi levá-lo para as ruas, calçadas e praças – utilizando-se de toda sorte de elementos arquitetônicos para a realização das manobras. Iniciava-se, assim, a prática do skate de rua.

A despeito de seu desdobramento em diversas modalidades, o street skate ou skate de rua expressa melhor os fundamentos dessa prática. Para Zarka (2011):

Apesar de existirem inúmeros espaços criados expressamente para a prática do skate (skateparks), trata-se acima de tudo de uma atividade urbana. Mais precisamente, é uma prática “do urbano”, no sentido de que o seu terreno é realmente a cidade, ou pelo menos uma reinterpretação da diversidade de materiais e formas da cidade (p. 114, tradução nossa).

Portanto, o skate de rua é uma forma de reapropriação dos espaços urbanos, mais precisamente dos espaços públicos. Reapropriação semelhante aos modos de operação, esquemas de ação ou maneiras de fazer, tal como definidos por Certeau (2013): “práticas pelas quais usuários se reapropriam do espaço organizado pelas técnicas da produção sociocultural” (p. 41). Para Certeau (2013), diante dos produtos impostos por uma ordem dominante (econômica, urbanística etc.), os usuários elaboram criativamente suas próprias maneiras de empregar esses produtos. Exatamente o que fazem os skatistas. Conforme Machado (2014):

[…] um corrimão não serve somente para dar segurança a quem utiliza uma escada, mas também para ser deslizado com o skate. Uma escada não é apenas para se passar de um nível ao outro, mas para ser pulada. Uma escultura não é só para ser olhada e apreciada, mas, ao contrário, pode servir como uma inclinação propícia para manobras. Os exemplos se estendem aos bancos, às bordas, às placas de trânsito, etc. Portanto, ao circular pelos espaços urbanos e ao ressignificar as finalidades atribuídas aos seus respectivos equipamentos, a cidade ganha novos contornos (p. 31).

Ao servir-se da inclinação de uma escultura, pular uma escada ou deslizar sobre um corrimão, os skatistas afirmam sua criatividade, sua experiência singular das formas e dos equipamentos urbanos. Os usos que fazem do espaço geométrico dos arquitetos e urbanistas retira daí efeitos imprevistos. À subversão dos usos previsíveis das formas e do mobiliário urbanos chamamos contrauso skatista.

Existem outros modos de operação ou esquemas de ação que expressam, igualmente, as maneiras como os skatistas produzem a ressignificação material e simbólica dos espaços públicos. Machado (2014) refere-se, por exemplo, à busca consciente dos espaços suscetíveis à prática do skate de rua. Segundo o autor:

Outro elemento lúdico da prática do street skate é justamente a procura por picos. Logo, sempre que possível, é importante circular por vários desses espaços. Entretanto, a procura por lugares skatáveis não se dá somente ao acaso. Ciente de suas habilidades em cima do “carrinho”, os skatistas vão ao encontro daqueles obstáculos com os quais mais se identificam (p. 114).

Outro exemplo diz respeito às formas como os skatistas nomeiam esses espaços. Sobre a polissemia do termo nativo pico, Machado (2011) afirma que:

Para a maioria dos paulistanos, o termo “pico” pode fazer referência a uma situação intensa e conturbada (por exemplo, o horário de “pico” no trânsito). Já para os skatistas, pico é um termo nativo que evoca espaços compostos por equipamentos urbanos, que se tornam obstáculos nos quais são realizadas as manobras. Também definido pelos skatistas como lugares skatáveis, para que um equipamento seja considerado um pico, ele deve estar associado a uma série de características que permitam a prática do skate (p. 111).

É comum entre skatistas nomear os lugares, as formas e os equipamentos urbanos a partir de um léxico próprio – em geral ignorado por não iniciados. Por exemplo, na Praça XV de Novembro, no centro do Rio de Janeiro, a Estátua Equestre do Rei Dom João VI é denominada simplesmente como “Cavalo” pelos skatistas locais. Nas imediações da praça, os mesmos reconhecem a fachada de um prédio comercial como “Mortal Kombat”.

Por último, destaca-se o modo como os skatistas apropriam-se dos espaços públicos modificando-os à sua maneira. Trata-se do Do it Yourself (DIY). Compreende-se o DIY como manifestação da criatividade característica do skate de rua e que extrapola a definição de contrauso skatista acima apresentada. De acordo com Charest (2014):

A cultura DIY no skate, que surgiu em grande parte da intensificação da prática nas ruas, na década de 1990, é definida pela capacidade que os skatistas têm de identificar e criar espaços interessantes para a prática. Para o desconforto de proprietários e de administradores de espaços públicos, isso muitas vezes significa transformar, por exemplo, bordas e bancos em locais de frequentação regular de skatistas. A cultura DIY skatista, desde então, evoluiu a partir da ideia de que skatistas devem sair e encontrar algo apropriado para a prática do skate (embora esta ainda seja uma das principais características da prática do skate) a um movimento global que é definido mais por um desejo de recuperar e remodelar espaços públicos através da autoconstrução de objetos que possibilitem a prática do skate, bem como a execução de manobras. Estes espaços são na maioria das vezes abandonados ou subutilizados (tradução nossa).

O DIY diz respeito não apenas à subversão dos usos das formas e dos equipamentos urbanos, mas à inscrição, de maneira mais ou menos permanente, de novos elementos nos espaços apropriados – rampas, corrimãos, palcos, tablados, elevações etc. Espaços públicos subutilizados transformam-se em lugares de encontro intensamente frequentados por skatistas, que lhes atribuem novos sentidos e qualidades materiais. Como se verá adiante, a apropriação skatista desses espaços não ocorre sem tensões e conflitos.

Leia o artigo completo na edição nº 27 da Revista eletrônica e-metropolis.

Leia também: Territórios da Radicalidade (e-metropolis nº 17)