Desigualdade Digital nas Metrópoles

Pesquisa do INCT Observatório das Metrópoles, coordenada pelo professor Luiz Cesar de Queiroz Ribeiro, mostra que o acesso as chamadas Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs) – mais precisamente o acesso ao microcomputador e à internet – são influenciadas pela posição social dos indivíduos e pelo território onde vivem. O levantamento, realizado pela primeira vez no país, aponta que 54% dos domicílios no Brasil metropolitano ainda não possuem microcomputador e que domicílios de menor renda, localizados em favelas e/ou periferias metropolitanas se encontram em desvantagem no que se refere ao acesso e capacidade de uso dessas tecnologias.

O trabalho “A Reprodução Digital das Desigualdades: acesso e uso da internet, posição de classe e território”, de autoria do professor Luiz Cesar de Queiroz Ribeiro, e dos pesquisadores André Salata, Lygia Costa e Marcelo Gomes Ribeiro, faz parte do projeto “Organização Social do Território Metropolitano”, financiada pelo Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) do CNPq. Tomando como ponto de partida a disseminação dos equipamentos e meios de uso das TICs, que promovem amplo acesso dos indivíduos a condições de maior participação social, política e econômica, os pesquisadores tentaram avaliar em que medida o acesso a principal dessas tecnologias – a internet – é condicionado pelas históricas desigualdades nacionais, resultantes da estratificação da sociedade e da segmentação territorial.

A investigação definiu duas variáveis relacionadas às TICs: primeiro tomando como variável dependente a posse de microcomputador e, em seguida, o acesso à internet. “Ao fazermos a revisão bibliográfica, percebemos que muitos estudos se dedicaram, num primeiro momento, à posse do computador e, posteriormente, ao acesso à internet. Porém, este fato está relacionado com a popularização do microcomputador nos países economicamente mais avançados. No Brasil, verificamos que ainda há uma imensa parcela da população que se encontra ‘desconectada’, portanto a posse de microcomputador é extremamente relevante para se entender a estratificação do acesso à internet”, afirma o professor Luiz Cesar Ribeiro.

Os dados utilizados para a análise foram provenientes da Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílios (IBGE), que desde 2001 fornece informações a respeito da posse de computadores e conexões de Internet. Dessa maneira, os pesquisadores tiveram à disposição dados que cobrem quase a última década inteira (2001-2009), período marcado por transformações importantes no mercado de trabalho e distribuição de renda. Além disso, o recorte adotado foi o Brasil Metropolitano, entendido como o conjunto das regiões metropolitanas pesquisadas pela PNAD: Belém, Fortaleza, Recife, Salvador, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo, Curitiba, Porto Alegre e Brasília (apenas DF).


Fonte: PNAD/IBGE, 2001 e 2009. Elaboração Observatório das Metrópoles.

Portanto nos últimos anos houve um crescimento considerável da proporção de domicílios com microcomputador e internet no Brasil Metropolitano. Por outro lado, quase 54% dos domicílios continuavam sem ter microcomputador em 2009. E dos domicílios que tinham computador, mais de 15% ainda estava sem internet.


Fonte: PNAD/IBGE, 2001 e 2009. Elaboração Observatório das Metrópoles.

 

A pesquisa mostrou que o mais grave, no entanto, é que esses percentuais não se distribuem uniformemente pelas diferentes camadas sociais; há grandes desigualdades nas oportunidades de acesso a essas tecnologias. Analisando em termos de distância entre os setores mais ricos e mais pobres da população, o acesso as TICs ainda é bem maior nos grupos de renda mais alta dos domicílios metropolitanos.

Segundo os gráficos abaixo, no ano de 2001 59,6% dos domicílios no quintil mais rico da população (Q5) possuíam computadores; em 2009 esse percentual subiu para 86,3%. Para o quintil mais pobre (Q1) esses percentuais ficaram em 1,6% em 2001 e 13,6% em 2009.


Fonte: PNAD/IBGE, 2001 e 2009. Elaboração Observatório das Metrópoles.

Com relação ao acesso à Internet – dada a posse de computador – também é possível notar grandes desigualdades. Em 2001, 81,2% dos domicílios no quintil mais rico da população, que possuíam computador, tinham também acesso a internet (gráfico abaixo); em 2009 esse percentual subiu para 93,8%. Para o quintil mais pobre esses percentuais ficaram em 58% em 2001 e 63,7% em 2009.


Fonte: PNAD/IBGE, 2001 e 2009. Elaboração Observatório das Metrópoles.

Os dados mostram que, nos últimos anos, houve um aumento significativo de acesso a computador e internet, para todos os quintis de renda. Além disso, em termos proporcionais foram os quintis mais pobres aqueles que mais aumentaram seu acesso a essas tecnologias, o que pode estar relacionado ao aumento do montante de renda dessas camadas nos últimos anos. No entanto, a análise aponta que ainda há grandes desigualdades nas oportunidades de acesso a computador e internet entre os setores mais ricos e mais pobres da população. . Dessa forma, o leque de oportunidades econômicas, políticas e sociais abertas pelo acesso às TICs tem se concentrado nos setores mais privilegiados da sociedade brasileira.

A desigualdade digital em relação ao território

Em relação às variáveis do território, os pesquisadores compararam a relação de domicílios com computador no núcleo e na periferia – municípios que compõem a região metropolitana. Os dados mostraram que em 2001, o percentual era de 24,9% para o núcleo, e 13,3% para a periferia; em 2009, esse valor sobe para 51,5% e 38,5%, respectivamente.


Fonte: PNAD/IBGE, 2001 e 2009. Elaboração Observatório das Metrópoles.

Com relação ao acesso à Internet – dada a posse de computador – também é possível notar diferenças. Em 2001, 76,2% dos domicílios, que possuíam computador, tinham também acesso a internet (gráfico abaixo); em 2009 esse percentual subiu para 86,9%. Para a periferia esses percentuais ficaram em 65,3%% em 2001 e 75,7% em 2009.


Fonte: PNAD/IBGE, 2001 e 2009. Elaboração Observatório das Metrópoles.

Ao usar as variáveis favela e não-favela, a pesquisa mostrou, a partir dos dados da PNAD, que em 2001 3,3% dos domicílios das favelas possuíam computador, sendo que esse número sobe para 24,5% em 2009. Em relação ao território denominado não-favela, a porcentagem é de 21,4% (2001) e 48,1% (2009).


Fonte: PNAD/IBGE, 2001 e 2009. Elaboração Observatório das Metrópoles.

Já em relação ao acesso à internet, dos domicílios que possuem computador nas favelas 51,3% tinha acesso em 2001; percentual que sobe para 71,3% em 2009. O fato de o domicílio se localizar em favela reduz sua chance de ter computador em 37%; por outro lado, o fato de o domicílio se encontrar no núcleo, e não na periferia da metrópole, aumenta essa chance em 24%. Portanto os moradores de periferia e, principalmente, das favelas, têm menor chance de possuírem computador.

A pesquisa aponta como uma das causas dessa desigualdade o contexto gerado pela concentração espacial de uma população em desvantagem. É possível que o isolamento social da população moradora de periferias e, particularmente, de favelas, ao colocar em contato famílias de nível sócio-econômico próximo, crie um meio-social desvantajoso, onde a posse de computador não seja tão valorizada como em outros contextos sociais.

Esse resultado é coerente com já obtidos em outras pesquisas realizadas pelo Observatório na qual se constatou, empiricamente, os efeitos da concentração territorial de população com desvantagens posicionais e situacionais na ampliação destas desvantagens. Seria a manifestação do efeito do lugar. Por outro lado, resultados como a menor chance de acesso à internet para os moradores de periferias podem ser interpretados pela escassez de oferta desses serviços em localidades mais distantes dos núcleos metropolitanos.


Fonte: PNAD/IBGE, 2001 e 2009. Elaboração Observatório das Metrópoles.

Conclusões

A pesquisa “A reprodução digital das desigualdades: acesso e uso da internet, posição de classe e território”, será apresentada no 35º Encontro anual da ANPOCS, dentro do GT – Desigualdade e Estratificação Social. O trabalho, além das análises descritivas mencionadas acima, tenta apresentar explicações das desigualdades tanto referentes à posse de microcomputador nos domicílios quanto para o acesso à internet, a partir das categorias sócio-ocupacionais e outras variáveis relativas às desigualdades sociais. Além disso, procura analisar os tipos de uso realizados pelos usuários da internet.

Acesse a programação completa do Encontro da ANPOCS aqui.

Os resultados divulgados pelo boletim Observatório das Metrópoles mostram que, em primeiro lugar, ainda há uma grande desigualdade de acesso e capacidade de uso da internet no Brasil Metropolitano, com certas posições sociais concentrando este acesso e capacidade em suas mãos. Pode-se perceber que, apesar do aumento do número de domicílios nas metrópoles com computadores e com computadores e acesso a internet, os indicadores revelam que grande parte da população ainda está excluída deste processo.

Vê-se que no Brasil Metropolitano o acesso à internet para os grupos menos abastados ainda é, em grande parte, impossibilitado pela não existência de um microcomputador no domicílio, diferente do que se verifica em países de economia mais avançada. Ou seja, mais do que a conexão à internet em si, a posse do computador no Brasil Metropolitano ainda é uma grande barreira a ser derrubada.

Última modificação em 05-10-2011

 

 

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