Metropolização da riqueza

Os pesquisadores Marcelo Ribeiro e Filipe Corrêa, do Observatório das Metrópoles, mostram no artigo “Metropolização da riqueza” que as Metrópoles Brasileiras continuam tendo papel relevante na geração de riqueza do país, mantendo o mesmo patamar desde 2005. Apesar de não recuperar a participação do começo da década, o conjunto dos aglomerados urbanos com características metropolitanas – o chamado Brasil Metropolitano – foi responsável, em 2009, por 52,2% da participação no PIB nacional. A pesquisa faz parte do projeto “Organização social do território metropolitano”, financiado com recursos do programa Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT).

METROPOLIZAÇÃO DA RIQUEZA
Marcelo Gomes Ribeiro*
Filipe Souza Corrêa**

Na semana anterior o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou o PIB dos municípios de todo o país. A imprensa de modo geral repercutiu essas informações comparando o desempenho que cada município teve em relação a períodos anteriores, destacando os municípios que aumentaram sua participação no PIB nacional e aqueles que tiveram sua participação reduzida.

Apesar de importante a análise comparativa dos municípios, esse exercício analítico pode obscurecer, ao contrário de esclarecer, a dinâmica da economia local, sobretudo, quando se trata do desempenho econômico de municípios que estão inseridos em contextos metropolitanos.

Municípios que fazem parte de aglomerados urbanos, principalmente quando esses aglomerados cumprem funções metropolitanas, não podem ser avaliados de modo isolado, como se o resultado das suas condições econômicas, sociais e mesmo política fosse decorrente apenas do que ocorre internamente em suas fronteiras.  Ao contrário, para estes municípios o olhar precisa ser relativizado por decorrência das múltiplas interações que eles estabelecem entre si.

Não é possível, portanto, analisar o comportamento econômico de Ananindeua desconsiderando a sua inserção na região metropolitana de Belém, ou o comportamento de São José dos Campos sem considerar a região metropolitana de São Paulo. O mesmo vale para Duque de Caxias que está inserido na região metropolitana do Rio de Janeiro, ou ainda Contagem que participa da região metropolitana de Belo Horizonte. Os exemplos se multiplicam quando verificamos cada um dos aglomerados urbanos do país que possuem função metropolitana.

Em estudo realizado com os dados do censo demográfico de 2000 do IBGE e de outras fontes , o Observatório das Metrópoles analisou a rede urbana brasileira, onde pode identificar 37 grandes espaços urbanos (GEUB), dos quais apenas 15 apresentavam características propriamente metropolitanas, pela importância desempenhada mundial, nacional ou regionalmente . Essas 15 metrópoles correspondem, portanto, a aglomerados de municípios que concentram funções que polarizam o território em diversas escalas por concentrar funções de poder econômico e político.

PIB Metropolitano: uma visão de conjunto

Ao considerar o conjunto dos aglomerados urbanos com características metropolitanas, que estamos chamando de Brasil Metropolitano, percebemos que sua participação no PIB nacional, em 2009, era de 52,2%, o que demonstra a importância das metrópoles do Brasil para seu desempenho econômico, uma vez que correspondeu em mais da metade da geração de riqueza do país como um todo, como podemos observar no gráfico 1.
Apesar de ter apresentado aumento na participação em relação a 2008, a participação do Brasil Metropolitano apenas recuperou o patamar existente desde 2005. Mesmo assim, a participação verificada no período 2005-2009 foi inferior ao que se verificou no começo da década, quando o Brasil Metropolitano apresentou patamar superior a 54% na participação do PIB nacional. De qualquer modo, podemos considerar que ocorreu uma relativa estabilidade na participação do Brasil Metropolitano no PIB nacional, configurando uma posição importante na geração de riqueza do país de modo sustentado.

Gráfico 1
Brasil Metropolitano: Participação no Produto Interno Bruto a preços de mercado
1999 a 2009

Quando verificamos o PIB do Brasil Metropolitano a preços de mercado  segundo o setor de atividade econômica, como demonstrado no gráfico 2, observamos que o setor com maior participação ao longo de todo o período analisado é o setor de serviços, que registrou em quase todos os anos participação superior a 60%. Desde 2004, esse setor tem apresentado comportamento de elevação na participação do PIB do conjunto das metrópoles brasileiras.

O segundo setor mais importante para o Brasil Metropolitano diz respeito ao setor industrial, que apresentou em todos os anos participação no PIB a preços de mercado do conjunto das metrópoles sempre superior a 20%. Por outro lado, o setor agropecuário, apesar de manter patamar similar em todos os anos na participação do PIB a preços de mercado do Brasil Metropolitano, não apresenta muita importância para a economia das metrópoles brasileiras, uma vez que sua participação fica sempre em torno de 4%.

Gráfico 2
Brasil Metropolitano: Participação do Setor de Atividade Econômica no Produto Interno Bruto a preços de mercado – 1999 a 2009

Quando analisamos o comportamento do Brasil Metropolitano no setor de serviços em relação ao país como um todo, observamos que as metrópoles brasileiras ganharam certa estabilização na participação do setor de serviços desde 2005, quando sua participação ficou em torno de 56%, o que ocorreu depois uma acentuada redução verificada no período de 1999 a 2004, conforme gráfico 3. Mesmo assim, podemos verificar a importância das metrópoles brasileiras na geração de riqueza nesse setor, haja vista que sua participação é de mais da metade da riqueza produzida no país.

Essa redução do setor de serviço é acompanhada de diminuição da participação do Brasil Metropolitano na atividade econômica de administração pública, integrante daquele setor, como podemos observar no gráfico 4, que apresenta comportamento do sub-setor de atividade econômica administração pública ao longo da primeira década do século XXI, apesar de essa redução da administração pública ter se dado num patamar muito inferior que o verificado para o conjunto do setor de serviço.

Gráfico 3
Brasil Metropolitano: Participação no Setor de Serviço
1999 a 2009

Gráfico 4
Brasil Metropolitano: Participação no Setor de Administração Pública
1999 a 2009


A participação do Brasil Metropolitano no setor industrial, depois de apresentar redução sistemática ao longo da primeira década do século XXI, voltou a apresentar elevação em 2009, atingindo 47,2%, com participação semelhante ao que se verificava em 2005, quando o conjunto das metrópoles do Brasil apresentou participação de 47,7%.  De qualquer modo, esses dados demonstram a importância das metrópoles brasileiras para a produção industrial do país, tendo em vista que sua participação é próxima da metade, conforme se vê no gráfico 5.

Gráfico 5
Brasil Metropolitano: Participação no Setor Industrial
1999 a 2009

 

Nessa visão de conjunto, podemos considerar a importância do Brasil Metropolitano para a geração de riqueza na economia nacional, tanto referente ao setor de serviços – e ao seu sub-setor de administração pública –, quanto referente ao setor industrial, o que confere certa centralidade às metrópoles brasileiras no desempenho econômico do país. Vejamos, agora, como se dá o comportamento de cada uma das metrópoles.

PIB Metropolitano: comparação entre as metrópoles

Mesmo reconhecendo a importância econômica das metrópoles brasileiras, como vimos na seção anterior, há que considerar diferenças importantes entre elas, observadas, sobretudo, em relação à sua estrutura econômica. Essas diferenças são destacadas quando verificamos a participação de cada uma dessas metrópoles no PIB do Brasil Metropolitano ou quando analisamos a importância de cada um dos setores de atividade econômica para cada uma das metrópoles.

A região metropolitana de São Paulo, por exemplo, é a que possui a maior participação relativa no PIB do Brasil Metropolitano. Sozinha, essa metrópole é responsável por mais de 1/3 do PIB Metropolitano, apesar de em 2009 ter apresentado participação relativa um pouco inferior ao que se registrou no começo da série histórica analisada, como podemos observar no gráfico 6.

Em segundo lugar destaca-se a região metropolitana do Rio de Janeiro, com participação menor que a participação de São Paulo. Apesar de ter apresentado aumento em 2009, se comparado com o ano de 2008, o comportamento apresentado por esta metrópole entre 1999 e 2009 foi de pequeno declínio. Com comportamento semelhante, Brasília apresentou a terceira maior participação no PIB Metropolitano, em 2009, apesar de ter reduzido sua participação em relação ao ano inicial da série histórica.

Das demais regiões metropolitanas com participação superior a 5%, em 2009, observamos que Porto Alegre acompanhou o comportamento verificado nas metrópoles já referidas, e Belo Horizonte e Campinas foram as regiões metropolitanas que apresentaram desempenho de elevação da participação no PIB Metropolitano.

Gráfico 6
Participação de cada região metropolitana no PIB Metropolitano
1999 a 2009

Para analisar a evolução da participação dos setores de atividade econômica de cada uma das regiões metropolitanas, podemos observar na tabela 1 a estrutura econômica para os anos de 1999 e 2009. De modo geral, o setor de atividade econômica com maior participação em todas as regiões metropolitanas é o setor de serviços. Porém, ainda que isso prevaleça, há diferenças de importância do setor de serviços entre as regiões metropolitanas.

Brasília, por exemplo, é a metrópole com maior participação do setor de serviço. Essa participação é, em grande medida, decorrente do sub-setor de administração pública, que ao aumentar sua importância entre 1999 e 2009 colaborou para que a redução do setor de serviços não fosse ainda maior.
Belém e Rio de Janeiro também apresentam participação elevada no setor de serviços, apesar de em ambas as metrópoles ter havido redução dessa participação entre os anos de 1999 e 2009. Mesmo assim, o sub-setor de administração pública apresentou elevação da participação no PIB consideradas as duas regiões metropolitanas.

Tabela 1: Participação do Setor de Atividade Econômica no PIB a preços de mercado de cada Região Metropolitana¹ – 1999 e 2009

Das metrópoles com a menor participação no setor de serviços destacam-se Manaus e Vitória. Porém, enquanto Manaus apresentou redução da participação nesse setor, entre os anos de 1999 e 2009, o que pode ter decorrido do crescimento do setor industrial, em Vitória houve crescimento da participação do setor de serviço e correspondente redução do setor industrial.

Com raras exceções, o comportamento da participação de cada uma das regiões metropolitanas foi de crescimento no setor industrial entre os anos de 1999 e 2009. Curioso é observar que a maior metrópole do país e a mais industrial – São Paulo – apresentou redução da participação nesse setor, que implicou aumento da participação do setor de serviços.

Outras metrópoles com características industriais, como Belo Horizonte, Campinas, Porto Alegre e Salvador, apresentaram crescimento no setor industrial entre os anos de 1999 e 2009. E em todas elas houve redução, mesmo que pequena, do setor de serviços.

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O Observatório das Metrópoles apresentou uma hierarquização e classificação dos espaços urbanos brasileiros utilizando variáveis como tamanho da população, número de agências bancárias, massa de renda, volume de transações financeiras, localização das 500 maiores empresas, e número de passageiros de transporte aéreo. A partir desse conjunto de variáveis foi possível identificar as quinze grandes aglomerações urbanas no Brasil que exerciam funções metropolitanas como concentração populacional, centralidade na dinâmica territorial, inserção na chamada “nova economia”, e capacidade de direção e de gestão pública (Moura, R. [et al.]; organizador Luiz Cesar de Queiroz Ribeiro. Hierarquização e identificação dos espaços urbanos, Rio de Janeiro: Letra Capital: Observatório das Metrópoles, 2009).

Os GEUBs que apresentam função metropolitana, aqui chamado de Brasil Metropolitano, são: Belém, Belo Horizonte, Brasília, Campinas, Curitiba, Florianópolis, Fortaleza, Goiânia, Manaus, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador e Vitória.

3 A designação do PIB a preços de mercado refere-se aos valores adicionados brutos de cada setor de atividade econômica acrescentado de impostos menos os subsídios.

* Pesquisador do Observatório das Metrópoles, Doutorando em Planejamento Urbano e Regional – IPPUR/UFRJ.

** Pesquisador do Observatório das Metrópoles, Mestre em Planejamento Urbano e Regional.

 

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