Skip to main content
Uma etnografia da rua (imagem ilustrativa)

Uma etnografia da rua (imagem ilustrativa) | Crédito Revista Revue/Reprodução

A entrevista da edição nº 29 da Revista e-metropolis é com a socióloga francesa Pascale Pichon. Pioneira em estudos sobre os fenômenos do viver na rua, ela analisa os diversos elementos do fazer das Ciências Sociais: a escolha por um campo temático, a aproximação a um fenômeno percebido e sua problematização conceitual, a definição das categorias analíticas, as escolhas metodológicas, as experiências em responder a editais de financiamento de pesquisas. A entrevista conta ainda com as abordagens de Pichon sobre a cooperação entre estudiosos do urbano, arquitetos, artistas, designers e fotógrafos. Por fim, comenta o relacionamento de pesquisadores com a mídia, tema pouco discutido nas ciências sociais.

Pascale Pichon é socióloga, professora da Université Jean Monnet, na cidade francesa de Saint-Étienne, onde concedeu a entrevista em novembro de 2015. Pioneira em pesquisar o fenômeno do viver na rua, seu percurso profissional e seus escritos se confundem com a trajetória dos estudos sobre o tema na França e na Europa. Na entrevista, ela relembra seus primeiros trabalhos de observação etnográfica de um albergue noturno e da mendicância. Menciona as influências que recebeu, tanto pelas leituras de Foucault, Goffmann e Becker, quanto de Isaac Joseph, seu orientador de tese e um dos responsáveis pela disseminação na França dos estudos da Escola de Chicago.

EDIÇÃO Nº 29

ENTREVISTA — PASCALE PICHON


Os seus trabalhos de pesquisa estão mais concentrados nos temas do viver na rua, das questões sociais e do espaço público. Como ocorreram essas escolhas?

Pascale Pichon (PP): A sua pergunta me permite voltar à origem do meu trabalho de pesquisa, que sofreu certo número de inflexões ao longo dos últimos vinte e cinco anos. Minha escolha inicial era me dedicar à pesquisa de campo para tentar compreender a questão do viver na rua. Ao final dos anos 1980, na França, apenas se começava a falar dessa categoria de “novos pobres”: os sem domicílio fixo [SDF]. Eu tinha naquela época uma ideia precisa: queria realizar, para a obtenção do meu DEA (diploma que precedia a elaboração da tese de doutorado) uma monografia sobre o abrigo noturno em Saint-Étienne.

Nessa cidade de porte médio, que possui pouco menos de 200.000 habitantes, o abrigo noturno era um local de acolhida incondicional de pessoas sem moradia. Por que essa ideia para uma monografia? Porque eu estava influenciada pelos trabalhos de Michel Foucault e também pelos de Erving Goffman sobre a instituição total. Eu estava sensível a esses lugares institucionais de socorro – de atendimento geral como dizem hoje os profissionais do social – e à experiência social típica que ali se desenvolve quando se necessita ajuda para as necessidades da vida cotidiana, quando as escolhas da vida se reduzem e as sociabilidades são enquadradas pela instituição.

Eu tinha em mente a longa história do grande confinamento dos pobres que começou na França com o hospital geral e dos quais os abrigos noturnos guardam a memória e os traços. O abrigo noturno de Saint-Étienne tinha uma característica muito interessante porque foi, em sua origem, um anexo do hospital geral e depois se transformou em uma instituição independente de alojamento de urgência. Construído no final do século XIX, ele era fruto dessa história do grande confinamento, porém em seguida sua organização se transformou. Interessava-me compreender o que restava dessa história de acolhimento dos pobres, o que se mantinha na atualidade. Como as pessoas sem domicílio eram acolhidas? Qual hospitalidade lhes era oferecida na cidade? Era uma escolha muito pessoal ligada, sem dúvida, ao trabalho de assistente social que eu exercia então e aos estudos na universidade que eu fazia ao mesmo tempo. Foi igualmente uma opção metodológica de observação etnográfica no seio de uma instituição que eu não conhecia, apesar de estar localizada no centro da cidade a alguns passos da universidade de Saint-Étienne.

Submeti a proposta a Isaac Joseph, filósofo e sociólogo da Universidade de Lyon, eminente conhecedor e tradutor dos trabalhos de Erving Goffman e importante divulgador na França das teses da Escola de Chicago e a quem eu havia solicitado que fosse meu orientador de tese. Ele ficou muito interessado, porém com a condição de que eu não fizesse somente o DEA mas um trabalho de tese! Foi assim que fui “embarcada” na carreira de pesquisadora.

Ao longo dessa pesquisa – que eu diria exploratória e de iniciação – praticamente me instalei na instituição. A direção, os trabalhadores sociais e os voluntários que ali trabalhavam me aceitaram sem estabelecer nenhuma condição. Eu ia diversas vezes por semana, de dia e em noites inteiras. Ali comecei a perceber que o abrigo noturno não correspondia ao sistema de confinamento de uma instituição total, apesar de que uma grande quantidade de indivíduos ali permaneciam durante meses, às vezes anos. No entanto a maioria circulava por diferentes lugares, diferentes serviços, em busca de outros recursos econômicos e outros serviços no espaço público e nas instituições administrativas ou nas associações de caridade.

Comecei a acompanhar as pessoas em suas trajetórias cotidianas, às outras instituições e outros lugares de sobrevivência, ao hospital, na rua quando elas iam mendigar, nas moradias invadidas quando deixavam o abrigo, em outros alojamentos e outras associações com acolhimento diurno. Em Saint-Étienne a rede de associações tinha dimensão importante e as pessoas circulavam no interior dessa rede. Percebi rapidamente que para compreender a condição das pessoas que viviam na rua e sua experiência social eu precisaria desenvolver uma observação multissituada, com o objetivo de identificar e documentar situações muito diferentes.

O abrigo noturno era apenas um dos elos de um circuito que cada um se dedicava a personalizar vinculando-se mais a certos lugares de acolhida do que a outros. Chamei essa primeira pesquisa de campo de “A carreira, o pedir esmola e o abrigo”. Ao fazer referência à história do tratamento dos mais pobres, a pesquisa mostrou como se realiza o confinamento na época contemporânea, ou seja, não mais no interior de uma única instituição, mas dentro do circuito assistencial.

Abordei essa experiência social pela análise etnográfica das condições de vida das pessoas que estão na rua prioritariamente de seu ponto de vista e, de modo complementar, nas conversas e interações com os trabalhadores sociais, os voluntários das associações e as pessoas que passam nas ruas. Conforme os encontros e algumas possibilidades de escolha, as pessoas construíam seu ambiente, formado por lugares, instituições, percursos na cidade (ou entre várias cidades), nos quais os vínculos com os lugares e as pessoas tomavam consistência biográfica.

Mobilizei, na linha teórica do interacionismo, a noção de carreira, que associei à ideia de sobrevivência para forjar a noção de “carreira de sobrevivência”. Isso permite apreender o movimento instável, frágil, da vida vivida por etapa, o fio de iniciações, experimentações e experiências de não ter onde morar, sem um habitat estável, quando se “navega” entre rua e assistência. Eu queria compreender e tornar públicas essas “linhas biográficas”, para retomar os temos de Robert Castel e Ruwen Ogien nas suas análises sobre as saídas da toxicomania.

Na condição de moradores de rua, como as pessoas conseguiam sobreviver, estando ou não inseridas em redes coletivas formais (as instituições, os trabalhadores sociais, os companheiros da rua, as pessoas que fazem doações nas ruas) e contando apenas com ligações frágeis ou frouxas? Não possuindo recursos materiais, ou muito poucos, a maioria vivendo em um estado de privação econômica quase absoluto, muitos desses homens estavam desempregados, com frequência sem qualificação de trabalho, se viravam para fazer “bicos” em mercados, na retirada de neve das ruas no inverno, na colheita de uva no outono etc. Havia muito poucas mulheres no abrigo porque elas eram, com frequência, acolhidas em outros locais especializados ou se beneficiavam de uma rede familiar mais eficiente.

Essa primeira pesquisa etnográfica me permitiu, portanto, identificar os “marcos de experiência” das pessoas que viviam na rua que construíam suas carreiras com suas etapas típicas, seus lugares incontornáveis, com instituições hierarquizadas, conforme os serviços oferecidos e sua qualidade de acolhida, formando uma rede. Como as pessoas conduziam sua carreira de sobrevivência na rua? Com quais restrições e quais possibilidades de projeções de futuro? Como elas conduziam suas atividades de sobrevivência, de modo individual ou coletivo? Como se manifestavam as articulações entre o pertencimento – mesmo frágil – a coletivos e as mobilidades individuais? Como se revelavam as possibilidades de viver na cidade, em quais lugares, em relação com quais instituições benevolentes ou, ao contrário, excludentes?

Sem querer responder a todas as perguntas, essa primeira pesquisa foi realmente pioneira porque permitiu, em seguida, desenvolver na França um programa de pesquisa. Isaac Joseph, meu orientador de tese, era conselheiro científico do Plan Urbain. Esse organismo de pesquisa e experimentação nacional, situado em Paris e dependente do Ministério do Equipamento e da Habitação atualmente se denomina Plan Urbain Construction et Architecture (PUCA). Ele permitiu o início de um programa nacional de pesquisa sobre o morar na rua. Era uma questão nova de investigação, poucos pesquisadores se interessavam por esse segmento da população, suas condições de vida, as consequências políticas dessa questão social e ao mesmo tempo urbana. Evidentemente existiam estudos sobre a precariedade e a exclusão, porém não havia trabalhos específicos sobre a questão “morar na rua”. Houve então um primeiro programa de pesquisa que se apoiou em parte sobre as grandes linhas dessas primeiras explorações.

 

Leia a entrevista completa de Pascale Pichon no site da Revista e-metropolis.