Sidney e Beijing: lições para o Rio Olímpico?

Urbanismo e Olimpíadas: transformações urbanas em Sydney (2000) e Beijing (2008)

O Rio de Janeiro está se preparando para sediar os Jogos Olímpicos de 2016 a partir de um plano de transformação urbana que pretende reposicioná-lo como uma das principais “cidades globais”; meta que tem sido buscada pelas cidades-sedes desde o exemplo profícuo de Barcelona (1992). Porém essa não tem sido a realidade em torno dos investimentos olímpicos. Em mais um resultado do Observatório das Metrópoles, Yumi Yamawaki faz uma análise histórica em seu trabalho de doutorado para mostrar que o legado deixado por Sydney (2000) e Beijing (2008) refere-se à atração de investimentos, atração de turistas e novos residentes – mas também na consequente expulsão de parte da população, e agravamento das diferenças sociais.

A tese “Urbanismo e Olimpíadas: análise das transformações urbanas nas cidades-sede de 2000 e 2008”, de Yumi Yamawaki, foi defendida em 13 de maio de 2013 dentro do Programa de Pós-Graduação em Gestão Urbana da PUC-PR. O trabalho é mais um resultado da Rede de Pesquisa INCT Observatório das Metrópoles.

De acordo com Yumi, o estudo parte da hipótese que os grandes eventos esportivos produzem transformações físicas e um legado urbanístico que redirecionam a dinâmica urbana de maneira diferenciada em cada cidade-sede, dependendo mais do histórico, estrutura e diretrizes de planejamento da própria cidade do que de eventuais modelos urbanísticos vinculados aos JO. Um dos fatores determinantes, nesse caso, é a forma como as estruturas esportivas e a infraestrutura de apoio foram distribuídas e como se integraram ao contexto urbano.

CONTEXTO HISTÓRICO DOS JOGOS

O final do século 20 foi caracterizado pela globalização econômica e cultural; pelo impacto da ciência baseada nas tecnologias da informação e comunicação; e pela reconstrução ideológica do capitalismo baseada no consumo e entretenimento, após o enfraquecimento do socialismo. As cidades passam a protagonizar o cenário internacional e competir entre si para tornarem-se centro de atração de investimentos. Para isso, crescem os argumentos de que é necessário construir uma imagem positiva e prover a cidade de espaços urbanos que reafirmem essas qualidades. A mídia passa a ter um papel fundamental na disseminação de ideias universais e as cidades tentam relacioná-las aos seus projetos urbanos.

Uma das formas de exposição mais efetiva é sediar grandes eventos internacionais e, dentre eles, os Jogos Olímpicos (JO) são os mais influentes, pois atraem a maior audiência televisiva e colocam em evidência valores e orgulhos nacionais. No entanto, significativos esforços são realizados para que a cidade seja escolhida como sede e, depois, para que seja preparada para receber o evento. O incremento populacional de turistas, atletas e equipes de apoio, exige investimentos em estruturas esportivas, infraestrutura, logística de transporte, segurança, treinamento, entre outros.

Para os cidadãos, mais importante que a exposição internacional concentrada em apenas quinze dias, é a forma como foram utilizados os recursos financeiros e que benefícios estes trarão no longo prazo. Nesse contexto, a forma como se intervém no espaço urbano tem um significativo impacto sobre o social. No entanto, à construção do espaço urbano é atribuída pouca importância, verificada pela escassez de artigos que analisam o legado morfológico das cidades-sede de grandes eventos internacionais.

Os JO, ao contrário da Copa do Mundo, elegem uma cidade como sede, o que resulta na maior concentração de investimentos e intervenções urbanas, que podem acelerar a realização de diretrizes preconcebidas ou redirecionar o processo de planejamento da cidade. Nesse contexto, os custos que envolvem sediar os JO são atualmente tão elevados que as cidades-sede podem justificar as despesas para propor um significativo programa de regeneração e melhorias (ESSEX; CHALKLEY, 1998, p. 187).

De acordo com a pesquisa, dentre as edições mais recentes, Barcelona, que recebeu as competições em 1992, foi a primeira sede dos JO a promover transformações urbanas com vistas a transmitir uma imagem positiva e, com isso, ascender seu grau de importância na hierarquia das cidades globais. No entanto, seria difícil mensurar os impactos desses projetos na cidade pós-jogos, pois foram realizadas sequencialmente outras intervenções que também refletiram na configuração da cidade.

“Em Atlanta e Atenas não houve transformações urbanas significativas. Atlanta por ter aproveitado estruturas existentes e investido pouco em infraestruturas, sendo o legado econômico o mais citado. Atenas tinha um plano de melhorias nas áreas centrais e expansão da rede de transporte, no entanto não foi concluída por ultrapassar o orçamento estimado. Em relação aos JO de Londres (2012), a mais recente edição, a proximidade temporal não permite verificar seus efeitos”, explica Yumi e completa:

“Portanto, os estudos de caso analisados foram os JO de Sydney (2000), que apesar do legado das cidades-sede ainda não estar presente na Carta Olímpica (apenas em 2003), é identificada como a primeira cidade a planejar o evento pensando em deixar benefícios à sede por meio de um Plano Diretor Pós-evento; e Beijing (2008) por ser a cidade que mais investiu em infraestrutura, principalmente metroferroviária”.

Segundo a pesquisadora, é possível verificar que as cidades-sede tinham concepções e necessidades diferentes de legado; portanto, não foi estabelecido um mesmo conjunto de indicadores de análise aplicados nas duas cidades. A partir do plano proposto para os JO, foram elaborados métodos de análise espacial que verificassem sua efetividade. Portanto, o objetivo geral da tese é identificar as dinâmicas físicas nas cidades-sede dos JO resultantes da realização de grandes projetos urbanos analisando seus efeitos na forma urbana e interpretando em que medida isso beneficia a população local em longo prazo.

ANÁLISE RELACIONAL – SYDNEY E BEIJING

De acordo com a pesquisa, em termos de configuração urbana, Sydney e Beijing expressam em seus planos diretores sua preocupação com a expansão urbana desordenada: Sydney, com ocupação residencial de baixa densidade, sendo a tipologia predominante os lotes unifamiliares; e Beijing, apesar de densidades mais altas nas áreas periféricas, a configuração ocorre de forma fragmentada com usos conflitantes (industrial, residencial, agrícola convivendo lado a lado). Ambas elaboraram seus planos de intervenção no período de preparação dos JO com o objetivo de direcionar o crescimento e manter a cidade compacta, preceitos da forma urbana considerada mais sustentável do que a cidade dispersa.

Yumi Yamawaki explica que apesar de verificar diferenças entre as configurações urbanas, não houve a intenção de comparar as duas cidades com a utilização de critérios idênticos de avaliação, como densidade, compacidade, diversidade de usos, entre outros. Estes foram utilizados como instrumentais para a compreensão da realidade presente em cada uma das cidades de maneira individual.

“Em ambas as cidades, foi possível constatar que os planos elaborados para os JO vão ao encontro da busca por ocupações de altas densidades, usos mistos e intensificação, que segundo Burton significa processo de adensamento de áreas consolidadas. Beijing, em apenas 4 anos, parece estar se configurando nesse sentido. Ao contrário, Sydney, no entorno do PO, permanece com usos específicos e baixas densidades”, afirma.

A pesquisa mostra que é possível perceber a intenção de aproveitar a aceitação, o otimismo gerado pelo evento para propor projetos complexos, que exigem significativos investimentos e de difícil conciliação entre a população, os níveis governamentais e os interesses privados. A elaboração de leis específicas ao evento após a escolha da cidade como sede, demonstra o redirecionamento do planejamento urbano local que contemplam políticas voltados à cidade e também a interesses circunstanciais pouco discutidos.

Sydney propunha integração regional e a consolidação das municipalidades integrantes dos anéis interno, médio e externo como unidade metropolitana em um contexto histórico de imposição por parte de New South Wales em relação a modificações de perímetro urbano e regional; assim como alternâncias de perda e ganho de autonomia local. Beijing propunha o fortalecimento de novas centralidades, desalojando significativos contingentes populacionais e impondo a transferência de empresas privadas para essas novas áreas. No entanto, para um país autocrático, essas dinâmicas no espaço urbano ocorrem sem resistências.

“Apesar disso, o principal processo de mudança ocorrido no período que antecedeu os JO para as duas cidades-sede foi a conquista de mais autonomia em relação aos níveis governamentais superiores. No caso de Sydney, o estreitamento das relações entre municipalidades consolidou a região metropolitana e; no caso de Beijing, o fortalecimento do poder local em relação ao governo central, o que permitiu que os gestores municipais pudessem traçar diretrizes que gerassem benefícios localizados”, argumenta Yumi.

Desse modo, ambas tinham propostas de planejamento próprias, com objetivos específicos tanto espacialmente como politicamente e que não estavam diretamente relacionadas ao evento. Essa característica pode ser considerada a principal aproximação com a experiência de Barcelona, considerada exemplo de sucesso. Num contexto de reposicionamento político após o término da ditadura no país, Barcelona pretendia expor suas diferenças em relação aos castelhanos e adquirir autonomia econômica, com aspirações separatistas. Para isso, elaborou um conjunto de intervenções urbanas que recuperou as áreas degradadas e transformou-as em novas centralidades com o objetivo de atrair o interesse internacional.

“A partir da preparação para o evento, foi possível verificar em ambos os casos uma dinâmica construtiva mais acentuada nos anos próximos ao anúncio da escolha da cidade como sede, do que no ano do evento e nos anos posteriores a ele. Isso demonstra que o contexto de euforia da população contribui para acentuar temporariamente os fluxos econômicos locais, principalmente relacionados à valorização imobiliária. Isso já pode ser observado também no Rio de Janeiro, que em 2012, após o anúncio da sede dos JO de 2016, tornou-se a terceira cidade com metro quadrado mais caro no mundo. Contudo, pode ser verificado nas cidades analisadas que a valorização é predominantemente especulativa, e que os valores retornam a patamares próximos aos encontrados antes do evento”.

De acordo com Yumi Yamawaka, em Sydney e em Beijing os JO impactaram na atração de investimentos à cidade, na atração de turistas e novos residentes – e na consequente expulsão de outros, principalmente imigrantes. Conforme Poynter (2008), os JO beneficiam apenas algumas parcelas da população e a forma como são planejadas as intervenções e as políticas determinam qual será esse público. O que ocorreu nas duas cidades foi o favorecimento de grupos econômicos dominantes que impõem o estabelecimento de regras que defendam seus interesses facilitados pelo “estado de exceção” vigente. Nas duas cidades, houve o agravamento das diferenças sociais, sendo que a população mais pobre ficou à margem do evento.

O que pode ser constatado em ambos os estudos de caso, foi que o processo de planejamento da cidade para os JO foi realizado sem participação popular. Em Sydney a justificativa das autoridades foi a urgência do processo de preparação para um evento com data preestabelecida. Em Beijing, apesar do longo processo de escolha da proposta e planejamento, também não houve participação da população em função do regime político. “Portanto, a conquista do direito de sediar os JO não garante necessariamente o engajamento da sociedade local. Em termos físicos as duas experiências demonstram a dificuldade de tornar as estruturas esportivas em espaços frequentados depois dos JO, financeiramente autossuficientes e que promovam a integração com o entorno. No entanto, Beijing, que paralelamente direcionou seus investimentos na expansão do transporte metroferroviário, obteve maior êxito na consolidação de seu plano”.

 

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