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Como o planejamento urbano e regional pode se tornar um vetor estratégico do desenvolvimento econômico e social? O INCT Observatório das Metrópoles divulga a publicação do livro “Socialismo chinês, do planejamento aos projetos urbanos e de transporte“, de Vitor Boa Nova, como parte da Coleção Metrópoles: Teses e Dissertações, editada em parceria com a Letra Capital Editora. A obra está disponível para download gratuito em nossa Biblioteca Digital.

Fundamentada no materialismo histórico e dialético, a obra analisa o desenvolvimento urbano e regional da China a partir da articulação entre economia política, território e ação estatal. O autor investiga como a planificação e a execução de grandes projetos urbanos e de transporte constituem elementos centrais do processo de desenvolvimento econômico e social chinês, conformando o que denomina de “Nova Economia do Projetamento”.

O livro demonstra que o planejamento urbano e regional ocupa um papel estratégico no modelo chinês de desenvolvimento, manifestando-se em um processo de urbanização regionalizado, sustentado por investimentos massivos em infraestrutura e equipamentos urbanos. Projetos como a rede de Trens de Alta Velocidade e a Nova Área de Xiong’an são analisados como expressões concretas da capacidade estatal de coordenar o desenvolvimento territorial, elevar as forças produtivas e ampliar as condições de vida da população.

Ao mesmo tempo, a obra apresenta uma reflexão crítica sobre o lugar do planejamento nas ciências sociais e nas políticas públicas contemporâneas. O livro propõe a retomada do planejamento urbano e regional como prática política e científica voltada à transformação da realidade. A experiência chinesa, segundo Boa Nova, serve como referência analítica e inspiração para o debate brasileiro.

O trabalho é resultado da tese de doutorado defendida pelo autor no âmbito do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IPPUR/UFRJ). Boa Nova também integra o Núcleo Rio de Janeiro do INCT Observatório das Metrópoles, onde desenvolve pesquisas no campo do desenvolvimento urbano e regional, com ênfase na economia política da urbanização e no planejamento territorial.

Confira o prefácio, escrito pelo geógrafo e professor da UERJ, Elias Jabbour:

O livro que está em suas mãos neste momento é o trabalho mais profundo e qualificado escrito por um autor brasileiro sobre a dinâmica regional e urbana chinesa. E isso não é pouca coisa, pois nenhum território passou pelas profundas transformações pelas quais sofreu a China nas últimas décadas. Por isso, a escolha de uma teoria adequada e a capacidade de trabalho para observar a dinâmica de diferentes tempos históricos e modos de produção em movimento neste mesmo território, além de atributos muito difíceis de encontrar em uma pessoa, tornam-se ainda mais evidentes quando se depara com a capacidade de pensar e trabalhar de Vitor Boa Nova.

O trabalho de Vitor é correspondente ao seu brilhantismo nato, à coragem de pensar de forma livre e à disposição ao duro trabalho científico. O autor é jovem, e o futuro guarda a possibilidade de termos entre nós um intelectual de excelência nacional e internacional. Mais do que isso, um livre pensador comprometido em mudar a realidade, não se contentando em apenas analisá-la. Este livro é a primeira síntese de um prodígio que cresce entre nós.

O livro, fruto de sua tese de doutorado, utiliza-se de duas abordagens teóricas. A mais fundamental é a lei do desenvolvimento desigual desenvolvida por Lênin. A inovação reside no resgate dessa abordagem para a compreensão da dinâmica territorial de uma formação econômico-social de caráter complexo, na qual diferentes tempos históricos operam em clara unidade de contrários. Partindo de dois conceitos que sustentam essa teoria leniniana — o “desenvolvimento em profundidade” e o “desenvolvimento em extensão” —, Boa Nova nos entrega a possibilidade inovadora de perceber a construção do socialismo em sua dimensão territorial. Como demonstrado no livro, se a grande empresa pública é o instrumento que confere o caráter “profundo” do desenvolvimento, torna-se possível compreender como o socialismo, enquanto forma histórica, vai ganhando corpo e prevalência em relação a outros modos de produção internos.

O caráter extensivo do desenvolvimento é perceptível na própria mudança de caráter dos outros modos de produção em movimento. Nesse processo, o que se pode chamar de “propriedade privada” vai se tornando cada vez mais não pública. Os projetos urbanos apresentados no livro são expressões da relação entre desenvolvimento em profundidade e em extensão. O caráter planificado e de alta tecnologia que esse processo adquire na China aprofunda a reflexão e nos leva a pensar, com mais seriedade e zelo científico, o caráter urbano — e não rural — do socialismo.

Além dessa viagem teórico-empírica de alto nível proporcionada por Vitor Boa Nova, o autor também se torna um agente de resgate da teoria do projetamento elaborada pelo economista brasileiro Ignácio Rangel. Aqui, a lei do desenvolvimento desigual e o projetamento rangeliano se fundem em uma abordagem tão original quanto profunda.

Entendemos o projetamento enquanto uma teoria adaptada ao nosso tempo histórico, potente no sentido de nos prover explicações sobre uma realidade em que a planificação econômica atingiu um patamar superior, indicando outro nível nas relações entre ser humano e natureza. Essa condição, por sua vez, nos desafia a elaborar teorias, categorias e conceitos ajustados a esse novo momento histórico que a China inaugura. A transformação da razão em instrumento de governo — enquanto desdobramento da utilização da razão como denominador comum nas relações custo-benefício de um projeto — exprime uma forma de governar e gerir o território de maneira científica, com cada caso pensado a partir de suas contradições e de seus efeitos potencializadores do movimento. Esse processo sacode os alicerces da sociedade e do governo em busca de soluções e inovações institucionais que oferecem não apenas respostas a determinadas contradições, mas também as bases para o próximo salto dialético do desenvolvimento.

Vitor Boa Nova transforma tudo isso em um livro que deverá se tornar um clássico no campo do desenvolvimento regional. Brilhante, expressa a capacidade intelectual do autor e emociona ao demonstrar como o território reage diante de ações humanas previamente deliberadas.

Aproveitem este livro único. Que o Brasil produza, aos borbotões, jovens com cada vez mais traços de genialidade e criatividade como Vitor Boa Nova.

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