Wilson Cano (1937-2020).

Por Maria do Livramento Clementino
Coordenadora do Observatório das Metrópoles Núcleo Natal
Professora do Departamento de Políticas Públicas (UFRN)

Conta-se aqui no Nordeste que um dia, Dom Elder Câmara, Arcebispo de Olinda e Recife, deveria homenagear um grande amigo. Ele se perguntava: o que dizer para dizer tudo? E dirigindo-se a seu amigo, ele simplesmente disse: amigo, você sabe! Hoje, tenho vontade de fazer do mesmo jeito e dizer simplesmente: Wilson, você sempre soube!

Na década de 1980 eu iniciava em Campinas (SP) uma experiência de formação intelectual e profissional. Chegava na UNICAMP para iniciar minha pós-graduação na Sociologia Rural. Fui acolhida, no IFCH (Instituto de Filosofia e Ciências Humanas), pela professora Nazaré Wanderley. Levava na bagagem, minha família, meus filhos ainda pequenos e a proposta de estudar o Nordeste, a modernização da economia nordestina e a propalada “vocação têxtil” do Rio Grande do Norte.

Ainda no mestrado, ao me deparar com as questões teóricas da intermediação comercial e financeira da agroexportação do algodão do final do século XIX até os anos 70 do século XX, cheguei ao Departamento de Planejamento Econômico (DEPE) e ao professor Wilson Cano, então Coordenador do Programa de Pós-Graduação em Economia. Fui atendida na minha solicitação de cursar as concorridas disciplinas de Economia Política e Economia Brasileira, sendo esta última ministrada por Cano.

Fui para Campinas estudar e estudei com afinco. Um dia, o professor abriu a porta da sala lá no “barracão” e me entregou o trabalho corrigido dizendo: “seu trabalho merece ser publicado”. Ao ler suas observações, estava lá escrito: “leu tudo, entendeu tudo e, bem”. Vindo de Wilson Cano, sempre direto, reto e justo, esta observação fez aumentar a minha responsabilidade como sua posterior aluna de doutorado, que concluí em dezembro de 1990, sob sua orientação.

Devo dizer que, desse encontro, nasceu uma relação profissional e de amizade que nutrimos até este crucial momento de sua morte. Minha trajetória acadêmica foi profundamente marcada por esse brilhante intelectual, grande brasileiro, que continuará conosco através de sua obra. Tinha a estatura de Celso Furtado, Caio Prado, Francisco de Oliveira, Paul Singer, Darcy Ribeiro e outros da mesma geração preocupados com um projeto de Nação, para o Brasil. Seu artigo “Brasil: construção e desconstrução do desenvolvimento”, de 2017, encontra-se como último registro nos “Textos para Discussão” das publicações do IE/UNICAMP e em seu próprio blog. Nele, você encontra trabalhos de uma vasta produção entre: (i) artigos completos publicados em periódicos, (ii) livro publicados e organizados ou edições (iii) textos em jornais e revistas, (iv) trabalhos completos publicados em anais de congresso, (v) apresentação de trabalhos e (vi) outros tipos de produção bibliográfica. Enfim, um legado àqueles que pensam o futuro do Brasil criticamente.

E o que dizer da influência da obra de Wilson Cano, de seu legado, para gerações de pesquisadores e professores universitários brasileiros? Diria que é fundamental à explicação da história econômica brasileira, notadamente, no século XX, pois, de modo crítico, dá conta de analisar a passagem de uma realidade econômica marcada por complexos regionais para outra, de uma economia industrial nacionalmente integrada. Não é, evidentemente, o caso de tentar aqui a apresentação mais ampla de sua obra, ou até mesmo resgatar as linhas mestras de seu pensamento. Seria por demais longo e exigiria uma capacidade de síntese que receio não conseguir, neste momento, demonstrar. Mas gostaria de fazer breves considerações que julgo da maior importância para a questão regional brasileira. Em particular, a gênese das desigualdades regionais e os processos que estão por trás de economia tão desigual e heterogênea.

O professor Cano fez isso com maestria e de forma profunda, sequenciada, em seus dois trabalhos basilares: Raízes da Concentração Industrial em São Paulo (1981) e Desequilíbrios Regionais e Concentração Industrial no Brasil (1985). Constituem, em suas variadas versões, publicações e atualizações “um dos mais completos painéis sobre a gênese das desigualdades regionais, sobre a formação do mercado interno brasileiro, e sobre a evolução e estrutura regional da indústria”. Assim se expressou Leonardo Guimarães, por ocasião do seminário “Desenvolvimento e Questão Regional e Urbana no Brasil”, organizado pelo IE/Unicamp, e que participamos por ocasião de sua aposentadoria compulsória, em 2008, quando se reuniram muitos de seus ex-orientandos.

No primeiro livro (está na 5ª edição), constrói o fundamento de seu pensamento: a importância e o papel de São Paulo na dinâmica inter-regional do país. Para ele, não se trata de analisar apenas a economia cafeeira em São Paulo antes de 1930, mas de verificar o desenvolvimento de relações capitalistas de produção aí vigentes e a formação de um complexo econômico: o complexo cafeeiro de São Paulo. Ou seja, as “Raízes” remontam ao início do século XX e não, “como pensavam alguns”, ao pós-Crise de 1929.

O segundo livro, Desequilíbrios Regionais e Concentração Industrial no Brasil (especialmente, o Capítulo V – Integração do Mercado e Constituição da Periferia Nacional), foi fundamental para marcar nossos estudos sobre o Nordeste brasileiro. Ao examinar o processo de integração do mercado nacional, comprovando a inexistência de estagnação regional na economia brasileira no pós-30, abre um profícuo debate sobre o Nordeste com outras vertentes do pensamento social brasileiro acerca dos impactos da Integração Produtiva na periferia, liderando estudos de significativo desdobramento.

A partir de seus ensinamentos, entendemos como o Nordeste conseguiu adaptar-se a modernização provocada pela “industrialização restringida”. Quais as novas necessidades colocadas para o Nordeste pela integração do mercado nacional de mercadorias, e depois, do mercado nacional de capital? A partir da leitura dos textos de Wilson Cano e de forma muito breve, diria que um primeiro problema na interpretação do Nordeste no período da “industrialização restringida” dizia respeito às conexões que se estabeleceram na formulação da periodização, entre as fases de desenvolvimento do capitalismo no Brasil e aquelas relativas a uma participação mais favorável do Nordeste no processo de industrialização da economia brasileira iniciado nos anos 1930. Pois, na construção do período anterior (1886/1933), a literatura nos ajuda a interpretar a região sem maiores problemas, como nos ensina o próprio Cano “salvo as pequenas linhas de integração preexistentes entre algumas regiões do país, este, na verdade, era muito mais uma soma de regiões econômicas distintas” (Desequilíbrios…, p. 229).

Para os que estudam o Nordeste, é a partir de 1930 é que começam as dificuldades de interpretação da realidade regional à luz do processo de desenvolvimento do capitalismo no Brasil. Tratando-se do Nordeste, se mantém a estrutura da economia exportadora e o domínio do capital mercantil É reconhecido Cano e por vários outros autores que no Nordeste e em outras partes da periferia nacional a estrutura da economia exportadora reagiu ao que Celso Furtado chamou de “deslocamento do centro dinâmico da economia”, no sentido de preservar a reprodução de sua base material – a grande propriedade fundiária. Essa reação às transformações requeridas pelo processo de desenvolvimento capitalista abriu espaço pra que o capital mercantil continuasse a comandar a maior fração do processo de acumulação na região, perdendo muito pouco terreno para o capital industrial, mesmo adiante, quando havia se completado o processo de constituição das bases produtivas de desenvolvimento do capitalismo no Brasil.

Como historicamente no Brasil a articulação entre a agricultura e a indústria foi feita pelo capital comercial para a maioria dos produtos agrícolas, Cano nos ensinou que “o domínio do capital mercantil manteve-se sobre a agricultura nacional capturando-lhe grande parte do excedente; no financiamento, comercialização e distribuição de produtos tradicionais, tanto os destinados ao mercado interno quanto os destinados às importações” (Desequilíbrios…, p. 229). No Nordeste as exportações para o exterior “continuaram por muito tempo a ser o elemento dinâmico dessas economias. Elas somente passariam a segundo plano a partir do momento em que fossem superadas pelas exportações para o mercado interno, o que viria a ocorrer a partir de meados da década de 1950” (Desequilíbrios…, p. 225).

Aqui cabe uma observação sobre aspecto que considero da maior relevância. O trabalho de Wilson Cano se diferencia de um grande número de estudos pelo fato de não se limitar ao exame das diferenças de ritmo da economia, que caracterizavam o comportamento dos espaços regionais. Segundo Leonardo Guimarães “o que ele busca é identificar as razões que estão por trás dessa diferencial na industrialização e, uma vez iniciado tal processo, relações econômicas se estabeleceram entre as economias regionais”. Isto faz a diferença. Este é o passo seguro e definidor da caminhada que Cano irá fazer no desenvolvimento futuro do seu trabalho para compreender a questão regional brasileira. A ênfase no papel dominante do capital mercantil em algumas regiões, no atraso ao processo de diversificação produtiva, é parte constitutiva de sua empreitada no aprofundamento na histórica econômica regional.

Já no que se refere à desconcentração industrial, que tem início nos anos 1970, foi caracterizada por Wilson Cano através de dois movimentos. Um que vai de 1970 a 1985, por ele denominado de “auge da desconcentração industrial regional”, no qual São Paulo sofre perdas significativas na sua participação industrial; e outro que alcança os anos de 1985 a 1995, para o qual o autor usa a expressão de “inflexão do processo de desconcentração industrial”. Posteriormente, aprofundou essas questões no livro “Desconcentração regional produtiva no Brasil: 1970-2005” (2008). Nessa obra, Wilson Cano atualiza sua análise do processo de desequilíbrios regionais até 2005, com destaque para a fase de abertura da economia nacional e da implantação das políticas econômicas neoliberais até a metade da primeira década do século XXI.

O trabalho de Wilson Cano teve desdobramentos em várias direções. Foi inspirada nos seus ensinamentos que comecei a refletir sobre a relação entre agricultura e urbanização na história econômica e urbana do Nordeste, seguindo o caminho metodológico que ele mesmo indicou. Num artigo publicado na Revista Reforma Agrária (“Agricultura e Urbanização”, Campinas, ABRA, abril-julho de 1986), em plena Nova República e Plano Cruzado, ele ressaltou que a reflexão socioeconômica sobre os problemas da agricultura e sobre a urbanização deveria ser realizada de forma integrada, e propõe que as preocupações acadêmicas se voltem para uma reflexão que tente a entender o fenômeno urbano não apenas como fruto de sua própria evolução, mas como resultante, também, do processo de desenvolvimento rural. Numa crítica à visão “intramuros”, estudou a dinâmica da urbanização utilizando um espectro mais detalhado de relações de interdependência setorial com os vários compartimentos sociais e econômicos do urbano e do rural. Dentro da economia urbana, deu ênfase às múltiplas relações entre os setores industriais e os serviços, lançando luz à própria dinâmica dos componentes do atual setor de serviços. Ainda, adentrando no estudo da urbanização brasileira, não poderia fugir das indagações sobre ações e omissões do Estado no planejamento urbano, no uso do solo e de suas políticas sociais, bem como dos agentes na órbita privada – o capital mercantil e o capital imobiliário construtor. Embora vários desses estudos sejam dos anos 1980 e 1990, só em 2011 reuniu-os no livro “Ensaios Sobre a Crise Urbana do Brasil”.

Ainda analisando o papel de Wilson Cano na produção sobre o desenvolvimento, acredito que não se pode deixar de destacar sua participação em três outros conjuntos de estudos sobre o Brasil e suas regiões: sobre as experiências internacionais de desenvolvimento regional, com destaque para o livro “Reflexões sobre o Brasil e a (Des)Ordem Internacional” (1993) fruto de seu pós-doutoramento na Europa em 1992;  sua concepção de planos regionais e locais e para a avaliação crítica sobre o localismo, colocadas, por exemplo, no prefácio do livro de Carlos Brandão, “Território & Desenvolvimento”; e ainda, sobre economia urbana no enfrentamento de algumas questões metodológicas que, em sua maior parte, restringiam a análise da economia urbana e que podem ser encontradas no artigo “Setor Terciário no Brasil: algumas reflexões sobre o período 1970-1989”, escrito em parceria com Ulysses Semeghini, em 1991, para o IV Encontro Nacional da ANPUR.

Importante, por fim, registrar que nunca abandonou os estudos relativos à economia de São Paulo, entre eles: “Economia Paulista – Dinâmica Socioeconômica entre 1980 e 2005”, cuja organização é compartilhada com Carlos Brandão, Cláudio Maciel e Fernando Macedo. Além disso, ainda centrado na temática da economia de São Paulo, vale destacar “A Interiorização do Desenvolvimento Econômico do Estado de São Paulo” e “São Paulo no Limiar do Século XXI”. Ou seja, foi realizando pesquisas, escrevendo livros ou artigos, debatendo na academia e fora dela, discutindo políticas e planos, orientando teses e dissertações que o professor Wilson Cano viveu. Gostava do que fazia e dizia que “não tendo aprendido a pescar, gostava de ser professor”. Deixa-nos uma contribuição marcante no conhecimento das desigualdades regionais, da heterogeneidade, dos processos que ocorreram ou estão ocorrendo na articulação entre as economias regionais, dos caminhos e descaminhos dos vários governos na abordagem da questão regional brasileira, e no reconhecimento de que existem no país potencialidades econômicas, políticas e sociais para transformar o Brasil em uma nação justa e solidária, apesar das elites que há décadas dirigem o país.

Sua viagem para outro plano dessa constelação, que é o universo infinito, deixa gerações órfãs. Lamentavelmente, as nossas referências acadêmicas estão nos dizendo adeus. Partiu um grande brasileiro, perdemos o convívio do diálogo intelectual e a generosidade de sua amizade; mas fica indestrutível o legado e a produção que farão sempre parte do nosso arsenal e memória. À Selma e aos “meninos” nosso imenso pesar. Descanse em paz, meu amigo.