Vencedores e perdedores: lições da Copa da África do Sul

By 07/11/2012janeiro 11th, 2018Artigos Científicos

Os custos totais para a realização da Copa do Mundo 2010 alcançaram a cifra de U$ 7,4 bilhões de dólares. Inicialmente as estimativas do governo sul-africano de custos para os estádios e infraestrutura eram de menos de U$ 2 bilhões, com o passar dos anos, esta quantia mais do que dobrou. O resultado? Entre os dez estádios construídos ou completamente reformulados para o evento, nada menos do que cinco deles estão hoje subutilizados. O legado esportivo e social da Copa da África do Sul é um dos destaques do Boletim Copa em Discussão nº 14, periódico eletrônico editado pelo Núcleo Curitiba do INCT Observatório das Metrópoles, Projeto Cidade em Debate e LaDiMe.

No artigo “Vencedores e Perdedores: lições de grandes gastos e benefícios imprecisos na Copa da África do Sul”, o pesquisador Alexandre Gomes Ferreira mostra que a população sul-africana foi um dos perdedores no contexto do megaevento da FIFA, já que parte do legado prometido não foi cumprido.  Um bom exemplo é a geração de empregos. Ante as previsões de 695 mil postos de empregos temporários e permanentes, o que se viu foi uma redução de quase 5% nos postos de emprego no trimestre anterior a Copa (627 mil postos de trabalho). No setor da construção civil, assim que os projetos foram concluídos, desapareceram os empregos criados.

A pergunta que fica é quem ganhou com a Copa FIFA 2010? Quais foram os vencedores? Além dos nítidos ou até óbvios ganhos da FIFA é possível identificar outros ganhadores com a realização do evento: um pequeno grupo da elite local em parceria com grupos estrangeiros que poderiam ser enquadrados naquilo que Harvey (2011) define como “nova oligarquia global”. Cinco empresas do setor da construção civil foram as principais beneficiadas ao concentrar, sob seu poder, praticamente todos os projetos de construção e reforma de estádios assim como os de infraestrutura. Dados do setor de estatística da África do Sul mostram que em 2007 o lucro do setor de construção civil foi de 1.3 bilhões de dólares, um aumento de 143% em relação ao ano de 2004 (Tall, 2011). Obviamente a maior parte dos investimentos estava relacionada aos projetos da Copa do Mundo em 2010.

 

Boletim Copa em Discussão nº 14

A edição nº 14 do Boletim Copa em Discussão traz novidades. Além da produção dos pesquisadores do Núcleo Curitiba do INCT Observatório das Metrópoles, agora o Núcleo Porto Alegre também passa a colaborar mensalmente com o periódico, ampliando assim as discussões sobre o tema.

E é nesse sentido que a pesquisadora Rosiéle Melgarejo da Silva discute, na seção Copa em Análise, os espaços públicos na ótica da Copa do Mundo e, para além de demonstrar as implicações nada indiretas do megaevento esportivo em Porto Alegre, a autora analisa a movimentação da sociedade civil organizada que parece, aos poucos, emergir diante da materialização das “políticas públicas” patrocinadas coercivamente pela FIFA, como indica os casos de normatização de locais, até então, tidos como públicos. Novas reflexões e questionamentos surgem a partir dos eventos discutidos no texto. Estaríamos diante de uma nova e inibidora frente de ocupação, pelo poder privado, de áreas – públicas – propícias para encontros e questionamentos da comunidade local? Quais os reflexos de alianças do Poder Público com agentes privados no exercício do direito civil constitucional de protestos e reivindicações?

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Outro destaque do boletim é a seção Copa em Dados a qual mostra um panorama da primeira lista dos centros de treinamento para a Copa 2014. E em Copa Acadêmica, um levantamento dos documentos elaborados pelos movimentos sociais e entidades ligadas à defesa dos direitos humanos, no âmbito dos megaeventos.

Acesse a edição nº 14 do Boletim Copa em Discussão aqui.

Veja também todas as edições do periódico eletrônico na página do Projeto Metropolização e Megaeventos.

Última modificação em 07-11-2012 22:18:07